Morin

A Complexa Leveza De Um Diário

Danilo Santos de Miranda
livro DIÁRIO DA CALIFÓRNIA da Coleção Diários de Edgar Morin
2012

Há algo fascinante nos diários que é o fato de conterem impressões as mais pessoais daqueles que os utilizam como forma de registro. Neles encontramos a inevitável ficção disposta pelas palavras e olhares, assim como a imponderável “verdade” do momento vivido de quem os escreve. No caso dos diários de Edgar Morin – publicados pelas Edições SESC SP pela primeira vez no Brasil e da qual a presente publicação faz parte –, parece ser o gênero ideal para que este grande pensador possa difundir seu conhecimento.

A complexidade que envolve nossos pensamentos e ações tem sido objeto e sujeito de estudo de uma visão profunda da vida para Morin. Em seu “Diário da Califórnia”, podemos constatar o quão rico pode ser este ponto de vista: a partir do vórtice do furacão da história. Pois com o olhar atento e estonteante do passar dos dias, como num trem em movimento, o autor registra os fatos e percepções que lhe passam no momento, reforçando as possibilidades de um pensamento enredado na filosofia, ciências (englobando a sociologia e a antropologia), poesia e carne com que dispõe suas impressões.

Um diário relata, narra, e desta forma se aproxima da literatura, da arte. No entanto, Morin discorre sobre temas socio-antropológicos, humanistas, cujas filosofias eclodem como que naturalmente, fazendo pontes com lugares e tempos, culturas que se entrechocam e se encontram nos finais dos anos 1960. Nesta grafia teórico-literária, poético-prosaica, ele desfia neologismos, substantivações, verdadeiros versos que, mesmo sem querer, nos conduzem a um aprendizado leve, no mesmo tempo que profundo, aguçando conceitos filosóficos e funções científicas através do afeto.

Para os dias de hoje, transcorridos mais de 40 anos, ficam a clareza e a quase premonição típica dos que sabem enxergar nos interstícios da vida os atos que estão por se tornarem sujeitos da História. As incursões pelas comunidades hippies, que lhe proporcionavam o entendimento de um mundo que tinha como base de sua construção a paz e o amor com pitadas lisérgicas de esperança, os contatos e reflexões que emanavam do Salk Institute, os caminhos e estradas percorridos em velhos e espaçosos carros norte-americanos, o mar e as casas onde o autor descansava o corpo e tomava-se de calores humanos e solares; tudo cabia no tecido que Morin alinhavava e sobre o qual bordava suas palavras tradutoras de sensações pensantes.

“Diário da Califórnia” ilumina uma época que deixou profundas marcas para que os tempos que viriam pudessem contemplá-las, talvez aprender algo com elas, talvez repeti-las com novas roupagens, maquiagens ou fantasmagorias; cicatrizes que olhamos com saudosismo, algumas manchas que, por mais que queiramos, não conseguimos esquecer. O livro desvenda (ou apenas tira um véu ou outro, deixando a opacidade necessária para o deleite da razão) um lugar e seus habitantes, desnudando como passos na areia da praia cotidianos que marcam territórios invisíveis, que plantam cercas e portões.

Entre idílios científicos, claudicantes filosofias (o homem coxeando passos nas conchas trituradas feitas para o caminho) e percursos literários, o complexo pensamento de Morin não se traduz em confusão ou dificuldades de entendimentos. De modo contrário, a complexidade – referência que podemos encontrar no ideário e na prática do trabalho do SESC São Paulo há anos – está como exercício de vida, vem das antenas, olhos e falas deste pensador francês que parece fazer de sua respiração o árduo trabalho de tentar codificar o que nominamos de existência.

 


Diário Da Califórnia [resumo]

apresentação: Danilo Santos de Miranda
tradução: Carmem Cacciacarro
orelha: Adauto Novaes
256 páginas
Edições SESC SP

Escrito no período em que Morin residiu na Califórnia, em 1969, a convite do Salk Institut (centro de pesquisas biológicas, presidido por Jonas Salk, Prêmio Nobel de Biologia), onde conviveu com Jacques Monod - bioquímico e biólogo - e John Hunt - biólogo - dentre outros cientistas e pesquisadores que tinham como ponto comum desenvolver suas pesquisas e estudos com uma preocupação humanitária com o individuo e a sociedade.

Relata as experiências de Morin, no final dos anos 60, na Califórnia, para onde foi a convite do Salk Institute.

Segundo Morin, “neste diário há, como em suspensão, microrreportagens, flashes sociológicos, reflexões sobre as coisas vistas, vividas ou lidas”.

Ainda segundo o autor no prefácio, no diário tenta abarcar, “num polo, a Califórnia e, mais amplamente, os Estados Unidos, num momento crucial da sua história; num outro polo, meu destino naquilo que ele tem de mais singular, num momento crucial da minha história; no terceiro polo, os problemas fundamentais sobre o homem, a sociedade, a vida, que não pararam de me assombrar e me agitavam com vigor para que eu não desistisse”.

Relata desde sua viagem da França aos EUA, sua estada no Salk Institute, às viagens de carro pela Califórnia, os almoços com amigos e colegas de trabalho, suas relações pessoais, os vinhos, o contato com comunidades hippies pregando a paz e o amor, drogas (sem especificações de quais), a liberdade sexual, referências estas do próprio período narrado.

Segundo Adauto Novaes, na orelha do livro, “Um leitor pouco atento pode pensar que existe certa contradição entre o rigor da teoria com os divertidos acontecimentos do Diário da Califórnia. Mas o que observamos neste livro é uma sutil influência do espírito sobre si mesmo, da própria obra teórica e científica de Morin sobre a vida do autor do Diário: materialista, ele soube incorporar os sentidos e as afetividades ao fazer político.”;

Aos moldes do pensamento complexo, narra leituras e contatos com experiências científicas, congregando filosofia, sociologia, antropologia e história, que perpassa o texto, pois, ao narrar, descrever momentos da época, acaba imprimindo um tom histórico ao livro. Também descreve ruas, estradas, lugares e pessoas dos locais que visita, fazendo relações com seus estudos e com a complexidade que a vida envolve.



Diários Da Califórnia [trechos]

“AMO A AMÉRICA – Até ontem, eu não amava a América, estava fascinado por este país, pela civilização, mas sem nenhuma simpatia, nenhum interesse pelas pessoas. Tudo se passou, nestes últimos dias, como se uma membrana, um hímen se preparasse, suavemente, de forma invisível (para mim mesmo), para se abrir. O interesse que eu tinha pelos jovens era até agora a-americano e antiamericano, no sentido de que simpatizava com a vanguarda existencial do movimento juvenil internacional, e com a juventude americana porque em revolta contra o american way of life; mas depois de ontem eu compreendo; de agora em diante gosto dessa juventude também porque ela é americana. Tudo deve ter começado com os sorrisos das garotas, depois o processo interno se acelerou quando fui capaz de sentir, no love, um misticismo propriamente americano. A seguir, ontem foi o seminário sobre o Crisis Center de San Diego, e o hímen se rompeu bruscamente ontem à noite, durante a projeção de Midnight Cowboy. No decorrer desse filme, tão pleno de ternura, de candura e de brutalidade, descobri (o lado perturbador da) América.”

“COMUNAS DE PRAIA – Aprendemos que também existem comunas marginais de crianças de quinze anos, reunidas sob uma tenda, ao longo da Ocean Beach e da Pacific Beach, fraternidades de miséria e amor, de frio e calor, fumando e se drogando, perseguidas pelos pigs. (...) Esses meninos, essas meninas, dizem, são crianças da middle class. Que força formidável de rejeição os impele a deixar a família! Que horror? Que necessidade tresloucada, fervorosa de outra coisa é essa? Que busca do paraíso ou da morte é essa? E penso: o paraíso ou a morte? Para que mundo fabuloso elas vão, à beira do oceano, em que ultramundo mergulham com o ácido ou a heroína? (...) Anúncio, sim anúncio, da morte ou da mutação do nosso mundo, nessa autorrejeição fora da sociedade, nessas células que são ao mesmo tempo embriões e dejetos, nessa última e primeira margem…”

“EU – Sou demasiado velho para os jovens, demasiado jovem para os velhos, não sou de todo adulto. Como persisto, subsisto? Somente pelas amizades.”

“O INDIVIDUAL – A ciência procura os traços gerais. O cretinismo pseudocientífico nega a existência das individualidades.”

“EVOLUÇÃO – Por que um outro ramo da vida, nos insetos ou nos mamíferos, não poderia evoluir para a linguagem e a inteligência? Nosso tempo é demasiado curto, e agimos como se a evolução das espécies estivesse terminada, com exceção da nossa… Quando saberemos se o homem é um fracasso?”

“O DESCONHECIDO – Lendo (num artigo muito interessante e estranho do Los Angeles Free Press, ‘Tecno-anarquia’) esta frase: ‘O observatório é a estrutura mais altamente simbólica da humanidade: um templo ao desconhecido’, fiquei pensando: o desconhecido, o desconhecido, não é um setor, um domínio, uma zona de sombra que cerca apenas o conhecido, é o que é princípio, o que é sujeito (se é que há um sujeito nesse tenebroso caso), o que anima todas as coisas e nos anima...”
“O ASSASSINATO DOS PANTERAS – E enquanto a América se questiona dolorosamente sobre o massacre de um povoado vietnamita, estão matando os Panteras Negras; hoje, em Los Angeles, ontem, em Chicago. A polícia faz as incursões, e a batalha começa. De fato, todos os dirigentes hoje estão mortos, na prisão ou no exílio. Aqui, no rádio, nos jornais, são as crônicas, os fatos isolados. Na realidade, trata-se de uma tentativa em escala federal de destruir a origem da nação negra.”

“CIFRAS – A Califórnia, o estado mais populoso da União, atinge a cifra de 20 milhões de habitantes na noite de Natal. 8 milhões de usuários de marijuana nos Estados Unidos. 180 mil drogados de heroína.”