Morin

Guerra

“A história nasce ao mesmo tempo que o Estado, a dominação e a guerra de conquista. Certamente, havia entre as sociedades arcaicas viszinhas guerras endêmicas, mas estritamente ritualizadas; houve seguramente expedições punitivas, massacres, conflitos de grupos para o controle de um lugar abundante em caça, mas nenhuma dentre elas era organizada para dominar a outra (...)
(...) A autonomia da sociedade histórica depende dos recursos agrícolas, matérias primeiras, tributos, riquezas que sustentam esta autonomia. Sob a pressão dessa necessidade e dessas ambições, ela agride seus vizinhos que têm as mesmas necessidades e ambições. A guerra, o poder, a ascenção e a queda dos Estados se sobredeterminam.
(...) Desde os princípios da história, ‘não houve nenhum ano, e provavelmente nenhum mês, em que o sangue deixou de correr; nenhum regime tribal, nacional, republicano, oligárquico, monárquico, nenhuma religião (...) que não se apresentasse manchada pela infelicidade dos outros e que não tenha sido, noutro lugar, a vítima, (do fanatismo) dos outros. Da Assíria, a Babilônia, a Pérsia, a Grécia, Roma, a China até os confrontos atuais, só existem conflitos, batalhas, massacres, genocídios, exterminações, terrorismos, e cada país foi tanto o agredido, a vítima, a caça, como o agressor, o caçador, o carrasco’ (Régis Viiguier).
(...) L’histoire naît de la guerre et entretient la guerre.”
O Método. vol. 5. A humanidade da humanidade. A identidade humana. Paris, Éditions du Seuil, 2001. Tradução livre Nurimar Falci, São Paulo, 2001.

“Terça-feira, 15 de agosto 1995 – (...) Tomo conhecimento hoje de que o Primeiro ministro socialista japonês Murayama desculpou-se pelas ações violentas e massacres cometidos pelo Japão imperial na China, Coréia, Ásia (...).
(...) Eu continuo a pensar que uma retratação japonesa, retroativa e oficial seria salubre, mas que aconteceria o mesmo no caso de uma retratação americana, retroativa e oficial por Hiroshima e Nagasaki (...).
E além disso, eu não sei quem faz a ressalva de que os massacres com facão (machete), a arma mais primitiva que existe, talvez tenha feito mais vítimas em Ruanda em 1994 do que as bombas de Hiroshima e Nagasaki em 1945.
Eu vou ser repetitivo, mas eu estou cada vez mais sensibilizado pelo caráter antropológico do massacre em massa. O país mais civilizado e mais cultivado da Terra, a Alemanha, foi capaz de massacres tão horríveis como aquele arcaicos de Ruanda, e os massacres de Hiroshima aconteceram não somente pela indiferença, mas pelo ódio e pela vingança. Existem condições de ódio, guerra, vingança, onde todas as formas ritualizadas ou civilizadas ainda presentes na guerra e na vendetta desaparecem, onde se libera e se torna contagiante a necessidade inextinguível de matar indistintamente e de fazer sofrer. A guerra da ex-Iugoslávia nos chama a atenção para o fato de que a Europa ainda não está curada, a guerra da Chechênia nos chama a atenção para o fato de que a Rússia não se curou. Nada é jamais curado, imune. A civilização deve sem cessar regenerar-se a si própria. Todo o progresso deve se regenerar sem cessar.”
Chorar, Amar, Rir, Compreender. 1er Jan.1995 – 31 jan. 1996. Paris, Arléa, 1996. Tradução livre Nurimar Falci, São Paulo, 2001.

“Os atentados aos Estados Unidos trouxeram a volta da ameaça de guerra nuclear que parecia ter desaparecido com o fim da Guerra Fria. (...) A hecatombe nuclear um fantasma da humanidade, algo sobre o qual não tínhamos muita consciência. Ela se tornou algo mais presente no nosso espírito. A irrupção da morte violenta no coração de uma civilização que parecia invulnerável foi um choque, uma onda de medo atravessou o mundo.
(...) Acredito que os fatos recentes podem nos ajudar a tomar consciência que os progressos da técnica na nossa civilização, inventaram, de algum modo, um novo tipo de morte. Até hoje, a História registrou massacres, epidemias, genocídios, mas isso nunca tinha ameaçado a sobrevivência do planeta. (...) Gostaria que os atentados provocasse uma reflexão sobre o processo geral de globalização da economia, pela simples razão que o terror foi globalizado.
Edgar Morin, diretamente de Sarajevo em entrevista por telefone ao Jornal Valor, em Angústia Global: Só temos que temer o próprio medo, 6ª feira, São Paulo, 5, 6, 7 de outubro 2001.

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