Morin

Se eu fosse candidato...

Edgar Morin
2007

Caras concidadãs e caros concidadãos, devo primeiramente lembrar que a França nem vive em um recipiente fechado nem em um mundo imóvel. Devemos tomar consciência de que vivemos uma comunidade de destino planetário, face às ameaças globais trazidas pela proliferação das armas nucleares, pelo desencadeamento dos conflitos étnico-religiosos, pela degradação da biosfera pelo fluxo ambivalente de uma economia mundial descontrolada, pela tirania do dinheiro, pela união de uma barbárie vinda dos confins dos tempos,  pela barbárie congelada do cálculo técnico e econômico.

O sistema planetário está condenado à morte ou à transformação.  Nossa época de mudança tornou-se uma mudança de época.

Não lhes prometo a salvação, mas indicaria a longa e difícil via em direção a uma Terra Pátria e a uma Sociedade Mundo, o que significa, primeiramente, a reforma da ONU para superar as soberanias absolutas dos Estados-Nações, ao mesmo tempo em que reconhece plenamente sua autoridade quanto aos problemas que não são de vida/morte para o planeta.

Farei tudo o que me for possível para dar à Europa consistência e vontade nela instituindo autonomia política e militar. Apresentarei um grande desenho (plano): reformar sua própria civilização nela integrando o aporte (contribuição)  moral e espiritual de outras civilizações; contribuir para um novo tipo de desenvolvimento nas nações africanas; instituir uma regulação dos preços para os produtos fabricados a custo mínimo na exploração dos trabalhadores asiáticos; elaborar uma política comum de inserção dos imigrantes; enfim e, sobretudo, dela fazer um núcleo exemplar de paz, compreensão e tolerância; neste sentido, intervir no Darfour, na Chechênia, no Oriente-Médio e evitar a guerra de civilizações.

No que concerne a França, não formularei um programa inoperante em situações mutáveis. Definirei uma estratégia que leve em conta acontecimentos e acidentes. Para o imediato provocarei dois encontros entre parceiros sociais, um sobre o emprego e salários, outro sobre as aposentadorias.

Constituirei dois comitês permanentes visando reduzir as rupturas sociais:
1)    um comitê permanente de luta contra as desigualdades que atingirá em primeiro lugar os excessos (de benefícios e remunerações do alto – dos mais ricos) e as insuficiências (de nível e qualidade de vida da base – dos mais pobres);
2)    um comitê permanente encarregado de reverter o desequilíbrio crescente desde 1990 na relação capital-trabalho.

Considerando a integração vital de uma política ecológica, constituirei um terceiro comitê permanente que tratará das transformações sociais e humanas que se impõem.

Indicarei a via de uma política de civilização que ressuscitaria as solidariedades, faria recuar o egoísmo e, mais profundamente, reformaria a sociedade e nossas vidas. De fato, nossa civilização está em crise. Aonde chegou, o bem-estar material não trouxe necessariamente o bem-estar mental, do que são testemunhos os consumos desenfreados de drogas, ansiolíticos, antidepressivos, soníferos. O desenvolvimento econômico não trouxe o desenvolvimento moral. A aplicação do cálculo, da cronometria, da hiper-especialização, da compartimentalização do trabalho nas empresas, nas administrações e finalmente em nossas vidas, acarretou muito frequentemente, a degradação das solidariedades, a burocratização generalizada, a perda de iniciativa, o medo da responsabilidade.

Reformarei também, as administrações públicas e estimularei a reforma das administrações privadas. A reforma visa desburocratizar, desesclerozar, descompartimentalizar e dar iniciativa e leveza (agilidade, destreza) aos funcionários  públicos, oferecer cuidado atencioso a todos os que devem enfrentar o trabalho cotidiano nos escritórios. A reforma do Estado se faria não por aumento ou supressão de empregos  mas por modificação da lógica que considera os humanos como objetos submetidos à quantificação e não como seres dotados de autonomia, de inteligência e de afetividade.

Proporei revitalizar a fraternidade, subdesenvolvida na trilogia republicana Liberdade-Igualdade-Fraternidade. Primeiramente, suscitarei a criação de Casas da Fraternidade nas diversas cidades e nos bairros de metrópoles como Paris.

Estas casas agrupariam todas as instituições de caráter solidário já existentes (Assistência social popular, Assistência social católica, SOS Amizade, etc.) e comportariam novos serviços destinados a intervir com urgência nas situações de miséria moral ou material, salvar do naufrágio as vítimas de overdose de droga ou de mágoa. Seriam lugares de iniciativas, de mediações, de auxílios, de informação, de voluntariado, de mobilização permanente.

Ao mesmo tempo, seria preciso instituir um Serviço cívico da Fraternidade que, presente nas Casa da Fraternidade, se dedicaria também aos desastres coletivos, inundações, grandes calores, secas, etc., não somente na França como ainda na Europa e no Mediterrâneo. Assim, a fraternidade estaria profundamente inscrita e viva na sociedade reformada que queremos.

Em nossa concepção da fraternidade, os delinqüentes juvenis não são indivíduos abstratos a serem reprimidos como adultos, mas adolescentes numa idade em que é preciso favorecer as possibilidades de recuperação. Consideramos os imigrantes não como intrusos a serem rejeitados, mas como irmãos provenientes da pior miséria, aquela que foi criada ao mesmo tempo por nossa colonização passada e por tudo que acarretou em seus países a introdução de nossa economia, destruindo assim, as policulturas de subsistência e deportando as populações agrárias para as depauperadas favelas na periferia das cidades.

Como o curso atual de nossa civilização privilegia a quantidade, o cálculo, o ter, me aplicarei a uma vasta política de qualidade de vida. Neste sentido, favorecerei tudo aquilo que combate as múltiplas degradações da atmosfera, da alimentação, da água, da saúde. Toda a economia de energia deve constituir um ganho de saúde e de qualidade de vida. Assim, a desintoxicação automobilística dos grandes centros se traduzirá pela diminuição de bronquites, asmas e doenças psicossomáticas. A desintoxicação das camadas freáticas reduzirá a agricultura e a pecuária industriais em proveito de uma ruralidade campesina que, por sua vez, restaurará a qualidade dos alimentos e a saúde do consumidor.

A redução das intoxicações de civilização – entre as quais a intoxicação publicitária, que pretende oferecer sedução e prazer em e por produtos supérfluos -, do desperdício de objetos descartáveis, das modas aceleradas que em um ano tornam obsoletos os produtos, tudo isto deve nos conduzir  a reverter a corrida em busca do mais em proveito de uma marcha em direção ao melhor, e a inscrever-se em uma ação contínua a favor de duas correntes esboçadas que é preciso desenvolver: a rehumanização das cidades e a revitalização dos campos. Esta última comporta a necessidade de reanimar as pequenas cidades pela instalação do tele - trabalho, o retorno da padaria e do bistrô.

Em matéria de emprego, instituirei ajudas à criação e ao desenvolvimento de toda atividade que contribua para a qualidade de vida. A política dos grandes trabalhos que proporei para desenvolver transportes, alargar e organizar os canais,  criar cinturões de estacionamentos em torno das cidades e dos grandes centros,  permitirá  ao mesmo tempo criar empregos e melhorar a qualidade da vida. As despesas de que ela necessitará  serão compensadas em poucos anos pela diminuição das doenças sócio-psico-somáticas provocadas por estresse, poluições e intoxicações.

Em matéria de economia, trabalharei por uma economia plural, que está em gestação no planeta de maneira dispersa, e cujos desenvolvimentos permitiriam superar a ditadura do mercado mundial. Na França a economia plural, que incluirá as grandes firmas globalizadas, desenvolverá as pequenas e médias empresas, as cooperativas e consórcios de produção e/ou consumo, as profissões de solidariedade, o comércio eqüitável, a ética econômica, o micro crédito, a poupança solidária que financia projetos de proximidade, criadores de emprego. O desenvolvimento de uma alimentação de proximidade que não depende mais dos grandes circuitos intercontinentais nos fornecerá produtos de qualidade campesina e, além disso, nos preparará para enfrentar as eventuais crises planetárias.

No que concerne à educação, a missão primeira foi formulada por Jean-Jacques Rousseau no Emílio: “Quero ensiná-lo a viver”. Trata-se de fornecer os meios para enfrentar os problemas fundamentais e globais que são aqueles de cada indivíduo, de cada sociedade e de toda a humanidade.

Estes problemas estão desintegrados nas e pelas disciplinas compartimentalizadas. Assim, para começar, instituirei um ano propedêutico para todas as universidades sobre: os riscos de erro e de ilusão no conhecimento; as condições de um conhecimento pertinente; a identidade humana; a era planetária em que vivemos; o enfrentamento das incertezas; a compreensão do outro e, enfim, os problemas de civilização contemporânea.

O impulso para a grande reforma surgirá das profundezas de nosso país quando ele perceber que ela se encarregará de suas necessidades e aspirações. Pois, esclerosado em todas as suas estruturas, o país está vivo na base. A mudança individual e a mudança social serão inseparáveis já que cada um sozinho é insuficiente. A reforma da política, a reforma do pensamento, a reforma da sociedade, a reforma da vida se conjugarão para conduzir ao uma metamorfose de sociedade. Os futuros radiosos estão mortos, mas abriremos uma via para um futuro possível.

Esta via, podemos fazê-la avançar na França, esperar que a façamos adotar na Europa. E, fazendo novamente da França um exemplo, ela trará a esperança de uma salvação planetária.