Morin

Edgar Morin: 'A Bahia é o coração vivo da cultura brasileira'

Ceci Alves (Foto: Haroldo Abrantes) - A Tarde, 15/07/2009

Edgar Morin concedeu entrevista exclusiva à repórter Ceci Alves ainda em estado de graça por ter visto, na noite anterior, o Balé Folclórico da Bahia. Apesar de ter sido mais uma das muitas atividades de suas férias baianas, a ida ao Balé Folclórico o suscitou questões sobre as quais se debruça em seus estudos: a globalização e os efeitos que causa na cultura original dos países a ela afeitos. O pensador – que partiu domingo rumo ao Rio de Janeiro e a São Paulo para cumprir agenda de compromissos e palestras até o dia 19 – pondera: “A globalização tende a destruir as culturas frágeis, que não podem resistir, mas fortifica as que encontram em si mesmo sua força”. Isso ele disse, entre outras coisas, na entrevista que segue.

A TARDE | O Sr. escolheu a Bahia para suas férias e para a comemoração de seu 88º aniversário. Quais as impressões desta nova estada?
Edgar Morin: Para mim, a Bahia é o coração vivo da cultura brasileira, porque guarda, em si, a simbiose do aporte africano, do aporte português e, infelizmente não tanto, do indígena. A riqueza maior da cultura brasileira, desta síntese, se encontra na Bahia. E é isso que eu, pessoalmente, apreciei bastante. E o balé (Balé Folclórico) que eu vi ontem à noite, com a presença dos orixás, me entusiasmou muito.

AT | O Sr. sempre fala sobre a globalização e seus efeitos positivos e negativos nas culturas originais. O Sr. percebeu esses efeitos na Bahia?
EM: A globalização tem dois aspectos contraditórios. De um lado, sobre o plano da cultura, é um processo de homogeneização a partir de um modelo ocidental, que tende a destruir a cultura original, no singular. Mas, por outro lado, esse processo provoca uma resistência da cultura original, que quando é forte o suficiente para resistir, floresce. Na Espanha, por exemplo, o flamenco iria se dissolver num processo de homogeneização e ressuscitou porque muitos jovens tiveram vontade de resgatar e pediram aos anciãos para servir-lhes de modelo. A globalização provoca a resistência da cultura baiana, mas a fortifica à medida em que graças ao vídeo, ao DVD, graças ao concerto que o Balé Folclórico faz na Europa ou na América, encontra vitalidade.

AT | A globalização e o neoliberalismo jogaram em conjunto para destruir ou para regenerar a cultura?
EM: É a resistência a esses processos que regeneram a cultura. Desde que a globalização se desenvolveu nos anos 90, provocou uma unificação econômica e técnica e muita resistência étnica e nacional. Os efeitos são contraditórios. Eu acho que, no fundo, foi o liberalismo econômico que provocou a crise econômica atual. E, a meu ver, todo o problema futuro reside em saber se poderemos regulá-lo e controlá-lo.

AT | E para onde nos leva esta crise econômica?
EM: Temos que conceber a crise econômica como um aspecto de uma crise planetária múltipla.  Temos a crise da biosfera, da degradação da natureza – que é muito perigosa; da sociedade tradicional, desintegrada pelo desenvolvimento; da modernidade, porque, nos países onde a modernidade triunfou, como na França, ela está em crise por não satisfazer às pessoas. Ela provoca uma vida cada vez mais estressada nas cidades, a desertificação do campo, etc. A globalização cria uma crise múltipla e geral para toda a humanidade. E é isso que tem que ser visto. A crise econômica é só um aspecto desta crise maior. E, evidentemente, temos que buscar uma mudança de caminho, porque se continuarmos na via do desenvolvimento técnico, econômico, da modernização, nós vamos ao encontro de uma catástrofe múltipla e generalizada. Ecológica – e não somente ecológica, porque o desenvolvimento técnico e científico conduz à multiplicação das armas nucleares –, que na globalização não existe somente a unificação técnicas, mas há resistências da civilização, há conflitos que começam a se desenvolver. Então, estamos numa crise múltipla e é necessário começar a se pensar em mudar de via. E depois, tem que se ver como mudar de via... Mas isso não é assunto para uma entrevista só...

AT | O governo Lula se orgulha de que a crise econômica mundial causou o mínimo de danos e/ou efeitos na economia brasileira e o Brasil está na classe de “país emergente”. Será que esse processo de “desenvolvimento” é favorável para o Brasil, de acordo com o que o Sr. pensa?
EM: Devemos tomar alguns aspectos positivos do desenvolvimento e evitar outros negativos. Por exemplo, se a Amazônia se transforma num gigantesco campo de soja, isso será talvez interessante para a agricultura industrializada da soja, mas será uma grande perda para o Brasil, que perderá uma parte de sua riqueza na biodiversidade vegetal; que perderá a possibilidade de transformar a Amazônia para um novo tipo de turismo humanista; que perderá as culturas indígenas, que fazem parte da diversidade humana. Assim, o Brasil deve procurar o desenvolvimento humano, de sua própria cultura, das relações humanas mais do que imitar a China pelo saldo do crescimento econômico.

AT | O Sr. estaria escrevendo um livro sobre estas novas vias de desenvolvimento para a humanidade. É dessas coisas que estamos falando que o Sr. trata em seu livro?
EM: Eu posso simplesmente dizer que, pelo que eu vejo, precisamos ir por vias novas, que devem convergir para a necessidade de uma reforma econômica, social, política, cognitiva, da educação, de reforma de vida e de reforma ética. E todas essas reformas são interdependentes: se isolamos a reforma de vida, ela fracassa; se isolamos uma reforma econômica, ela fracassa. É preciso que essas reformas comecem a progredir juntas. Nós não estamos nem no início do início disso, mas, pra mim, é esta a nova via.

AT | O Sr. tem um olhar pessimista do que está acontecendo hoje no mundo?
EM: Na história, há o provável e o improvável. O que é o provável? É aquilo que, para pessoas que estão situadas num momento e lugar históricos, tendo boas informações sobre o curso das coisas, pode projetar sobre o futuro. Mas eu considero que o provável é catastrófico. Nós vamos ao encontro de uma degradação geral, não somente da natureza, mas de nossa própria vida. Mas, há sempre o improvável, e o improvável acontece com frequência na História. Veja, a eleição de Obama, que é um evento muito positivo, pelo menos para mim, e era totalmente improvável seis meses antes. E a via que eu indico é o caminho improvável, que pode se transformar e, ao se desenvolver, virar provável.

AT | E onde o Brasil se situa nesta balança?
EM: O Brasil está justamente indo no sentido do improvável para o provável, porque é um país que tem muitas iniciativas criativas, em todos os setores da sociedade civil, em todas as regiões. Tomemos, por exemplo, o caso da reforma que me interessa, a reforma da educação, eu acho que o Brasil é mais avançado para ir atrás desta reforma que muito país por aí. O Brasil tem a vantagem de poder olhar, do Atlântico, a África e a Europa, do Pacífico, o Japão e a China. E tem, em si mesmo, uma população que veio do Japão já há bastante tempo, e, agora, da China. É um país que é muito bem situado. É um país que tem muito recurso natural, que o ajuda a não ser tão dependente do mundo exterior. E, de resto, ele tenta, neste momento, depender muito menos, tanto econômica quanto tecnicamente, dos Estados Unidos, o que pode fazer ao ter seu próprio petróleo ou comprando aviões mais na França do que nos Estados Unidos... Bem, o Brasil é um país que, do meu ponto de vista, pode ter um papel de motor, mas ele tem que mudar a concepção muito esquemática do desenvolvimento, que é puramente o econômico e o técnico.

AT | Quais são aspectos humanos precisam ser recuperados para enxergar esta outra via de desenvolvimento?
EM: A convivialidade. Quando eu passeei pelo Centro Histórico de Salvador, eu vi pessoas que estavam nas rias, sentadas em cadeiras, que comiam... Eu via a relação humana. Mas quando se constrói como em São Paulo os grande imóveis, gigantescos, não há mais as relações pessoais. É preciso saber salvaguardar a qualidade dos relacionamentos humanos, pessoais. E é isso que é ameaçado se nós fazemos o desenvolvimento técnico e econômico às cegas.

AT | Aqui, no Brasil, o governo pratica, cada vez mais, uma espécie de “capitalismo Robin Hood”, que tenta descentralizar os recursos para que cada vez mais pessoas tenho acesso ao dinheiro – principalmente na cultura. Mas não há muitos avanços na formação das pessoas que o recebem. É como se o dinheiro fosse dado aos “desvalidos culturais”, para desafogar-se um pouco da consciência pesada de não cuidar condignamente destas manifestações. Vale a pena dar dinheiro, mesmo sem preparar o terreno para isso?
EM: É possível que sempre haverá um número de pessoas que podem utilizar esse dinheiro para fins culturais. Não conheço suficientemente o contexto baiano para dar um julgamento definitivo, mas isso que a Sra. me diz mostra que o importante é, efetivamente, formar as pessoas em um conhecimento mais complexo, mais rico, a uma cultura que combine um conhecimento científico, literário e artístico e salvaguardar todas as qualidades que vêm da tradição. Por exemplo, acho que se o Balé Folclórico recebesse dinheiro, ele seria muito bem utilizado. Mas isso depende das instituições e das pessoas que recebem o dinheiro.

AT | ...E justamente eles vêm reclamando de não ter dinheiro suficiente para tocar as suas atividades, porque o governo contingenciou o repasse de verbas por conta da crise...
EM: Olha, se eu fosse o governador do Estado da Bahia eu saberia o que fazer, mas, para isso eu preciso ser eleito (risos)! Vou lançar minha candidatura, para poder responder a isso (risos)...

 

AT | Estamos, então, no caminho da degeneração ou da regeneração?
EM: As forças de regeneração estão ativas na base das sociedades, mas as forças de desintegração são forças dominantes. Então, não sei ainda quem vai ganhar.

AT | E na Bahia, quais são as forças que jogam?
EM: Vejo, em todos os casos, a resistência de uma cultura rica e todas as resistências comportam um aspecto positivo, porque quando dizemos não a alguma coisa que não convém, este não significa um sim a algo que convém. E o sim é desenvolver sua própria riqueza cultural.

AT | E o que vem depois da globalização? Haverá uma outra fórmula sendo gestada?
EM: A globalização começou no fim do século XV, com a conquista das Américas, com a colonização, a escravidão, e se transformou, no século XX, quando houve a descolonização. Mas havia, também, as hegemonias econômicas e se transformaram na dominação da economia capitalista no planeta... A globalização vai conhecer outras transformações. E se ela não conhece transformações positivas, para uma sociedade, haverá regressão, caos e desastre diferentes. Frequentemente a humanidade volta atrás e toma o a caminho da decomposição. Agora, será ou a decomposição do que existe ou um novo tipo de globalização. Eis a minha profecia (risos).

AT | Quais são aspectos humanos precisam ser recuperados para se enxergar esta outra via de desenvolvimento?
EM: A convivialidade. Quando eu passeei pelo Centro Histórico de Salvador, vi pessoas que estavam nas ruas, sentadas em cadeiras, que comiam... Eu via a relação humana. Mas quando se constrói como em São Paulo os grande imóveis, gigantescos, não há mais as relações pessoais. É preciso saber salvaguardar a qualidade dos relacionamentos humanos, pessoais. E é isso que é ameaçado se nós fazemos o desenvolvimento técnico e econômico às cegas.

AT | Estamos, então, no caminho da degeneração ou da regeneração?
EM: As forças de regeneração estão ativas na base das sociedades, mas as forças de desintegração são forças dominantes. Então, não sei ainda quem vai ganhar.

AT | E na Bahia, quais são as forças que jogam?
EM: Vejo, em todos os casos, a resistência de uma cultura rica e todas as resistências comportam um aspecto positivo, porque quando dizemos ‘não’ a alguma coisa que não convém, este ‘não’ significa um ‘sim’ a algo que convém. E o ‘sim’ é desenvolver sua própria riqueza cultural.