Morin

Tecidos Do Dia-A-Dia

Danilo Santos de Miranda
livro CHORAR, AMAR, RIR, COMPREENDER, da Coleção Diários de Edgar Morin
2012

A complexidade parece estar mais próxima a uma naturalidade da ordem das coisas do que necessariamente a uma forçosa dificuldade. Pelo menos é assim, desta última forma, que tendemos, em maioria, a enxergar sua experiência no mundo. No entanto, o pensador francês Edgar Morin nos mostra, em seus diários, uma relação estreita e simples com o complexo, com a tessitura intrincada das relações humanas, discorrendo livremente sobre os dias e suas idiossincrasias, suas percepções sobre fatos políticos e econômicos no planeta juntamente com o corriqueiro modo de viver.

Nos relatos dos dias do ano de 1994, Morin aponta a verdadeira natureza da complexidade, o que nos faz refletir que é o pensamento linear que perseguimos tanto, e que nos guia, que faz um esforço hercúleo para se manter em sua hegemonia. O autor não o faz de modo proposital, já que pretende simplesmente comentar o cotidiano que o envolve, contudo nos leva a perceber o quanto a pureza de nossa existência é complexa.

Em meio a uma vida relativamente pacífica, vivida em Paris ou entre viagens a muitos lugares do mundo, lembranças e processos de uma guerra infinda (Segunda Guerra Mundial, Guerra Fria e conflitos no Leste Europeu, na África e na Ásia) nos atinge mesmo que remotamente. Se toda consciência individual faz parte de uma consciência coletiva, não estamos longe de termos sensações e presságios similares ao de Morin. No entanto, mais que presságios, o que ele nos fornece, sendo um diário, é a constatação do que vivemos atualmente. Quiçá esta seja a magia de quem reflete com afinco sobre a condição humana, tornando-se quase que profetas, olhando o passado repetido no presente e projetado no futuro.

Outorgar-lhe o título de uma espécie de vidente seria simplificar demais a visão atenta do presente que nos reveste a todo instante, seria também coloca-lo num campo religioso de fácil assimilação afetiva, mas não cognitiva. O que não pode nos escapar (e tais títulos seria uma fuga fácil) é uma autocrítica que devemos fazer quando, com tanta história, tanta manipulação e liberdade, tantos atos e sentimentos, deixamos obscurecer uma visão que não é futura, mas que muitas vezes está num tempo passado, arraigada em nossos corpos e mentes e conformada a uma passividade intelectual (ou talvez uma cegueira de espírito) que não nos permite caminhar livremente.

Pode ser que com o termo "complexidade" tenhamos um olhar refratário que nos aponta, em primeiro e (in)visível olhar, para a dificuldade. Ser complexo é ser trabalhoso, é estar em uma árdua seara a ser cultivada com os mais diferentes elementos, sejam eles palpáveis como os organismos humanos, sejam eles etéreos como os pensamentos e as vontades, sem sabermos (e temermos) quais seres advirão das misturas. Mas não é assim que a própria vida se nos apresenta? Não é muito mais complicado ordená-la e mantê-la numa raia de morais, éticas e conceitos pré-formados no recôndito útero da história?

Talvez ser "complexo" é ser livre, é largar-se ao movimento incessante da vida; largar-se e deleitar-se no tecido trançado do existir. Talvez ser "complexo" seja difícil por termos nos deixado prender em especialidades, retilíneas opções, em conscientes grilhões de desejos, em monoculturas que degradam os solos férteis da experiência.

Não que seja o objeto do presente diário discorrer sobre o pensamento complexo, mas, como leitores atentos, podemos inferir que nele - e nos outros dois que o SESC lança com ineditismo no Brasil - há muito da complexidade propalada por Edgar Morin. Intenção ou não, a identificação é propícia e nos ajuda a entender que a beleza da vida está nesta randômica roda vida na qual o cotidiano é personagem central dos fatos e dos sonhos.

 

CHORAR, AMAR, RIR, COMPREENDER [resumo]

Escrito de Janeiro de 1995 a Janeiro de 1996
apresentação: Danilo Santos de Miranda
tradução: Nurimar Falci
orelha: Emilio Roger Ciurana
404 páginas
Edições SESC SP

Edgar Morin deposita um olhar e um viver que são reflexos de sua complexidade, universalidade e da concretude da condição humana. Mas não se trata de um simples anotar num diário os eventos que ocorrem no mundo e de acontecimentos na vida cotidiana. Trata-se, no cotidiano, de resistir à barbárie humana de uma época cruel, devido à incapacidade generalizada de ver a vida e o mundo além da linearidade, da previsibilidade e fragmentação. A guerra dos Balcãs é um dos principais panos de fundo que ocupam as reflexões do texto, além da guerra étnica e o massacre em Ruanda, assuntos de saúde de sua mulher Edwiges com implicações do comportamento dos profissionais da medicina, da traição do amigo, fato que o abalou profundamente, viagens, conferências e debates. Discorre sobre os filmes (alguns seriados, como Guerra nas Estrelas) que vê (geralmente na TV), comidas e vinhos.

Na orelha do livro, Emilio Roger Ciurana afirma que “no cotidiano, no insignificante, no trivial da vida às vezes há também o profundo. Entre os debates, as polêmicas, a reflexão viva sobre os problemas globais do momento, a reflexão viva sobre a complexidade das relações humanas, o leitor não só acompanha nesta obra um processo de desdobramento observador/ observado no autor, não só percebe uma mostra da subjetividade, o leitor percebe o que podemos denominar, sem medo de nos equivocarmos, um ensaio de antropologia do presente.”



CHORAR, AMAR, RIR, COMPREENDER [trechos]

“Coin de rue, canto mentalmente essa canção: nostalgia das paisagens urbanas perdidas na nossa infância, onde existiam ainda cavalos, jogos de amarelinha sobre as calçadas, relações de porta a porta, janela a janela, bisbilhoteiros... Não podemos ressuscitar esse passado. Não seria em vão querer salvar os retalhos? Não é necessário, ainda, aceitar a morte, a morte de uma civilização, o que significa dizer ao mesmo tempo metamorfose em direção a outra civilização. O pior é que talvez estejamos na época mais bárbara desta metamorfose. A civilização que desumaniza não foi ainda re-humanizada.”

“A reflexão me vem aos bocados durante a sessão do júri. Sim, devo me arrepender não apenas de minhas negligências, mas também de minhas carências. Eu devo sentir remorso em inúmeros casos da minha moleza e da minha preguiça. Eu devo me arrepender de não ter obedecido suficientemente minha pulsão altruísta. Devo me arrepender dos ácidos ataques de mau humor. Eu me arrependo de não ter sido suficientemente despreendido desta feira das vaidades que detesto. Eu me arrependo de querer bem aqueles que me detestam. Lamento não estar à altura das minhas ideias sobre a bondade. Lamento minha fisionomia, eu teria amado ter um rosto à la Roland Barthes. Lamento minha incapacidade de obedecer, há 15 anos, às regras da vida que me foram impostas. Lamento minha vida em Paris... (Penso que outros arrependimentos vão aparecer.)”

“Um artigo, na página Vida Científica, do Figaro, resumindo um outro publicado em Science em 21 de fevereiro, dizendo que os chimpanzés sabem inserir no seu cardápio vegetais antibióticos ou antiparasitários; outras espécies conhecem plantas contraceptivas ou que aumentam a fertilidade; o desenvolvimento da zoofarmacologia vai nos revelar a amplitude dos conhecimentos bioquímicos no mundo animal. A ciência humana tem sobre muitos pontos uns quatro milhões de anos de atraso em relação à ciência inconsciente do mundo animal.”

“Resenhas de meu diário Diário de 1994: sarcasmos e deboches. Eu que escrevo para ser amado passo por grandes provações.”

“Domingo, 7 de maio. Domingo eleitoral, eu não voto. Não quero dar um cheque em branco a Jospin. Resultados da eleição. Esperava-se, mais uma vez, uma surpresa, a vitória de Jospin. A surpresa é que não houve uma surpresa, pois Chirac foi eleito. Chirac, presidente, pode surpreender pelo pior e pelo melhor, talvez o pior e o melhor.”

“Quarta-feira, 13 de dezembro. Sonhei que aquele que me traiu vinha me abraçar como se estivesse pedindo perdão. Que idiota sentimental que eu sou!”

“Finalmente, após tantos sobressaltos póstumos, Mitterrand torna a ser, após sua morte, aquilo que ele era quando vivo, admirado por uns, abominado por outros. Mas daqui em diante tudo isso é magnífico. Em vida, alguns o viam como sombra, outras como luz. Hoje, ele é divinizado por uns e demonizado por outros. E, uma vez mais, minha “missão” é de respeitar a complexidade no olhar sobre o homem, sobre o político e sobre o mito.”