Morin

Ficha técnica

Concepção
André Vallias e Nurimar Falci

Pesquisa, redação e seleção de textos
Nurimar Falci

Direção de arte
André Vallias

Tecnologia
FactorWeb
Alexandre Victor Ferreira
Rubens Alves de Araújo Jr

Tradução Boucles
Nurimar Falci

Revisão Boucles
Nurimar Falci e Fernanda Pitta

Transcrição, tradução e edição Ateliê do Pensamento
Liliane Béraha

Revisão Ateliê do Pensamento
Fernanda Pitta

Fotos
Nilton Silva
Lila Rodrigues
Arquivo Edgar Morin

Superintendência de Comunicação Social
Ivan Giannini - superintendente

Gerência de Relações com o Público
Paulo Ricardo Martin - gerente

Portal SESCSP
Malu Maia - editora de conteúdo
Gustavo Gitti - gerente de projeto
Fernanda Hoshino - editora de Revistas
Laurisa Alves - editora da Newsletter
Marcelo Araújo - produtor editorial
Guilherme Bittar - estagiário

Superintendência Técnico-Social
Joel Naimayer Padula - superintendente

Gerência de Estudos e Desenvolvimento
Marta Raquel Colabone - gerente

Diretor Regional do SESC de São Paulo
Danilo Santos de Miranda

"Agora, diferentemente de Dorian Gray, de Oscar Wilde, posso envelhecer em paz, pois minha obra vai se rejuvenecer para sempre na Internet"
Edgar Morin, 2002

Caro SESC, caro Danilo Santos de Miranda,

como vocês tem sido amáveis comigo. Por várias vezes vocês me convidaram, bem me lembro. Em 1996, para um seminário internacional sobre a cultura nas metrópoles; em 1999, para um seminário realizado em São Roque, destinado a profissionais do SESC; em 2000, para uma conferência e para um atelier a respeito dos demônios que têm me estimulado ao longo de minha vida, e no qual pude mostrar trechos de filmes que me marcaram, de romances e poemas que me perturbaram, de músicas que me possuíram. Vocês deram-me a oportunidade de semear minhas idéias, de divulgar meus pensamentos, de comunicar-me com amigos conhecidos e desconhecidos.

Este site é bastante inusitado, porque bastante poético; seus temas foram tão bem escolhidos por Nurimar Falci e ilustrados por André Vallias, que eles permitem ver, ao mesmo tempo, meu ser, minha vida e minhas idéias. Nurimar Falci soube escolher as passagens que mostram que o "escrevente" é também um "escritor". Roland Barthes distinguia os escreventes, que desejam expressar uma mensagem, dos escritores, que gostam de brincar com a linguagem assim como o violinista com seu violino; que gostam de brincar com as palavras, assim como o compositor com as notas. Só por isso já me sinto muito feliz, pois gosto que as palavras brinquem entre si, que elas se divirtam, se acariciem, façam amor. Fico feliz que ele apareça, esse aspecto de mim mesmo, desconhecido por aqueles que negligenciam minha expressão em função de seu conteúdo.

Eu gostaria de exprimir, nesta mensagem, duas idéias que emergiram com força em Identidade Humana.

A primeira, é que nós somos pela metade sonâmbulos, pela metade despertos. "Acordados eles dormem", dizia Heráclito, que com isto acorda-nos de nosso sonambulismo. Nós somos, como dizia Pascal, ao mesmo tempo autômatos e espíritos. Somos feitos, como o sabia Shakespeare, de um estofo comum ao sonho e à vigília, mas esse estofo comum, eu não o sei decantar e isolar, nem da vigília, nem do sonho. Eu sinto, de modo contraditório, que nosso mundo é absolutamente real, no sentido em que nada é mais real que o sofrimento, a felicidade, o amor; e que ele é absolutamente irreal, feito de aparências, de miragens, de alucinações e de ilusões, o que vem expresso nos termos Samsara e Maya. Esse estranho sentimento mora em mim e sempre me acompanha: aquilo que é mais real é também irreal, aquilo que é mais irreal é também real. Viver, para mim, é também inconcebível, incrível, maravilhoso e horrorizante. A mosca, a borboleta, a viúva negra, e também o gato e o cão, trazem-me de volta sem cessar esse mistério. Porque o mistério, para mim, não está somente nos problemas insolúveis para nossa razão e nosso espírito; ele está na vida cotidiana.

A segunda idéia é que tudo o que não se regenera acaba se degenerando. Tudo o que se encontra em estado nascente é apaixonante: um amor, uma revolução, uma infância. Mas tudo tende também a degenerar, a enrijecer, a esclerosar-se, a degradar-se, a morrer. Ora, a grande lição que a organização viva nos dá é que ela é capaz de regenerar-se trocando as moléculas e as células do corpo que se degradam por moléculas e células que o regeneram. De onde a verdade do "viver de morte, morrer de vida", de Heráclito. Um amor duradouro é um amor sem cessar re-nascente, que continuamente reencontra o enamoramento.

Para manter uma conquista, é preciso regenerá-la sem parar. Para cada um e para todos, para si mesmo e para o outro, no amor, na amizade, no avanço da idade, é necessária a regeneração permanente. "Quem não está nascendo está morrendo", canta Bob Dylan. É uma das mais importantes lições que eu extraí dos 32 anos de trabalho e de esforço necessários para O Método. Para progredir, é necessário reencontrar a fonte regeneradora. Ela está em cada um de nós, como estão em cada um de nós – faz pouco tempo que temos conhecimento disso – as células-tronco capazes de regenerar nossos órgãos, mas que ainda não sabemos utilizar. Nós possuímos em nós mesmos, não a fonte da vida eterna, mas a força da juventude. Isto, mesmo na idade madura, o que muitos, adulterados antes da idade, ignoram. Garcia Márquez observava: "não digam que vocês não se apaixonam mais porque estão velhos, digam que vocês estão velhos porque não se apaixonam mais". A fonte da juventude chama-se amor.

Edgar Morin
Paris, novembro de 2001

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Como entidade comprometida com a idéia de desenvolvimento cultural, cabe ao SESC de São Paulo provocar a erupção incessante de tudo aquilo que ponha em relevo as relações entre a cultura e a vida cotidiana de cada um de nós, homens e mulheres comuns, imersos no processo indefinidamente inconcluso de constituirmo-nos cidadãos. Conhecer, saber, pensar, refletir, criar, imaginar, dialogar, debater e propor designam os atos fundamentais que às instituições educativas compete favorecer. Se, no dizer de Antonio Gramsci, cada homem é, à sua maneira, um filósofo e um artista, importa não só reafirmar a cada momento essa noção repleta de verdade como também multiplicar condições capazes de suscitar a concretização mais desenvolta dessa tese profundamente democrática.

Eis o sentido deste site, centrado na obra e no pensamento de Edgar Morin, esse admirável onívoro cultural, como ele próprio se denomina.

As relações mais diretas entre o SESC de São Paulo e Edgar Morin datam de 1996, quando o convidamos a participar do seminário internacional A Cultura das Metrópoles. Desde então a aproximação intensificou-se: em 1999 Morin conduziu um seminário de uma semana, destinado a técnicos do SESC/SP; em 2000 coordenou um outro seminário de formação sobre o Pensamento Complexo e agora, em 2002, vem novamente ao Brasil a nosso convite para o seminário internacional Educação e Cultura.

Nossa dileção por Edgar Morin não se deve exclusivamente ao fato de tratar-se de um dos maiores e mais brilhantes pensadores contemporâneos. Seu cérebro poderoso, capaz de nos auxiliar a enxergar com maior clareza os contornos de um mundo imensamente complexo e contraditório, trabalha ao lado de um espírito generoso, totalmente possuído pela ética da inclusão e da solidariedade.

A ética moriniana é a ética da resistência radical, absoluta e inamovível: "Devemos resistir àquilo que separa, desintegra e distancia, mesmo sabendo que a separação, a desintegração e o distanciamento ganharão a partida". "A resistência à crueldade do mundo deve tentar manter a união na separação, tentar unir o que está solto, deixando-o livre..."

A relação de Morin com o conhecimento guarda simetria com essa ética da união, da fusão e da inclusão, portanto, da solidariedade. O projeto intelectual moriniano é "unir todo conhecimento separado, contextualizá-lo e situar toda verdade parcial no conjunto de que ela faz parte".

Já através de uma lição antiquíssima de sabedoria, presente no Katha Upanishade, somos advertidos de que "Todo aquele que vê os muitos mas não vê o único vagueia de morte em morte". Morin, por diferentes caminhos, dá continuidade a esse gênero de percepção. Ele nada descarta, nada negligencia e nada exclui, mesmo a contradição. Colige o que está esparso, reúne fios aparentemente soltos e os religa numa trama integrativa, num tecido único e inseparável, ou seja, complexus. Ao instigar a mente contemporânea com a inteligência da complexidade, com o pensamento complexo, Morin contribui para atenuar o risco do transitar de equívoco em equívoco pelo território da barbárie, pontuado pela negação da razão do outro. É esse modo de pensar, produzido por um eminente mestre em pensar, que o SESC pretende difundir ainda mais com este site.

Danilo Santos de Miranda
Diretor do Departamento Regional
SESC de São Paulo