Morin

Método

“Entendamo-nos: eu não procuro aqui nem o conhecimento geral nem a teoria unitária. É preciso, ao contrário, e por princípio, recusar o conhecimento geral: este escamoteia sempre as dificuldades do conhecimento, ou seja, a resistência que o real opõe à idéia – ela é sempre abstrata, pobre, ideológica; ela é sempre simplificadora. De mesmo modo, a teoria unitária, para evitar a disjunção entre os saberes separados, obedece a uma super simplificação redutora, mantendo todo o universo sob uma única fórmula lógica. De fato, a pobreza de todas as tentativas unitárias, de todas as respostas globais, confirma a ciência disciplinar na resignação do luto. A escolha não está entre o saber particular, preciso, e a idéia geral, abstrata. Ela está entre o Luto e a pesquisa de um método que possa articular aquilo que está separado e religar aquilo que está desunido.
Trata-se portanto, aqui, de um método, no sentido cartesiano, que permite conduzir apropriadamente a razão e procurar a verdade nas ciências. Mas Descartes podia, no seu primeiro discurso, ao mesmo tempo exercer a dúvida, exorcizar a dúvida, estabelecer as certezas preliminares, e fazer surgir o Método em Minerva armada dos pés à cabeça. A dúvida cartesiana estava segura dela própria. Nossa dúvida duvida de si própria; ele descobre a impossibilidade de fazer a tabula rasa, visto que as condições lógicas, lingüísticas, culturais do pensamento são inevitavelmente prejulgadas. E essa dúvida, que não pode ser absoluta não pode tampouco ser absolutamente esvaziada.
(...) Atualmente, nossa necessidade histórica é a de encontrar um método que detecte e não que oculte as ligações, articulações, solidariedades, implicações, imbricações, interdependências, complexidades.
É necessário que partamos da extinção de falsas clarezas. Não do claro e do indistinto, mas do obscuro e do incerto, não mais do conhecimento assegurado, mas da crítica da segurança.
Nós só podemos partir da ignorância, da incerteza, da confusão. Mas se trata de uma nova consciência da ignorância, da incerteza, da confusão. Aquilo de que tomamos consciência, não é da ignorância humana em geral, é da ignorância camuflada, dissimulada, quase nuclear no coração do nosso conhecimento reputado como mais certo, o conhecimento científico. Nós sabemos doravante, que este conhecimento é mal conhecido, mal conhecedor, parcelado, ignorante de seu próprio desconhecimento como de seu conhecimento. A incerteza torna-se viática; a dúvida sobre a dúvida dá à ela uma nova dimensão, aquela da reflexividade; a dúvida pela qual o sujeito se interroga sobre as condições de emergência e de existência de seu próprio pensamento constitui desde então, um pensamento potencialmente relativista, relacionista e auto-conhecedor; Enfim, a aceitação da confusão pode se tornar um meio de resistir à simplificação mutiladora. Certamente, no início, o método nos falta; pelo menos podemos nos dispor de um anti-método, onde ignorância, incerteza, confusão se tornam virtudes.”
O Método. t. 1. A natureza da natureza. Paris, Seuil, 1997. Tradução livre Nurimar Falci, São Paulo, 2001.

“Nós também temos a necessidade e um método que reuna o separado, afronte o incerto e supere as insuficiências lógicas;
(...) Um método que ultrapasse as alternativas provenientes da grande disjunção, notadamente espírito/matéria, dependência/autonomia, determinismo/liberdade, homem/natureza/cosmos, e que obedece à demanda do Heráclito: “Juntem aquilo que concorda e aquilo que discorda, aquilo que está em harmonia e aquilo que está em desacordo.
Porque a concórdia e a discórdia formam o tecido do complexus.
(...) Um tal empreendimento suscita também enormes mal-entendidos. Ainda que em tomos precedentes do Método eu tenha insistido sobre a idéia de que o tratamento da complexidade revela e sublinha as incertezas inerentes a todo conhecimento, e ainda que eu tenha indicado que o pensamento complexo comporta a consciência do inacabado de qualquer pensamento, os espíritos simplificadores nos atribuem um sistema total de caráter hegeliano. Ora, o pensamento complexo não pode e nem quer elaborar um sistema de inteligibilidade universal porque ele se diz ser dialógico, aberto, e admitir em seu seio a incerteza; em compensação, ele utiliza a noção de sistema para compreender a organização.”
Edgar Morin/Jean-Louis-LeMoigne, A Inteligência da complexidade. Editora Fundação Peirópolis, 2000.

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