Morin

Ensaio de Nelly Novaes Coelho

Edgar Morin
1997

Ser intelectual é se auto-instituir como tal, isto é, dar-se uma missão, uma missão de cultura,
uma missão contra o erro (do passado e do presente), uma missão de consciência pela humanidade.
(Meus Demônios, 1997 Edgar Morin)

Sem dúvida, uma das conseqüências mais imediatas dos debates que se vêm sucedendo nestes últimos anos em termo do pensamento complexo ou da ótica da complexidade, no rastro das proposições de Edgar Morin, é essa nova tarefa exigida ao intelectual: situar-se em face dessa "cultura cyber" que está em processo de expansão e que cabe ao "mundo pensante" detectar em todas sua complexidade. Cabe, hoje, ao intelectual (em qualquer das áreas de conhecimento em que ele atue) "auto-institui-se" como novo "missionário", responsável por um novo saber, ainda em gestação e que lhe cabe procurar ou difundir no espaço de ação que lhe cabe como profissional. Nessa ordem de idéias o intelectual deixa de ser o antigo e seguro detentor de um vasto acervo de conhecimento consagrados pelo Sistema, para se assumir como um "sujeito interrogante", -um eu consciente, que se descobre como um dos centros responsáveis, neste nosso mundo descentrado. Um eu pensante que se redescobre com complementariedade essencial com o outro; e cuja palavra contribuirá, para que um dia (ainda longínquo) um novo real seja nomeado ou reorganizado e emerja do atual caos de valores. Como disse Morin:

Uma cultura cyber está em vias de se expandir, mesmo que só possa ser alcançada por alguns privilegiados. Trata-se de uma revolução radical que marca o surgimento da sociedade pós-industrial e que implica no nascimento de um novo pensamento. /.../ A cultura cyber é simultaneamente destruição e gênese. Essa cultura se unirá com o mito fundador da árvore do conhecimento? (E. Morin, "Articuler les savoirs", 1998)

Esse fragmento de fala de Morin sintetiza o jogo de forças que se defrontam nesta nossa época de aceleradas metamorfoses e que exige de cada pesquisador um novo posicionamento em relação ao conhecimento já consagrado:

-Somos hoje habitantes do cyberespaço (espécie de mundo, sem limites, permeado de contradições e cujas reais dimensões escapam à compreensão lógica comum;

-vivemos uma "revolução radical", não só nas estruturas do viver político-econômico-social em seu todo, mas principalmente na esfera do saber, onde um novo pensamento está sendo engendrado;

-o caos de formas, que nos desafia a transformá-lo em cosmos, se nos afigura ora como apocalipse (terrível processo de destruição), ora como gênese (poderosa germinação de um novo mundo); e, finalmente,

-a busca de novo conhecimento que tenta se re-ligar ao saber inaugural, mítico, está sendo realizada, através das mil veredas desse "sertão" pós-formal. Não há caminho principal, nem centro orientador. Todos os caminhos são válidos, a partir da ótica da complexidade. Tudo depende do sujeito que está no centro da busca.

A complexidade desse mundo-em-processo é a nova perspectiva ou nova ótica, através da qual o novo conhecimento deve ser procurado. É esse, talvez, o sentido maior da extraordinária cruzada, pelos quatro cantos do mundo, a que se entregou Morin, ao levantar a bandeira do Pensamento complexo e da Transdisciplinaridade, visando especificamente a área da Educação e do Ensino. Ambas as proposições (tanto a ótica do pensamento complexo, quanto a estrutura da transdisciplinaridade) têm um mesmo grande alvo: oferecem-se como "caminho" para a busca de um possível novo conhecimento. Já não mais compartimentado, mas "tecido junto". Ótica que desarticula pela base o Ensino tradicional.

É esse um dos impactos do pensamento complexo: o desafio ao nosso real conhecimento das coisas, seja no sentido de organizarmos, em "sínteses provisórias", a avalanche de informações que nos assaltam por todos os lados: seja nas incertezas que nos lançam em dúvidas, quanto à validade ou não do próprio processo de conhecer. De onde provém o conhecimento? Do objeto em sua realidade objetiva, sem interferência do sujeito: Ou é produzido no sujeito que encontra em si próprio os critérios de avaliação e objeto? (Interrogações que as descobertas da física quântica veio suscitar.) Enfim, o pensamento complexo descobre algo perturbador: no lugar do sujeito seguro, baseado em certezas absolutas (fundado no pensamento tradicional, positivista, empirista, determinista, cartesiano...) põe o sujeito interrogante que (tal como o aprendiz de feiticeiro), diante desse mundo belo/horrível que ele mesmo criou, tenta encontrar um novo centro ou novo ponto de apoio, para uma nova ordem (mesmo que seja provisória), em meio ao oceano de dúvidas e incertezas que o assaltam.

É em torno desse "sujeito interrogante" e do poder formalizador da "palavra" que gira hoje o interesse das pesquisas e estudos a serem enfrentados pelos intelectuais (ou por todo o mundo pensante), nos vários campos do saber. Em meio à multiplicidade caleidoscópica dos caminhos de investigação, é descoberto um centro comum: o eu pensante e a palavra que o deve expressar. Claro está que esse pretendido novo centro decorre de duas grandes crises: a do eu em relação ao outro (que o complementa) e a da palavra (como representação do real).

Daí que a pedagogia moderna tenha elegido o aluno (e não, o saber instituído), como centro do processo de aprendizagem e, ao mesmo tempo, se empenha na criação de novos métodos de estudo que possam desfazer o "nó górdio" da crise da linguagem em aberto. Pode-se dizer que uma das áreas em que o pensamento complexo causou maior impacto foi a do Ensino: a essas crises do sujeito e da palavra, juntou-se uma terceira: a das estruturas curriculares. O conhecimento século XX tornou obsoleto o antigo sistema de disciplinas estanques, dentro do qual o conhecimento é assimilado mecanicamente e fielmente reproduzido; o sistema "magister dixit": o saber absoluto e indiscutivel da autoridade, etc., etc. É contra esse sistema educativo "fechado" que se desenvolvem, também, as argutas análises de Edgar Morin, reivindicando a urgente "religação dos saberes", a ruptura dos limites em que as diferente disciplinas foram "fechadas" (visando à especialização), para que se descubram os "vasos comunicantes" que existem entre as diferentes áreas do saber.

É nessa fronteira que estamos todos, tentando abrir passagem para um novo modo-de-ver-e-conhecer o mundo e renomeá-lo. Ou reorganizá-lo em nova ordem (embora provisória!). É esse o atual desafio aos pensantes...

NELLY NOVAES COELHO é professora da Universidade de S. Paulo, ensaísta, crítica literária e pesquisadora da obra de Edgar Morin.