Morin

Animais

“Deste terraço à beira do mar, em Mission Bay, deste bistrô de pescadores à californiana (ou seja, por esporte e não por profissão), jogam-se migalhas de pão às gaivotas, aos pombos, aos pardais que se agrupam, os pardais mais ousados próximos de nós, os pombos mais reservados e mais tímidos do que na França: as gaivotas, ariscas, desconfiadas, permanecem a dois metros. Cada um por si. Cada um se esforça para picar o alimento do seu vizinho semelhante.
Este egoísmo individual arrebatado é ao mesmo tempo o menos individual que existe; ele se inscreve na seleção natural, e faz triunfar o mais vivo e o mais forte. É geneticamente pré-determinado pela espécie, pela saúde da espécie.
Cada um luta contra seus semelhantes, portanto sua própria espécie, mas ao mesmo tempo por sua própria espécie. O mesmo ato leva consigo esses significados contrários. É aí onde se pode sentir, entre outros, a ambivalência geral de tudo aquilo que é vida.”
O diário da Califórnia. Éditions du Seuil, 1970. Tradução livre Nurimar Falci, 2001, São Paulo.

BALEIAS
“Elas passam, oriundas dos mares árticos, para se encontrarem e se amarem nas águas quentes da Baixa Califórnia. Elas vão em pequenos grupos, jogando, flertando, dando cambalhotas, enormes e ágeis. Algumas vezes podemos ver rapidamente uma explosão branca, um jato de água poderoso... É o começo do mundo. É Bernardin de Saint Pierre... Eu não sei explicar como essas alegres baleias me fazem feliz”.
Journal de Californie. Éditions du Seuil, 1970. Tradução livre Nurimar Falci, 2001, São Paulo.

“O ZOO. O maior do mundo (...) Nós paramos aí, Johanne e eu, diante do condor de San Diego, sonhando com o condor do Rio de Janeiro. Eis que o condor se aproxima de nós, e começa a picar a rede de arame, como se para nos pedir para ajudá-lo a sair. Como para nos fazer compreender que ele não pede comida, mas sofre por ser prisioneiro, ele esfrega seu pescoço, lastimoso, na borda de cimento sobre o qual está presa a rede de arame, depois pica novamente a rede, depois esfrega novamente o pescoço. Nós ficamos impotentes e com vergonha, incapazes de fazê-lo compreender que nós não podemos fazer nada por ele.
“Há alguns anos, no zoo de Berlim, um pássaro tropical, que estava sozinho na gaiola, dirigiu-se até nós, ele tinha apanhado com o bico um graveto no chão, depois estendeu-o para mim através da rede de arame. Eu apanhei o graveto, e no mesmo instante o pássaro começou a bicar furiosamente o viveiro de arame querendo exatamente dizer: ’Eu não posso mais, socorro, tirem-me daqui.’ Eu ofereci então um outro raminho ao pássaro, ele o jogou fora, foi colher ainda um graveto que ele me estendeu de novo, e uma segunda vez ofereceu rapidamente seu presente, e  começou a bater  como um louco na tela de arame. É possível que ele tenha me oferecido um presente para eu lhe fazer um favor? Teria ele compreendido que eu poderia entendê-lo e entender sua sede de liberdade? O que ele não tinha compreendido é que eu não podia fazer nada por ele.”
Journal de Californie, Éditions du Seuil, 1970. Tradução livre Nurimar Maria Falci, São Paulo, 2001.

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A seção círculo poético é a espinha dorsal deste site. 64 palavras-chave foram selecionadas pela pesquisadora Nurimar Falci, sob orientação de Morin, para proporcionar um acesso inusitado, lúdico e participativo à obra do pensador francês. As palavras são associadas aleatoriamente aos 64 cubos que formam um cubo maior: clique em "índice" para visualizar a disposição espacial das palavras.

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