Morin

Culpabilidade

“Sexta-feira, 19 de setembro 1969 – Esta manhã redigindo o final das minhas notas sobre Monod, sentimento de beatitude. Eu me sentia transportado aos tempos felizes da meditação a beira do Mediterrâneo, onde desconectado de tudo, eu deixava vir a mim aquilo que me importava verdadeiramente. Aqui, pela generosidade de John Hunt, de Monod, de Salk, eis-me de novo desconectado num oásis quase mediterrâneo, levado a refletir sobre aquilo que me interessa mais no mundo, e ao mesmo tempo eu estou em lugares onde fermenta aquilo que me mais me importa no mundo: hospedado, alimentado, cultivado para precisamente voltar a mim mesmo e me abrir para o mundo. Essa felicidade me brotou tão repentinamente, tão violentamente que foi rapidamente seguida de um mal estar... Eu me sinto culpado de ser livre, de fazer aquilo que me interessa, e que isso me seja como um presente recebido. Eu não paguei nada por essa felicidade, nem através de uma doença, nem por um sacrifício... De resto menos ainda (??)... Eu me sinto inquieto: tudo se passa bem demais. Atavismo oriental (é preciso desconfiar quando as coisas vão muito bem); angústia a qual se mistura minha culpabilidade, cada uma incitando a outra.”
O Jornal da Califórni. Paris: Édtions du Seuil, 1970. Tradução livre Nurimar Falci, São Paulo, 2001.

“O DEMÔNIO DA CULPABILIDADE –  O homem parece até hoje ter necessidade do culpado para explicar-se, localizar-se, reduzir o mal. Digamos de uma vez que ele tem necessidade de noção do mal, que esta não é somente dano, lesão, mas também crime, pecado. A designação dos culpados pode ser institucionalizada; ela se efetua o mais freqüente, sociologicamente, segundo as linhas de ruptura que separam as minorias das maiorias, diferentes das semelhantes, desviantes das normais, etc. O interessante é de ver como facilmente o judeu, o portador de anomalia física, o árabe se tornam os nojentos, os imundos, ou seja, os culpados. Nas grandes ortodoxias, a culpabilidade se fixa na heresia, que se torna a própria expressão do demônio. O stalinismo tinha uma maior necessidade de traidores, de espiões, ou seja de culpados integrais, não somente para “iludir/dopar” as massas, segundo a ingênua explicação dos opositores ou inimigos, mas pela necessidade psico-afetiva interna, que transforma qualquer resistência do real em complô diabólico. Nos comportamentos cotidianos cada um segreda seus culpados; na escala elementar, o “ele não quer compreender”, que dirigimos àquele que não se satisfaz com as nossas explicações, introduz uma má vontade, ou seja, um inicio de culpabilidade, nas incompreensão do outro. O “é preciso ser de má fé” persegue esta caminhada que se expande no  “você mente e você sabe que eu minto”. Aqui, o processo de construção do repulsivo nome popular do culpado moderno  é realizado.”
Le vif du sujet. Paris: Éditions du Seuil, 1969. Tradução livre Nurimar Falci, 2001, São Paulo.

“Senti-me secretamente culpado após a morte de minha mãe. Por isso, minha ética tem certamente uma fonte subjetiva “neurótica”; por um lado, a consciência culpada fez-me aspirar à redenção pela aprovação ou pelo sacrifício; por outro, a hemorragia de amor desencadeada pela morte da mãe me devotou à procura desvairada da comunhão, do fervor, da adoração”.
Meus demônios. Bertrand Brasil, 1997.

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