Morin

Idade

“Apesar do tempo que muda seu corpo e seu espírito, a identidade do Eu através das idades impede de perceber as descontinuidades que se operam em cada um com os anos e o decênio. Nosso corpo físico não é literalmente o mesmo várias vezes durante nossa vida. Sua morfologia e sua fisiologia se transformam. Haveria quase que uma mudança de pessoa quando vemos a que ponto os adultos e os velhos, esquecendo-se que foram jovens, consideram a juventude como uma sub-espécie particular; do mesmo modo os jovens, ainda que sabendo que envelhecerão, consideram os velhos como membros de uma espécie senil por natureza (...).
E portanto, através da multiplicidade sucessiva das idades, cada um, sem se dar conta, leva consigo em qualquer idade, todas as idades. A infância, a adolescência não desaparecem na idade adulta mas são recessivas; a infância reaparece nos jogos. A adolescência nos amores e nas amizades; o velho também mantém todas as idades precedentes, e pode mais livremente reencontrar a infância e a adolescência. Talvez o bebê  já fosse um velho.
Desse modo, o exemplo tão evidente das idades, ilustra esse paradoxo fundamental do indivíduo humano: a não identidade  na identidade.”       
Método 5. A humanidade da humanidade. A identidade humana. Éditions du Seuil. 2001, Paris. Tradução livre Nurimar Falci, São Paulo, 2001.

 “Terminei o maravilhoso colóquio de Città de Castello sobre a criança Mozart, da seguinte maneira: À pergunta:’ quantos anos você tem?’, dever-se-ia poder responder estamente: ‘Tenho todas as idades da vida humana.’ De fato, cada um de nós, com a idade, conservou as idades precedentes. Sêneca constata justamente em uma carta a Lucílio: “ Não somos mais jovens, mas, coisa ainda mais triste, nossas almas ainda o são; e, o que é pior, sob o ar imponente da idade adulta, guardamos os defeitos da juventude (...) e até mesmo da infância.’ E Oscar Wilde acrescenta – cito de memória: ‘O que é terrível quando envelhecemos é que continuamos jovens.’ Sabemos que o velho volta a ser criança, logo que ele se encontra afastado das obrigações e necessidades da vida adulta. Mas o adulto esquece e esconde a infantilidade que permanece em todo ser.
Vivi de uma maneira singular a superimpressão das idades. Fui velho desde a idade de dez anos, mesmo continuando criança e, em muitos pontos, continuei não apenas criança, mas infantil. A morte de minha mãe determinou, ao mesmo tempo, um envelhecimento irremediável e uma infantilização duradoura.
(...) Sou permanentemente a sede de uma dialógica entre infância/adolescência/maturidade/velhice. Evoluí, variei, sempre segundo esta dialógica. Em mim, unem-se mas também se opõem, os segredos da maturidade e os da adolescência.”
Meus Demônios, Bertrand Brasil, 1997.

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