Morin

Música

“Meu pai transmitiu-me apenas uma cultura de cançonetas, de café-concerto, de operetas. Ele cantava e assobiava de manhã à noite, por toda parte, e mesmo à mesa quando se sentia satisfeito. (...) Minha mãe gostava das árias de óperas italianas, e dava este gosto a meu pai, que cantava, copo à mão, “Biviamo” da Traviata ou “Questa quella” de Rigoletto. Eles tinham um gosto comum pelas canções espanholas de Raquel Meller, La Paloma, Valencia e enfim, El Relicario.
Após a morte de minha mãe, eu punha sem parar o disco El Relicario. (...) Eu não entendia a letra, que falava de amor e morte, mas era o infinito amor e a irremediável morte o que eu sentia ouvindo El Relicario.
Pisa morena pisa com garbo
Que un reliquario un reliquario me voy hacer,
Con el trocito de mi capote
Que haya pisado tan lindo pie.

(Pisa morena, pisa com graça / que um relicário vou fazer / com a aba de minha capa / que foi pisada por tão lindo pé)

(...) Da cançoneta passei ao canto de Kurt Weil em A Ópera dos Quatro Vinténs e às primeiras canções negras de Prévert–Kosma. (...) Decidi ir descobrir a Nona (Beethoven). Houve, inicialmente, o ínfimo arrepio despertado pelo vazio primordial e, subitamente, um duplo chamado de duas notas, seguida de duas notas de resposta, outra vez o chamado e a resposta surda, e o chamado voltando, encadeando-se, tornando-se insistente, febril, insuportável, lançando-se em um movimento irresistível até um dilaceramento inacreditável, o estou em big-gang, com um martelamento gigantesco, uma formidável criação do mundo. Era a gênese, o nascimento do cosmo em meio ao caos, com todo o que isto comporta de energia colossal, e que lança, em seguida, a aventura da vida com alternância de ternura, doçura, violência, loucura, recomeço. Pela primeira vez em minha vida, meus cabelos se eriçaram.(...)
(...) A música entrou em minha vida e nunca deixou de me falar daquilo que mais me interessa e que as palavras são incapazes de dizer.
Meus Demônios, 1997. Bertrand Brasil.

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