Cultura e Sociedade: A Complexidade Humana – Compreensão Ética para entrar no Terceiro Milênio

Edgar Morin

Primeiro Dia
Abertura: Danilo Santos de Miranda
 
Eu queria aproveitar, enquanto a gente não inicia a palestra propriamente dita, o treinamento, enfim, a discussão sobre o pensamento ou a reflexão do professor Morin, para pontuar rapidamente sobre esta oportunidade. Já que nós temos aqui tanta gente que trabalha, realiza e faz acontecer essa instituição no Estado de São Paulo, esta é uma oportunidade preciosa para, no mínimo, reafirmar algumas coisas. 

Em primeiro lugar, a oportunidade desse treinamento, desse encontro no qual temos aqui quase todos os gerentes, muitos deles adjuntos, técnicos e coordenadores de programação. E se a gente não teve oportunidade até agora, foi inclusive porque não é muito fácil juntar todo mundo em uma mesma ocasião, no mesmo momento. Então, é importante a gente fazer isso, um pouco para reafirmar as nossas questões, as nossas propostas, o que é essa instituição, como tem atuado, por que tem atuado, onde atua. Poderíamos passar o treinamento todo discutindo isso, mas esse não é o objetivo; falo simplesmente para pontuar o fato de a gente estar investindo sempre nessa questão do conhecimento e na melhoria das pessoas que fazem o SESC acontecer. Isso reafirma que, para a gente, muito mais importante do que passar a imagem de uma instituição bem sucedida, de algo que funciona, que realiza seu trabalho, que tem problemas, que enfrenta dificuldades, que tem ameaças, as mais diversas (sempre tem em uma situação como a nossa), é importante dizer que a base, que não é uma base apenas teórica ou uma base de afirmação ou retórica, mas a base de fato da atuação desta instituição, deste corpo, desse organismo chamado Serviço Social do Comércio no Estado de São Paulo, é o trabalho das pessoas, é a realização das pessoas que fazem essa instituição. Mais uma vez, não é uma afirmação demagógica do diretor ou de alguém que tem o poder de decidir ou estar participando de um grupo que toma as decisões na instituição. Não. Isso é fato, um fato comprovado, inclusive em um momento como este. O importante para a gente, para o pessoal novo que está entrando agora na instituição, que talvez esteja participando pela primeira vez de um encontro como este e para aqueles mais antigos, é ter consciência do que é realmente essa instituição. Ela é baseada no conhecimento, na informação, na preparação, no desenvolvimento das pessoas e que, por isso, consegue realizar o trabalho que tem realizado, com o resultado que tem alcançado. O professor Morin já está aí. Eu só queria reafirmar isso para que a gente pudesse entender um pouquinho porque estamos aqui. 

Eu vou ficar um pouco apenas para apresentar e dar início a esse encontro com o professor Edgar Morin e depois vou precisar me retirar porque devo voltar para São Paulo. Gostaria muito de ficar. Para mim, seria muitíssimo interessante estar aqui com vocês e com o professor Morin, nesses três dias, refletir e discutir. Inclusive, acho fantástico podermos ter a possibilidade em uma instituição, em uma empresa, em uma organização, em uma escola etc., de estar discutindo não exatamente sobre o nosso trabalho imediato, sobre os nossos programas, sobre as nossas atividades, sobre aquilo que nós vamos realizar hoje, amanhã ou depois, mas estarmos refletindo sobre o conhecimento, sobre o desenvolvimento do conhecimento, sobre o momento em que vivemos, sobre a situação deste mundo de hoje, complexo, difícil, complicado, globalizado, diferenciado, injustiçado, essa situação que vivemos seja no país ou fora dele. Nesse sentido, é uma oportunidade de ouro, que devemos agarrar, a de poder ter uma pessoa como o professor Morin conosco. Passar alguns dias refletindo e discutindo essa questão de o que é a nossa realidade, tentar entender, ler melhor o nosso entorno, o nosso momento, a nossa situação, a nossa vida atual neste fim de século, fim de milênio, fim de um monte de coisas. Ameaçaram até que seria o fim do mundo também. Era fim de tudo e, de repente, estamos aqui e vamos continuar. Não tem jeito mesmo, temos que tocar a bola para frente. Está começando um novo século, um novo milênio e, pelo jeito, uma nova história do mundo. E nós temos um papel, uma responsabilidade nesse processo. 

Voltando um pouco para o início da conversa, o que é mais importante é a gente estar refletindo, discutindo e realizando o nosso trabalho desse conhecimento, do que propriamente aquilo que dizem que nós somos, que o Sesc é isso, que o Sesc funciona bem ou não funciona, atende ou não atende, realiza ou não realiza, faz ou não faz. O importante é a gente juntar esse dia a dia, esse institucional do dia a dia, essa coisa nossa de estar fazendo coisas no dia a dia com essa realidade cósmica nacional e internacional, universal, tudo de uma maneira bastante profunda. Isso foi só para situar um pouco esse treinamento no contexto da organização. 

 
Vocês têm uma informação mais completa sobre o professor Morin aí na pasta, na qual há uma pequena biografia e sua história. O mais importante, que a gente tem que considerar na contribuição que o professor Morin pode nos dar, é o fato de ele ter esse enfoque múltiplo no seu conhecimento. Ele é um homem da interdisciplinaridade, um homem do conhecimento múltiplo, um homem que traz, portanto, uma contribuição das mais diversas áreas, das ciências exatas, das ciências humanas. E essa formação tem conseguido criar uma perspectiva, uma visão, uma leitura dessa realidade que nós atravessamos, de uma maneira bastante mais completa, bastante mais objetiva. Portanto, é uma contribuição muito importante. Ele é uma pessoa que está enfrentando problemas pessoais e dificuldades para estar aqui conosco neste momento. Isso é um dado importante. Eu agradeço muito a sua generosa contribuição, por estar conosco aqui no Sesc. Não é a primeira vez que ele está conosco. Já estivemos juntos em outras ocasiões, em alguns seminários e debates, em um grande seminário sobre a cultura contemporânea, há alguns anos, lá na Paulista. Enfim, é uma pessoa que tem tido uma participação muito grande na reflexão sobre a nossa realidade e sobre o Brasil, em particular, pois também tem estado bastante conosco aqui no Brasil. Recentemente, ele participou de um encontro no Rio de Janeiro sobre o pensamento complexo, que é uma característica da sua ação, essa tessitura das diversas contribuições do conhecimento para poder interpretar, de uma maneira mais completa, a nossa realidade. 

Eu gostaria de pedir a vocês o máximo de atenção e de cuidado no acompanhamento dessa reflexão com o professor Morin e de agradecer-lhe, de antemão, pela sua generosa contribuição neste momento, ultrapassando inclusive algumas dificuldades pessoais que ele vem enfrentando há algum tempo, como a gente tem conhecimento. E ele está aqui conosco exatamente porque sabe da importância do conhecimento, sobretudo para um grupo de pessoas como nós, ou seja, um grupo de pessoas que lida com a questão do humano, do desenvolvimento das pessoas, dos grupos, que tem essa preocupação com o lado que vai além do material, que vai além do dia a dia, que vai além da produção, além da coisa palpável e que atua muito no campo da educação, da melhoria, do desenvolvimento das pessoas. Portanto, eu espero que a gente possa ter nessa contribuição mais um degrau para o nosso crescimento, para o nosso desenvolvimento. Com a palavra o professor Edgar Morin. 

A Condição Humana: Concepção complexa do ser humano 
como ser individual, social e biológico
 
 Edgar Morin
 
Eu queria fazer alguns agradecimentos aos amigos do Sesc por terem me convidado, pois me dão a oportunidade de desenvolver algumas ideias fundamentais, que me parecem importantes. Vou falar em francês porque não consigo falar na língua portuguesa. Perdoem-me por isso. 

Começo por uma introdução que talvez lhes pareça um pouco longa. Vi o programa que foi definido para o evento, em comum acordo entre os amigos do Sesc e eu, mas acho que seria importante fazer uma breve introdução sobre as ideias que desenvolvi, nos últimos anos, nos quais tive que fazer uma reflexão profunda sobre a reforma do ensino. Eu faço essa reflexão sobre a educação em todos os campos do ensino, como a técnica, os computadores etc. Não só isso. Eu reflito sobre a maneira pela qual nós repassamos os conhecimentos de maneira separada e compartimentalizada nas diversas disciplinas, sobre essa separação entre o conhecimento científico e o conhecimento que está mais relacionado com a cultura humanista, a poesia, a literatura. Todos esses compartimentos estanques impediram o espírito, a mente, de funcionarem de maneira adequada. Ou seja, para conhecer, não é preciso apenas dividir, fragmentar as coisas, para depois ligar, conectar todos os pedaços do conhecimento. Essa é uma atitude subdesenvolvida, quer dizer, a atitude de só dividir para conhecer é subdesenvolvida. Fundamentalmente, a maneira adequada seria partir da reflexão de uma ligação entre a reforma do pensamento vinculada a uma reforma do ensino, ou seja, que a reforma do ensino pudesse levar à reforma do conhecimento e dos ensinamentos, e vice-versa, pois essa correspondência é biunívoca. A partir desse momento, percebi que várias questões fundamentais (e vou citar aqui as sete questões principais) estão ausentes do campo do ensino da França e também de muitos países do mundo. Não se trata apenas da escola primária, secundária ou universitária, estou falando do ensino como um todo, em todos os níveis. Esses problemas fundamentais constituem buracos negros que, no fundo, tornam o espírito completamente doentio, incapaz de enfrentar os grandes problemas da vida, os problemas do nosso século e os do próximo que está por vir. Quais são esses problemas? 

Em primeiro lugar está o ensino. As pessoas nos ensinam coisas, conhecimentos sobre física, matemática, biologia etc., mas não nos ensinam o que significa conhecer, o que significa entender. E é aqui que se coloca uma problemática importante, pois o processo fundamental de ensino só é tratado na filosofia em um ramo específico consagrado, a filosofia do conhecimento ou a teoria do conhecimento. Cada um aqui tem muitos conhecimentos e não sabe o que significa, de fato, conhecer. Então, é preciso que aprendamos o que significa o verbo conhecer. 

Conhecer é uma coisa muito interessante, porque durante muito tempo se pensava que o conhecimento era a reflexão sobre as coisas, como eu os conheço e posso persuadi-los a alguma coisa nesta sala. Poderemos pensar que a minha percepção, a maneira pela qual eu vejo vocês como numa câmara fotográfica, refletiria, imediata e perfeitamente, como em um espelho, aquilo que vocês são. Porém, conhecer é sempre um processo de tradução e reconstrução. Por quê? Sustento o exemplo. Percebo vocês com os meus olhos, com o meu olhar. O que quer dizer isso? Significaria que dentro dos meus olhos há milhões de células oculares distintas que estão captando estímulos luminosos e coloridos que vêm do mundo exterior. Essas células depois irão “traduzir” esses estímulos em um código binário e todas essas informações, esses “estimulies” chegarão ao nervo ótico até serem decifrados por múltiplas regiões cerebrais através de um processo incrivelmente complexo. E é o cérebro que fará uma reconstituição do simples fato de eu poder vê-los. Isso se faz instantaneamente, imediatamente. 

Há outro exemplo. Há um fenômeno que conhecemos que é a constância da percepção. Isso significa que as pessoas que estão no fundo da sala, mais distantes, estão menorzinhos de tamanho na minha retina do que os que estão sentados perto de mim. Mas eu não percebo isso, porque meu cérebro imediatamente se ocupa dessa tradução e eu sei que aqueles que estão mais distantes de mim não são, na verdade, mais baixos ou menores do que eu mesmo. Nós sabemos que a constância da percepção, como acontece hoje em dia, que nós acreditávamos ser aprendida pela experiência é, na verdade, um processo inato que o bebezinho já possui quando reconhece sua mãe, porque ele vê a mãe muito maior quando está pertinho dele e nem tanto quando ela se afasta. 

Todo esse trabalho de reconstrução mostrava já, com todos os estudos filosóficos que se fez, que o conhecimento é processado por impor ao mundo exterior certo número de categorias oriundas do espírito humano e que nos permite organizar o conhecimento, o entendimento. Então, dizer que o conhecimento é sempre uma operação de tradução e, em seguida, de reconstrução equivale a dizer que sempre há risco de se cometer erros em seu processo normal.

Vejamos qual seria o primeiro erro, como aquele da alucinação. Se minha visão promove alucinações, não há mecanismo no cérebro que me permitiriam compreender a diferença entre uma percepção real e a alucinação. Apenas quando reflito e digo “bem, isso não é possível” e quando comparo, pergunto para os meus vizinhos e amigos à minha volta o que estou vendo e as pessoas me dizem que “não, não é isso não”, é que saberei que se trata de uma alucinação. O processo de conhecimento em si, portanto, está submetido permanentemente a um risco de erro, de se cair no mundo da ilusão. Não farei um desenvolvimento prolongado sobre isso, mas a verdade é que a ilusão ocorre porque toda construção é a tradução de um processo. Quando sobrevêm as palavras para expressar ideias e traduzir coisas, estas ideias são nada mais nada menos do que a tradução da realidade. Se eu lhes disser, por exemplo, “Oh, o dia está lindo! ” são palavras que dizem que o sol saiu e que a temperatura provavelmente está mais alta; tudo isso culmina nesta expressão “Oh, o dia está lindo. ” Essa é que é a grande contextualização.

Vou ser breve a esse respeito. Há riscos de se cometer erros, que vêm inicialmente da maneira pela qual a informação é recebida. Essa teoria da informação, que foi formulada há mais de cinquenta anos por Shannon e Weawer, uma técnica que parece tão banal ou fácil de entender, mas ele deu a ela uma noção da física, pois foi capaz de quantificar e transformou isso em bits. Graças a isso, a informática tomou o escopo que tomou. É uma teoria muito importante, mas o mais interessante na teoria da informação de Shannon é que a informação não é somente um emissor que vai a um receptor e passa por um canal. Não é apenas uma linha telefônica, pois o ar é um veículo. Então, qual é o risco que a informação pode sofrer? É o “noise”, o barulho, o ruído, nós diríamos, algo que deforma a mensagem. Isso ocorre incessantemente no ato da informação ser passada e esse risco é sempre uma ameaça. Há uma pequena brincadeira (não sei se vocês conhecem): se a primeira pessoa sentada à ponta desta mesa disser uma frase a uma segunda pessoa, que vai repeti-la e assim sucessivamente, quando eu pedir para a Nurimar me dizer o que foi dito, nós sabemos que haverá uma deformação fantástica, ainda que tenhamos todas as maneiras de nos precavermos. É isso que Shannon chamava de redundância. O conhecimento, então, sempre implica a ideia de erro. Temos a impressão de que escutamos alguma coisa, mas podemos nos enganar. Nós nos enganamos sobre a própria natureza da mensagem. Muitas vezes, há um erro logo de saída, como em Tristão e Isolda: quando Tristão volta e quer encontrar Isolda, ele quer colocar uma vela branca, mas há um erro, pois ao invés de erguer a vela branca ele ergue a negra e Isolda se suicida. A luta contra o erro é um problema permanentemente presente. No mundo, quando pensamos na natureza da vida humana desde os tempos da pré-história, quando nossos ancestrais eram caçadores ou coletavam os alimentos, tinham que interpretar todos os ruídos da natureza. Se fossem, por exemplo, folhas pisadas, seria uma caça, seria um animal perigoso ou seria apenas o farfalhar do vento? Na vida social é a mesma coisa. Vocês sabem que da arte da guerra derivou a invenção da estratégia, a vontade de se cometer o menor número possível de erros. Em função do que o adversário quer da nossa posição, nós também avaliamos a posição deles. O que o adversário faz é enviar informações que façam com que nós nos enganemos e isso se reflete no mundo social. Nas relações humanas, há sempre a possibilidade de um erro se perpetrar, muitas vezes por ambiguidade da natureza da mensagem ou pelo “ruído” que, também, pode acabar deformando a mensagem.

Outro risco é cultural. Acontece quando cada cultura tem as suas normas, a sua maneira de organizar o conhecimento. Quando uma nova ideia aparece e não corresponde às ideias dominantes, que parecem evidências absolutas, nós sabemos que uma nova ideia será refutada como sendo um erro. É o que aconteceu com todas as grandes inovações no campo da espiritualidade. O cristianismo foi rechaçado como um erro pelo judaísmo e depois pelo próprio Império Romano. Maomé, em seu tempo, foi perseguido pelas religiões pagãs. E, mesmo no campo das ideias, muitas vezes todas as novidades se mostram como erros que aparecem na história da humanidade. Se acreditássemos na verdade, porque de acordo com o que nos foi dito, a verdade seria tal coisa ou tal outra, é evidente que isso é oriundo das culturas muito mais tradicionais, baseadas em dogmas religiosos fortes, poderosos, que acabam matando, liquidando fisicamente aquele que não concorda, como aconteceu ainda no século XVII, em Roma, com Giordano Bruno, que foi queimado na fogueira e outros que foram considerados heréticos. Nessa nossa sociedade pluralista, quando não há um sistema totalitário em vigor, surge o erro quando alguém lê um jornal e fala: “Bem, aconteceu tal coisa”. Os erros sempre advêm da cultura.

Eu faço essa introdução, mas falo, na realidade, de algo muito importante que é a condição humana, pois a condição humana está inscrita numa sociedade ou numa cultura, é claro. É a condição humana que funciona não somente com percepções, mas também com ideias, com palavras. O problema do conhecimento humano é um problema-chave da condição humana. Então temos algumas outras coisas que nos relacionam com as substâncias espirituais que as sociedades elaboram. Nós podemos pensar, entretanto, que somos crentes e que as ideias vêm pelo fato de que no sistema religioso há certo número de pessoas que acreditam, creem em uma religião. Pelo fato de existir uma crença na religião, é que os deuses se tornam uma realidade, quer dizer, vamos rezar para eles, vamos obedecer a eles, vamos fazer pedidos a eles, vamos ser capazes de morrer por nosso próprio Deus, vamos ser capazes de matar pelo próprio Deus. Essas ideias, essas entidades tomam um poder que vai controlar e dominar os espíritos humanos, mesmo que eles, os deuses, tenham nascido dos espíritos humanos. E eu diria que é a mesma coisa para as ideias: as ideias não são simplesmente instrumentos dos quais nos servimos. As grandes ideias que se transformam em grande poder como as de progresso, de revolução e muitas outras são ideias que não somente possuímos, mas que nos possuem. E elas vão ser capazes de nos dizer: é preciso matar por mim ou é preciso morrer por essa ideia. Então, existe essa capacidade de ilusão que vem das nossas relações com as ideias. E aí existe um paradoxo da condição humana: para conhecer, nós não podemos prescindir das ideias; como lutar, então, contra as ilusões que vêm das ideias? Nós só podemos lutar por ideias, mas não contra essas ilusões que vêm das ideias. É possível lutar por ideias mais pertinentes, por ideias que não estão sujeitas às ilusões. Existe uma fonte importante de ilusões nesse processo do conhecimento. Aliás, existe uma frase do Karl Marx, bastante importante na “Ideologia Alemã”, em que ele dizia: “Em cada época, os homens não sabem o que são e não sabem o que fazem”.  Apesar disso, nós sabemos que ele mesmo, Karl Marx, sabia o que os homens eram, ou, dito de outra forma, ele pensava que sabia o que os homens eram e o que faziam. Ele também cometeu erros, teve muitas ideias pertinentes, mas também errou fundamentalmente sobre a natureza humana, sobre as realidades humanas e sobre o sentido da história humana.

Nós temos esse problema permanente. Não é só no passado. Quando voltamos ao passado, sempre dizemos: “Quantos erros eles fizeram no passado. Muito raros são aqueles que foram perspicazes”. Não nos damos conta, porém, de que esses problemas do passado podem acontecer para nós também. Pensando um pouquinho, há vinte anos vivíamos em um tipo de fé incondicional no progresso, pensávamos que o desenvolvimento técnico e o científico levariam a humanidade a progredir na racionalidade, na democracia, a desenvolver os recursos humanos, o bem-estar humano e que, então, progressivamente o mundo seria melhor, que o amanhã seria melhor do que hoje, que depois de amanhã seria melhor do que ontem. Essa ideia de que o progresso era uma lei científica da história humana. Evidentemente, esse poder de conhecimento da ciência é maravilhoso, mas nos últimos vinte anos, começamos a compreender que existe um enorme poder de destruição, por exemplo, com as armas nucleares que, hoje, poderiam aniquilar a humanidade. Começamos a ver que as descobertas da genética são incrivelmente extraordinárias, mas que manipulações genéticas incontroladas podem ter um papel muito perigoso, não somente em vegetais, mas também nos humanos. Damos conta de que o desenvolvimento técnico e industrial, que traz todas as vantagens que conhecemos, pode também trazer inúmeras degradações ecológicas que ameaçam a biosfera e ela é indispensável, pois estamos nela. Estamos, então, correndo o risco de regredir se essa destruição continuar. Assim, nos damos conta de que a história humana não é traçada, que existem diversas bifurcações também (esse é um ponto que vou falar daqui a pouco) tudo relacionado ao problema da insegurança.

Vou voltar a um último ponto, que é um ponto subjetivo e pessoal. As pessoas que fizeram um pouco de psicologia e de psicanálise sabem muito bem que isso é o que chamamos de inconsciente. Quando estamos determinados, agimos por forças inconscientes. Acreditamos agir por tal motivo, mas estamos escondendo os motivos reais de nós mesmos. Isso já faz parte da nossa cultura. Mas existe alguma coisa mais geral ainda, que os ingleses chamam de self-deception, o autoengano, o engano em relação a si mesmo. É um processo que continua e que se manifesta de diferentes modos, pois cada um de nós é egocêntrico, tenta esconder de si mesmo suas fraquezas, suas carências, seus defeitos e tenta se glorificar excessivamente pelas boas coisas que faz. Existe um processo permanente através do qual nós nos iludimos sobre nós mesmos. E vocês sabem que a nossa memória é seletiva, quero dizer, tendemos a nos esquecer de eventos que nos atrapalham, que nos incomodam e a guardar elementos que nos agradam. Temos até falsas lembranças. Existe um trabalho muito interessante, feito por pesquisadores americanos, sobre as falsas lembranças. Estamos convencidos de ter vivido tal e tal coisa, mas que, na verdade, só aconteceu na nossa imaginação. Isso é a self deception, o engano em relação a si mesmo. Eu penso, então, por que não ensinar desde os primeiros níveis, da maneira mais simples e durante todo o percurso do ensino secundário etc., sobre o problema fundamental do conhecimento relacionado ao erro e à ilusão, erro e ilusão que vêm justamente da natureza do conhecimento – que é sempre uma tradução e uma reconstrução. Esse é o primeiro ponto. Eu repito que, evidentemente, esse ponto faz parte preliminar do conhecimento da condição humana.

O segundo ponto fundamental sobre o qual eu falava é da compartimentalização, da fragmentação do conhecimento, através da qual se torna difícil que vejamos as coisas inseridas em seu contexto mais global. Há um primeiro ponto muito importante que devemos saber. O conhecimento pertinente é um conhecimento capaz de situar informações em seu contexto mil vezes mais do que um conhecimento híper sofisticado do ponto de vista da sutileza matemática. Por exemplo, no campo da economia ou das ciências econômicas (que dentre as ciências sociais e humanas é das mais sofisticadas do ponto de vista do cálculo), uma ciência que há anos vem recebendo Prêmios Nobel, quando em um determinado momento acontece uma crise, imediatamente os economistas começam a discordar entre si. Muitas vezes, as coisas não foram previstas e eles divergem sobre os diagnósticos do que cada um é capaz de prever – se é que são capazes de prever – e, sempre, é preciso ficar aprumando o rumo para corrigir os erros. Por quê? Porque a economia é vista de maneira estanque em relação às demais ciências humanas. No entanto, a economia não é só uma transação econômica. Quando você sai para comprar alguma coisa, um pão, por exemplo, um vidro de perfume ou um vestido, são coisas nas quais estão envolvidos valores: um vestido bonito significa agradar, um perfume, a sedução. Suas paixões ou a sua subjetividade, portanto, estão colocadas nas compras. Assim, no ato econômico transacional também há elementos afetivos e passionais. Além disso, o conhecimento está ligado a todos os outros aspectos. Como a economia fica à parte, separada teoricamente, ela é incapaz de ver esses aspectos, pois quando se fala de cálculo se elimina tudo o que não é passível de cálculo. O que seriam, então, as coisas incalculáveis? O amor, a amizade, o ódio, as paixões, todos os sentimentos humanos? Então, é uma ciência incompleta. Entendemos que é preciso que tenhamos uma visão caleidoscópica ou poliscópica - literalmente - da economia, da psicologia, incluindo a história, a mitologia, a religião etc. O problema verdadeiro é a capacidade que a pessoa tem de contextualizar. Não é fácil fazer isso. Evidentemente, há um nível básico, preliminar. Por exemplo, estamos aqui e todo mundo sabe que teve uma guerra em Kosovo. Houve uma conferência e, em função do problema ocorrido lá, a guerra foi declarada. Muitos de vocês sabem o que significa quando se diz Kosovo, mas através de matérias de jornais, de debates, de reportagens na televisão. Quando as pessoas começaram a ter informações sobre Kosovo, perguntavam-se: afinal, o que é Kosovo? É uma província? É uma província que não é província, um Estado que não é Estado, porque na antiga Iugoslávia era um território autônomo em que havia republicanos, várias repúblicas (Sérvia e Croácia) e dois outros territórios autônomos. O presidente Milosevic destruiu essa autonomia em 1989. Kosovo, que era uma antiga província sérvia, tinha, na Idade Média, mosteiros, foi povoada quase que em 100% por uma população albanesa que vivia na região, antes dos eslavos. Até aqui não há tanta complexidade. A seguir, é preciso entender a crise do comunismo para ver como as questões nacionalistas chegaram e tomaram seu lugar. Por que tantos países que, durante cinco séculos, estiveram sob o julgo do império otomano evoluíram cada qual de uma maneira? É preciso ter uma imensa gama de conhecimento histórico para contextualizar. Isso não quer dizer que você não vá falar muita besteira, mas pelo menos terá reduzido essa possibilidade. O contexto é importante para o entendimento desse caso. Outro exemplo. No Egito, há cerca de trinta a quarenta anos, o chefe de Estado, coronel Nasser, resolveu construir uma imensa barragem, a de Assuam, no Nilo. O propósito dessa construção era claríssimo. Era totalmente utilitarista porque, de um lado, poderia gerar energia elétrica ao país e, por outro lado, permitiria regularizar as enchentes do Nilo. Como se sabe, o Nilo tinha enchentes e quando a água trasbordava, fertilizava o terreno à sua volta. Depois que a barragem de fato começou a funcionar, foram vistos dois defeitos. O primeiro é que uma parte dos peixes, que estava à montante, não podia mais passar e aqueles que estavam habitando o Vale do Nilo - e toda a população do país estava praticamente concentrada às margens do Nilo - não podiam mais ter acesso ao pescado. E mais, quando as enchentes eram irregulares, o Nilo fertilizava regiões áridas por dois, três anos. Mas o problema era que os fertilizantes naturais necessários à adubação da terra acabaram e o êxodo começou. As pessoas acabaram superpovoando a cidade do Cairo, em condições dramáticas de vida. Mais recentemente, as pessoas perceberam que essa barragem apresentava problemas de fissura em sua estrutura e ainda havia riscos de outras catástrofes. Enfim, o que aconteceu? As pessoas construíram barragens por um critério técnico-econômico limitado e nada mais do que isso. As pessoas não analisaram outros problemas econômicos porque não analisaram o contexto e, simplesmente, suprimiram determinadas etapas. Na União Soviética, rios inteiros tiveram seu curso alterado, com um dano ecológico absolutamente monumental. 

O conhecimento fundamental, portanto, deve estar inserido em um contexto. Em segundo lugar, globalizar esse contexto, o que significa incluir a coisa que está sendo objeto de estudo não apenas no contexto limitado e imediato que a cerca, mas também no contexto global. Hoje em dia, isso se tornou cada vez mais importante. Devo dizer que a globalização, na verdade, começou desde que Cristóvão Colombo fez sua primeira expedição, mas ultimamente está mais intensificada. Significa que não somos mais capazes de entender a problemática das coisas em nível local, nacional ou às vezes até continental. O problema nuclear é um problema planetário. A questão da ecologia tem aspectos regionais, mas é um assunto de importância planetária. Se falarmos da questão das drogas, como a heroína ou a cocaína, é um problema grave que está muito além do consumo local e também é uma questão planetária. Há máfias transnacionais, não apenas as regionais como na Colômbia ou no Peru. Há a máfia russa no circuito internacional e, depois, a lavagem de dinheiro que se faz na Suíça. Recentemente, a jurista suíça que foi encarregada do julgamento da lavagem de dinheiro foi afastada: ela não poderia resolver isso em nível nacional porque o problema ia mais além. Então, todos os grandes problemas da humanidade alcançam essa dimensão. O que significa pensar globalmente? Significa entender a relação entre as partes e o todo. Não é apenas o todo que influencia as partes, mas as partes também ecoam.

Voltando ao exemplo de Kosovo, o caso surgiu de uma crise na Europa Oriental que, aparentemente, era uma crise regional. No entanto, as implicações iam muito mais além, colocando em risco o equilíbrio no mar Mediterrâneo. Os problemas entre turcos ortodoxos e muçulmanos são questões mais amplas, que repercutem em nível internacional, o que faz com que a OTAN entre em cena. E a OTAN acaba modificando o problema que, localmente, tinha outro âmbito. A questão do Oriente Médio é a mesma coisa, pois é uma região do planeta que é fonte de conflitos globais. Quando se vê a questão da guerra entre a Índia e o Paquistão, sabemos que cada um deles tem bomba atômica. Muito bem. O que vai acontecer com essa potência toda que eles preconizam? É preciso, portanto, ter um conhecimento capaz de visualizar o contexto geral, globalizado, que implica na relação da parte com o todo e vice-versa.

Finalmente, o que quer dizer complexidade? Aquilo que está ligado. Como eu disse, a economia está ligada às outras dimensões. Muitas vezes, em nosso universo, dispomos de tudo que é complexo. É um vínculo múltiplo que é preciso tratar de esclarecer. Quando se diz que uma coisa é muito complexa, significa que somos incapazes de dar uma definição sobre tal coisa. Então, a complexidade é um desafio. O pensamento complexo é um aprendizado capaz de permitir depreender a maneira pela qual vamos enfrentar esse desafio. Não é apenas uma parte inserida em um contexto. Cada célula faz parte dos tecidos do meu organismo e eu, como organismo, faço parte de uma espécie, a espécie humana, e em cada célula está a totalidade do legado do patrimônio genético. Tanto é que, a partir de uma célula, hoje em dia é possível fecundar ou fazer uma clonagem. Assim, o indivíduo é parte do social. Desde o nascimento, se inculca na criança a cultura das normas de limpeza, o que é preciso evitar etc. A sociedade, então, está dentro da pessoa e a espécie biológica está dentro da gente. Voltando ao exemplo que eu havia dado, somos o produto de um processo biológico de reprodução, mas para que tal processo continue, nós devemos, enquanto produtos, nos tornar produtores, ou seja, nos ocuparmos do ato de reprodução.

Finalmente, o que é a sociedade? A sociedade é produzida por interações entre as pessoas. Se não houvesse indivíduos, não haveria mais sociedade. Uma vez que ela existe e que tem suas regras, culturas e linguagens que retroagem sobre as pessoas, nos dá a capacidade de nos desenvolvermos como pessoas inteligentes. Então somos produtos produtores e é essa maneira de pensar que permite encarar a complexidade. Essa foi uma breve introdução sobre a condição humana, porque a condição humana deve enfrentar problemas vitais.

Vamos enumerar, rapidamente, outros pontos obscuros que fazem parte da condição humana, que é também um problema da nossa época globalizada, em que todos têm a mesma identidade terrena e não existe nada que esteja indicando diretamente para isso. Temos conhecimentos parciais e temos também que enfrentar as incertezas, as inseguranças. É um problema muito antigo. O poeta da tragédia grega, Eurípedes, dizia no final de suas Tragédias: “Os deuses frequentemente nos enganam, o que é esperado não acontece e é o inesperado que acontece”. Ele nos dizia isso há 2.500 anos e isso realmente sempre aconteceu. Não era esperada a queda do Muro de Berlim ou a Segunda Guerra Mundial. Não nos ensinam a enfrentar o incerto, não nos ensinam a enfrentar o problema fundamental de hoje, em nossa época planetária, que é a compreensão humana. É necessário, efetivamente, haver compreensão não somente entre vizinhos, mas entre todos os humanos da Terra. Finalmente, não há uma ética do gênero humano que pode se desprender do ensino. São problemas que vamos abordar hoje.

Vamos pensar um pouquinho na condição humana. Jean Jacques Rousseau, filósofo francês do século XVIII, escreveu um livro chamado Émile, sobre um menino que se chamava Émile que dizia: “Eu quero ensinar a condição humana”. Uma coisa central é saber o que quer dizer “ser humano”. É importante saber também o que quer dizer a palavra “conhecer”. A condição humana está desintegrada em pequenas partes, vocês veem uma partezinha na psicologia, uma pequena parte na história e não há nenhuma ligação entre essas partes. Do ponto de vista da biologia, o homem biológico é separado do homem cultural e psicólogo. Vocês estudam a biologia humana em biologia, estudam o cérebro em biologia e estudam o espiritual em psicologia, apesar de serem inseparáveis, de um fazer parte do outro. Pode-se dizer que, durante muito tempo, as ciências humanas acreditavam que seria possível conhecer o ser humano eliminando o que havia de biológico nesse ser. No entanto, existe uma ligação inseparável entre o biológico e o cultural. Existem as cerimônias religiosas envolvendo o nascimento e em várias religiões existem batismo e circuncisão para os meninos. Nascer é um ato cultural; morrer também. Há ritos de morte, os funerais, as crenças, os túmulos. Comer também é uma coisa cultural, cada cultura tem suas regras do que pode comer e do que não pode comer. Comer e beber são um rito de comunicação entre humanos. Quando alguém vem visitar, você oferece alguma coisa para beber, os almoços de negócios facilitam as conclusões dos acordos. Comer é uma maneira de comungar, de se comunicar. As necessidades fisiológicas são coisas culturais, temos banheiros separados, temos ritos. Não existe nada que seja puramente biológico, como não existe nada que seja puramente cultural.

Antes mesmo do conhecimento da parte biológica, aconteceu uma coisa muito importante. Os desenvolvimentos do conhecimento, que ocorreram a partir da década de 60, mudaram completamente nosso modo de conhecer o mundo, a vida e o ser humano. Mas, infelizmente, não entraram no sistema educacional. Por quê? Porque são conhecimentos polidisciplinares. A partir de 1960, por exemplo, se desenvolveu a cosmologia, ou seja, o conhecimento do cosmo. A partir desse momento, impôs-se a ideia de que o universo tinha uma história, tinha um início inacreditável que se traduzia por uma deflagração, um fenômeno de um calor intenso que chamamos de Big-Bang. Existe um início, enfim. E graças às ciências microatômicas, pudemos começar a imaginar como se formaram os primeiros elementos da matéria, as partículas, os núcleos dos átomos etc. Além disso, em 1975 foi detectado um tipo de raio fóssil que está presente em todos os pedaços do universo e que parecia indicar os traços dessa explosão inicial. A ciência do cosmo vai se modificar, ela ainda está no início. Não se pode pegar o conhecimento científico de uma época como uma coisa certa, mas sabemos que não podemos mais voltar atrás e imaginar o cosmo como uma máquina perfeita, que era a imagem que a ciência tinha no século XIX. Nosso cosmo tem uma história, começou com uma mistura de ordens e desordens. Através dessas interações, existem partículas que se autodestroem, existem certos princípios de ordem que fazem constituir os núcleos e os primeiros átomos, que depois vão se aglomerar em galáxias e astros. Podemos então seguir uma história, na qual existem fenômenos de criação e de destruição. É uma história muito incerta, na qual há processos de complexificação, mas também outros que vão no sentido inverso de dispersão. Nós não sabemos para onde vai nosso universo. Muito bem, mas a ciência cosmológica tem a colaboração da astronomia, que desenvolve instrumentos como os satélites; da astrofísica, que é a análise física dos astros e da microfísica, que estuda o comportamento das partículas em condições de temperatura da origem da Terra. Podemos ter uma visão de conjunto. Vocês podem encontrar livros de astrofísica, que falam sobre essas coisas com hipóteses bastante diferentes, mas com os mesmos problemas fundamentais. Essa cosmologia se desenvolveu, mas ainda não encontrou o seu lugar, nem nas universidades, porque ela deve juntar as ciências físicas que são, atualmente, separadas. Existem as ciências da Terra que se juntaram também nos anos 60. Antes, havia a geologia, a sismologia, a vulcanologia, a meteorologia, enfim todas as ciências que eram separadas. A partir dos anos 60, elas se juntaram porque a Terra foi considerada como um sistema complexo. Foi descoberta a tectônica das placas terrestres, que faz com que os continentes sejam empurrados de um lado para outro. Todas essas ciências são ligadas. Assim, começamos a ter uma visão global do planeta. Mais para frente vou falar sobre a biologia, evolução biológica etc. 

Vamos voltar ao cosmo. O que sabemos hoje é que, evidentemente, somos seres biológicos. Desde 1950, sabemos da descoberta do código genético por Crick e Watson. Descobriu-se que nossos organismos eram feitos da mesma matéria físico-química que existe no universo. Acreditava-se durante muito tempo que a diferença entre a vida e a matéria não viva era uma questão de matéria, que a substância viva tinha qualidades que não tinham as substâncias físicas. A diferença capital é uma diferença de organização. A organização viva é muito mais complexa do que a organização físico-química. Inicialmente, ela se junta em uma só célula. Os primeiros organismos unicelulares surgiram há quatro bilhões de anos. A organização em macromoléculas criou quantidades novas, como a capacidade de ter um patrimônio cognitivo, que se encontra nos genes, de se mover, de se reproduzir, de se organizar. Isso também é um problema de complexidade, pois a diferença entre a vida e a não vida é a complexidade da organização viva. Essa complexidade vai se manifestar de maneira extremamente paradoxal na relação com a morte. Como? Há cerca de 2.700 anos, um filósofo grego, Heráclito, fez este enunciado espantoso: “Viver da morte, morrer da vida; viver de morrer, morrer de viver”. É totalmente estranho isso. Bichat, um grande fisiologista e médico francês, definiu a vida como o conjunto de funções em luta contra a morte. É uma visão muito profunda, porque um processo natural é um processo de decomposição e separação das partes, assim como a respiração que, através do oxigênio circulando, alimenta nosso corpo e o batimento cardíaco. Mas o que Bichat não havia entendido é que essa luta contra a morte se faz com a colaboração da própria morte. Como é isso? As moléculas que constituem as nossas células se degradam. Então, novas moléculas são geradas, mas as células, ao morrerem, são substituídas por novas. Talvez as do cérebro não passem por esse processo, mas ainda assim esse fato não é totalmente conhecido. As outras células do organismo, quando envelhecem, morrem e há um fenômeno de regeneração, de rejuvenescimento permanente. Assim, a morte das células é um mecanismo que o organismo usa para sua autorregeneração. De certa forma, poderemos dizer que viver de morrer é exatamente isso. Mas morrer de viver, rejuvenescer ad infinitum é exaustivo, cansa, e não é movimento perpétuo. Finalmente, a morte sobrevém, às vezes, de maneira inesperada, outras vezes, não. Há uma relação muito curiosa: a vida, lutando contra a morte, se serve dela. As sociedades têm que aguentar a morte dos indivíduos. Felizmente, temos escolas, culturas, ensinamentos e todo o patrimônio do conhecimento cultural. As sociedades acabam se rejuvenescendo com jovens que vêm ocupar os lugares. Então, na ecologia, podemos usar a relação de vida e morte, fazendo essa transposição, porque os pequenos animais que são vegetarianos se alimentam de vegetais e por sua vez são comidos pelos carnívoros maiores, até que carnívoros grandes os devorem e depois irão se deteriorar. Depois do processo de decomposição, os sais minerais vão ser absorvidos pelas raízes das plantas e serão reciclados. Na verdade, nós comemos outros seres vivos. Essa é uma complexidade clássica, uma relação entre a vida e a morte que não é apenas de oposição, é, fundamentalmente, uma relação de oposição, mas que também se faz com uma complementaridade dentro do antagonismo dessa relação vida e morte. Não significa dizer que a vida não seja uma luta permanente contra a morte.

Tendo dito isso e para concluir a primeira parte deste encontro matinal, quero falar, voltando à questão do cosmo, das partículas. Como lhes disse, sabemos hoje que somos constituídos de moléculas que, por sua vez, são constituídas por átomos e assim por diante. As partículas que nasceram da origem do universo, até dos primeiros instantes da explosão, talvez ainda estejam remanescentes em nós mesmos aos milhares. Sabemos, hoje em dia, que o carbono foi forjado no coração de um astro, um sol anterior ao nosso. É curiosíssimo pensar como é formado o carbono. Quando três núcleos de hélio se fundem, a molécula de carbono é formada. Com o passar do tempo, quando esse sol desapareceu e todos esses átomos foram espirrados, um novo sol acabou surgindo. Vocês devem saber que a Terra é um agregado de dejetos desses sóis anteriores. A Terra é uma espécie de lixo criado nessa fusão. Heráclito também dizia que nada é mais belo do que tanto lixo exposto ao acaso. Evidentemente, ele se referia ao lixo produzido pelos astros. E o carbono é um elemento básico da vida. Sem carbono não há vida. Então, foi preciso que as moléculas de carbono se organizassem e formassem macromoléculas. É toda uma história físico-química que foi acontecendo até que o primeiro ser vivo surgisse. O primeiro ser vivo, um ser vivo originário de tudo, é uma questão misteriosa. Em artigos científicos há relatos de que provavelmente deve haver vida e consciência em outras partes do universo. Por que as revistas publicam essas coisas? Porque hoje sabemos que há milhares de sistemas solares e de planetas em que, provavelmente, as condições são semelhantes às da Terra. Assim, é altamente possível que haja vida nesses outros locais. Aqueles que defendem essa ideia dizem que é preciso lembrar, também, que a vida surgiu em função de toda essa série de acontecimentos favoráveis. Mas a termodinâmica e suas leis nos mostram que a organização espontânea também se cria na natureza sob a forma de turbilhões que acabam se mantendo por si mesmos. É como uma ponte que depende de pilares. Quando há um turbilhão, os pilares se movem em função de um fluxo de líquido. Tenho um amigo, o professor Cameras (?), da Universidade de Montpellier, que diz que esse turbilhão encontra em si mesmo a energia das moléculas capazes de gerar energia para fazer continuamente esse movimento de rotação. Talvez haja realmente outros universos semelhantes a este. Mas num sentido contrário, há uma reivindicação de Jacques Monod, que escreveu um livro belíssimo sobre o acaso e a necessidade. Ele diz que é curioso pensar que na Terra a vida tenha nascido apenas de uma vez. Por quê? Porque todos os seres vivos nasceram a partir dos mesmos elementos químicos, as proteínas, ácidos nucléicos, e todos têm exatamente o mesmo código genético. Seja uma pulga ou um elefante, apesar da alteração das moléculas de proteína na cadeia, todos têm o seu DNA. Ademais, têm o carbono orientado para a esquerda. Nós sabemos que o carbono é encontrado na natureza tanto à esquerda como à direita. Se a vida nascesse mais uma vez, não seria exatamente esse código genético e não teria importância se o arranjo da molécula de carbono seja endógeno ou exógeno. Então, há outros planetas, mas o que nós sabemos é que o satélite da Terra, que é tão bonito e fantástico, a Lua, que está muito perto, é um satélite muito grande. Recentemente, aprendemos que a Lua faz parte da estabilidade da Terra. Então, quando se divaga sobre os acidentes climáticos que poderiam ser um desdobramento desse equilíbrio afetado, pode-se dizer que talvez sejam as condições únicas nessa relação. Mas o que a gente sabe a esse respeito? Nada. Mandamos mensagens pelo universo e nada de resposta. Se houver turistas cósmicos, eles não vão dar uma olhadinha nessa galáxia ridícula que é a Via Láctea e nem vão querer dar uma paradinha aqui na Terra. É provável que haja outras paradas turísticas muito mais bonitas e interessantes. A gente não sabe. Enfim, é um fenômeno bastante interessante, porque temos que nos confrontar com aquilo que é incerto, que é saber se somos únicos no universo ou não.

Há um segundo tema interessante sobre a unicidade, a vida. A vida se desenvolveu a partir de um elemento primeiro que se diversificou. Houve uma proliferação de bactérias inicialmente e, em seguida, percebemos que elas se diversificaram muito. Foram descobertas até mesmo bactérias arqueológicas e depois aparecem os eucariontes, com seu patrimônio genético que está contido no núcleo e vai engendrar células que estão nas plantas e animais, uma vez que o mundo das bactérias atravessa todos os campos: o campo aéreo, a água e até mesmo o nosso intestino. Se não houver bactérias no intestino, morremos. Mas nem todas são maléficas. Algumas são nefastas, mas são em pequeno número. A grande maioria é vital. Há até mesmo alguns pensadores que imaginaram que, na verdade, já que todas as bactérias se comunicam nessa grande rede bacteriana, nós próprios seríamos um produto delas e estaríamos sob seu controle. Isso é ficção científica. O fato é que a vida foi se expandindo de maneira incrível. Em determinado momento, os vegetais aparecem e aí tem essa fantástica explosão que são as flores. Há o reino dos invertebrados, dos insetos, depois os vertebrados, os mamíferos, até que chegamos aos antropoides e aos humanos. Há sinais de inteligência no mundo animal, de organização absolutamente incrível em formigueiros. As formiguinhas são inteligentes e saem atrás de conhecimentos de agricultura, porque elas conhecem até as drogas. Quando elas extraem de algumas plantas substâncias e acabam bebendo um pouco mais desse licor, elas se esquecem de morrer, mas as larvas não são enfermeiras sérias. E isso prova que há uma epopeia. Depois, há também a guerra entre as formigas. É uma organização social absolutamente incrível. A gente não pensa que a formiga, quando está isolada, sai andando em todos os sentidos. Para ela poder coordenar seus movimentos, tem que sair em grupo. Quando uma formiguinha encontra uma folhinha que quer levar para o formigueiro, ela caminha e vai para lá e para cá. Se tiver várias formigas, todas acabam tendo um movimento mais coerente e é mais fácil achar o caminho de volta. É como se cada formiga fosse uma célula de um cérebro coletivo em busca do formigueiro. O fenômeno da consciência individual surge, assim, apenas em condições culturais humanas. É assim que se faz. Mas o indivíduo em si tem a sua inteligência e a sua sensibilidade. Também no reino animal nota-se isso.

Esse fenômeno de pensar o mundo e de sermos capazes de fazer tais indagações é uma doença da humanidade e, graças a ela, eu posso estar aqui fazendo esta conferência. Podemos dizer que, quando vemos esse fenômeno, tudo é complexo e é raro o que não é complexo. Por exemplo, a vida, que é infinitamente mais complexa do que a matéria físico-química, é minoritária na Terra, ocupa uma pequena superfície, um pouco das profundezas dos mares, voa, mas não tão alto etc. A grande maioria da matéria no planeta é físico-química. Na vida, os fenômenos complexos estão sempre numa pirâmide que se afunila e podemos pensar que há uma complexidade natural. Então, haveria também em outros campos e não apenas nesse veio em que a espécie humana surgiu. Esse é mais um ponto de reflexão que nos faz pensar que, talvez, não estejamos sós nesse universo. Não temos certeza disso e é uma ideia que precisamos deixar maturar.

Gostaria de concluir a sessão matinal chegando a essa questão fundamental. Da mesma forma que temos em nosso organismo partículas, átomos e moléculas que existiram antes, oriundas do cosmo, também há em nós os herdeiros, os filhos ou irmãos das primeiras células que se diferenciaram e se lançaram num processo de multiplicação. A vida, pois, enquanto vida, está em nós através da organização celular. O nosso organismo é uma república mais ou menos democrática de 250 bilhões de células. Além disso, somos animais vertebrados, mamíferos, antropoides, humanos. 

À tarde, vamos tocar nessa temática do que somos. 
Obrigado pela atenção.
 
(Intervalo)
 
Retomando. 
 
Temos o mundo físico no interior de nós mesmos e temos, também, o mundo biológico dentro de nós mesmos. Somos animais, sendo outras coisas além de animais, mas continuamos igualmente animais. Somos vertebrados, incontestavelmente, e sofremos bastante, pois nossas condições de vida nos fizeram abandonar as atividades físicas dos nossos ancestrais e temos muitas dores nas costas, no nervo ciático etc. É uma prova incontestável de que somos vertebrados. Somos mamíferos, não só por termos seios, mamas. Mesmo os homens têm pequenos mamilos e esse também é um dos traços da complexidade humana, já que os sexos são separados, mas estão um no outro, pois todo ser masculino tem todos os caracteres recessivos, ou seja, recalcados do feminino, e o feminino tem todas as características recessivas, recalcadas do masculino, e existe um jogo permanente entre um e outro. Temos em nós mesmos, portanto, o ser mamífero, pois é entre os mamíferos que se desenvolve verdadeiramente a afetividade, que é muito forte. Vocês sabem que as crianças mamíferas não nascem em ovos, nascem prematuramente e só podem se desenvolver se forem protegidas e alimentadas pela mãe. Existem relações afetivas intensas que se desenvolvem entre a mãe e as crianças recém-chegadas. Além disso, existem relações afetivas muito intensas entre as crianças de uma mesma ninhada. Os germes do que podemos chamar de amizade ou de amor que vão se desenvolver, são propriamente humanos. A afetividade se desenvolve nos mamíferos ao mesmo tempo em que a inteligência. É um paradoxo, pois pensamos que a afetividade nos torna cegos: muito amor ou ódio demais nos torna cegos em relação à outra pessoa. A característica afetiva, porém, se encontra até nos ratos, nos macacos etc., e a curiosidade, a necessidade de conhecer o mundo é uma aptidão de se ligar com o outro em relações afetivas. Aí, nós nos damos conta de que essa afetividade é sinal do desenvolvimento da inteligência e que essas duas características foram se desenvolvendo em conjunto. 

Somos antropoides, sabemos hoje que temos exatamente o mesmo patrimônio genético que os chimpanzés, nossos primos, e que desenvolvemos certo número de traços que já estavam revelados nos chimpanzés, mas eram raros e dispersos. Por exemplo, os chimpanzés são às vezes bípedes, mas usam os quatro membros. Os chimpanzés podem utilizar ferramentas para quebrar nozes ou pauzinhos para enfiar nos formigueiros, mas fazem isso de vez em quando. De qualquer forma, sabemos que existe uma complexidade de relações. As pesquisas de Cordork (?) provam que não existe incesto entre o filho adulto e a mãe chimpanzé. Achávamos que os animais podiam copular de maneira indistinta, mas podemos verificar que, quando há ligação afetiva entre a mãe e o filho, isso cria uma inibição para a parte sexual. Isso tudo vai se desenvolver com a humanidade. Nesse ponto, podemos falar de uma ciência que se desenvolveu bem, desde os anos 50 - 60, a da pré-história. Durante muito tempo, acreditou-se que nossa espécie, que chamamos de “Homo sapiens”, tenha surgido bruscamente, que o homem apareceu com a sua inteligência, com seu raciocínio, com sua capacidade de produzir ferramentas, operando uma ruptura total com o mundo animal. Era o dogma. Todos esses trabalhos e essas descobertas mostraram que houve uma evolução de alguns milhões de anos, uma evolução em primeiro lugar para o bipedismo e, depois, o desenvolvimento de toda uma série de traços durante um período que vamos chamar de hominização.

Vamos voltar ao ponto de partida. Há um problema fascinante aí, pois nos últimos anos, após as descobertas que foram feitas na Garganta do Homini Divae, na Tanzânia, chegou-se à ideia de que a hominização, ou seja, o bipedismo, a fabricação das ferramentas, o desenvolvimento da inteligência tenha ocorrido, de alguma forma, em zona seca de savana, enquanto do lado tropical de florestas só foram encontrados restos de macacos. Foram encontrados na zona seca os restos dos primeiros australopitecos e, notadamente, daquela australopiteca que foi chamada Lucy, uma hominídea. Daí vem a ideia, aparentemente racional, de que houve uma regressão da floresta, uma mudança climática. Isso foi verificado porque a floresta diminuiu e, nas zonas de fronteiras, grupos de jovens macacos antropoides foram obrigados a viver em condições novas, onde precisavam andar, correr, ficar de pé para poder escapar de predadores, desenvolver ferramentas para caçar, fabricar abrigos porque não havia mais árvores para se abrigarem. A aventura começava, portanto, com um desafio. É verdade que na história da vida, como na história humana, etapas decisivas vêm para responder a um desafio. É o que nós vamos ver amanhã ou depois de amanhã. Vamos ser capazes de responder aos desafios do próximo milênio? Os desafios estão aqui. A ideia é que estamos respondendo a um desafio. 

Mais tarde, a humanidade se dispersou e se adaptou em regiões frias, sobretudo quando houve mudanças climáticas glaciais, desenvolvendo técnicas para se cobrir com peles de animais para se proteger do frio etc. Era a capacidade de responder a desafios. Na origem, porém, houve desafio? Há alguns anos, foi descoberto no meio de uma floresta, em Chade, pelo professor Brunet, outro australopiteco, um bípede com as mesmas características daquele que foi descoberto em zona seca por Coppens e outros. Pois, então, se o bípede voltou para a floresta, pôde se desenvolver na floresta, cada vez mais algumas pessoas pensam, encontrando restos humanos, que nas florestas houve, há alguns anos, diversas ramificações que se formaram e se afastaram. Por quê? Se você é um quadrúpede, como o chimpanzé, pode subir nas árvores e se balançar, já que pode usar também a mão. Mas se é bípede e vai caminhar, você usa ainda melhor a mão. É o polegar oposto ao resto dos dedos que permite a apreensão muito mais forte e isso não impede que você suba em árvores. Muitos humanos sobem em árvores. É claro que você não pode se balançar como o Tarzan, mas, no fundo, o bipedismo oferece, mesmo no meio da floresta, certo número de vantagens. Assim, houve ramos bípedes que se desenvolveram no meio da floresta e isso claramente foi impelido adiante, uma vez que os humanos deixaram o seu berço que é a África Austral e conheceram climas diferentes. A hominização é uma aventura que reconstituímos por hipóteses, porque conhecemos um ponto de chegada das populações humanas arcaicas, que há um século ainda eram bastante numerosas no globo. E essas populações humanas arcaicas são sociedades bastante complexas. Talvez uma dupla etapa capital tenha sido o desenvolvimento das ferramentas e das comunicações entre humanos, não somente comunicações entre caçadores que precisavam dar informações uns aos outros, mas também comunicações afetivas, onde se tinha vontade de falar palavras gentis a seu parceiro, às suas crianças ou a seus amigos. Há um desenvolvimento das comunicações que faz com que esses humanos, que ainda não eram humanos, eram hominídeos, criassem rapidamente uma linguagem que consistia em exprimir certo número de sons, cada um querendo dizer uma coisa e acrescentando, é claro, a linguagem das mãos, dos gestos. Então, estabeleceu-se um sistema de som. Houve um impulso que provocou o aparecimento da nossa linguagem. Qual é a originalidade da nossa linguagem? É uma linguagem com dupla articulação. Quando eu falo com vocês, cada sílaba, cada fonema não tem um significado. O que tem significado é o conjunto dos fonemas que compõem palavras e frases. Com isso, temos capacidade de inventar palavras ad infinitum. Se você fala só um fonema – a, o, i ou u – é muito limitado. Se “u” quer dizer que tem uma caça e “a” quer dizer à esquerda, falavam “ua”, mas as comunicações eram muito limitadas. Para isso, foi preciso também o desenvolvimento da postura ereta, a liberação dessa cavidade que nos permite liberar as palavras. Essa cavidade hoje está meio ruim para mim, porque estou com dor de garganta, mas foi isso que permitiu o desenvolvimento da palavra e do canto. Nas sociedades mais arcaicas, muitas atividades também se fazem cantadas, trabalha-se cantando, vão caçar cantando. Em outras palavras, os primeiros hominídeos talvez tenham descoberto o canto das crianças e que eram capazes de fazer a mesma coisa. Às vezes, as crianças são as inventoras. Houve, pois, o aparecimento da linguagem e essa linguagem fez com que a comunicação pudesse se multiplicar e, assim, conservar o saber, em outras palavras, a cultura.

O que é a cultura? A cultura é tudo o que não é um conhecimento inato, tudo o que não é conhecimento que nós sabemos instintivamente. Nos ensinam um conhecimento que devemos aprender. Existe o saber fazer, como se fabrica a ferramenta, como caçar, como reconhecer uma planta comestível ou não, como construir uma casa etc. Temos esse formidável cabedal da cultura com a ajuda da linguagem, provavelmente, a partir de certa etapa do “Homo erectus”, que é um ancestral que existiu há 800 mil anos mais ou menos. Como o Neandertal, há 100 mil anos. São números hipotéticos. Esse “Homo erectus” domestica também o fogo. O controle do fogo é uma coisa muito importante, porque o fogo não somente permite grelhar ou assar a carne, mas permite uma digestão mais fácil. Vocês sabem que o leão, que come carnes cruas, passa horas e horas dormindo para poder digerir. O churrasco, portanto, torna a digestão mais fácil. À noite, o fogo protege contra os animais predadores e permite ter um sono muito mais tranquilo e profundo. O sono mais tranquilo e profundo permite a proliferação dos sonhos. De qualquer forma, viver em volta do fogo desenvolve as relações de convivência e a comunicação entre os humanos. Quando se coloca o fogo e a cultura, as etapas decisivas começam a se constituir. Logicamente, existem muitas incertezas porque não são as mesmas espécies. As espécies evoluem, as capacidades do crânio aumentam e a grande revolução se deu quando a capacidade craniana dobrou. Ela dobrou com o homem de Neandertal e pouco depois com o “Homo sapiens”. Há polêmicas para saber se o homem de Neandertal era um primo, um irmão ou ainda mais atrasado. De qualquer forma, ele tem uma capacidade cerebral maior do que a nossa, mas não tem o cérebro disposto da mesma forma. Ele tem a parte maior do cérebro na parte de trás, enquanto o “Homo sapiens”, notadamente o Homem de Cro-Magnon, tem a testa mais reta e o cérebro disposto mais à frente. Eles coexistiram, existiram na mesma época e não se sabe porque o Neandertal desapareceu. Não se sabe se o Neandertal foi exterminado pela nossa espécie, como os Maias, que desapareceram no México antigo. Não se sabe também se foram vítimas de uma epidemia que acabou não atingindo os humanos. Será que alguns deles se misturaram com os humanos? Não se sabe se houve interfecundação. Talvez isso seja possível, mas, de qualquer forma, eles também puderam desenvolver grandes capacidades. Houve uma época do paleolítico que se chamou Châtelperronian, o nome de um local na França onde se descobriram grutas, potes, todo um trabalho técnico e artístico feito pelo homem de Neandertal. Sabe-se que, em geral, os homens são muito orgulhosos de serem humanos, ainda que sejam meio racistas e dizem que imitaram os hominídeos. De qualquer forma, o que caracteriza a verdadeira revolução do Neandertal e do “Homo sapiens” não é a ferramenta. A ferramenta já estava desenvolvida há milhões de anos com o “Homo erectus” e vai se desenvolver cada vez mais com o “Homo sapiens”. Mas não fomos nós que criamos a ferramenta. Criamos a crença religiosa, a espiritualidade, a ideia de que a morte é alguma coisa, o que significa ao mesmo tempo dramaticidade para os vivos e uma possibilidade de viver uma nova vida após a morte. Os elefantes vão a cemitérios para morrer, mas não há ritos, não há crenças.

Quando o homem aparece, ele traz consigo a antropologia da morte. A morte é vivida como um choque porque a consciência humana permite que saibamos que iremos morrer. Isso é um choque fortíssimo, mas esse choque, oriundo de traumatismo, é compensado de duas maneiras diferentes. De um lado, por rituais e cerimônias nos funerais, que irão fazer com que a dor seja suavizada de alguma forma. Nós sabemos que a decomposição é horrorosa, porque é perigosa. Quando a gente enterra um morto, quando o cremamos ou quando as pessoas se retiram para morrer, como fazem os esquimós, evitamos a decomposição. O tempo de luto na concepção arcaica é um tabu que envolve a família. A negritude do período de luto é como se fosse uma marca que tem a ver com o tempo de decomposição do cadáver. Antigamente, o período de luto era maior, mas ainda hoje envolve uma crença. Essa crença tem um duplo aspecto. Primeiro, acreditamos no fantasma, no espírito, na alma, no espectro, no duplo etéreo. O que é essa crença? É uma experiência de vida, porque os seres humanos percebem que inicialmente têm uma sombra. Depois, quando olham para um lago calmo e veem a sua própria imagem refletida, têm a impressão de ser um, ainda que sejam dois. À noite sonham e, enquanto sonham, vão passear por outras paragens. No entanto, sabem que não saíram de sua cama. Assim, a ideia de que cada um tem o seu duplo está na origem da consciência do ser interior e essa consciência permite um desdobramento, que faz com que a pessoa possa ver a si mesma. Mas na origem, era apenas um espectro que não era material, físico e que não era corrompível. Então, a ideia é de que no momento da morte é preciso que haja a separação que libere o duplo para que ele fique em paz, enquanto o corpo se decompõe. Se o corpo não passar por um bom processo de decomposição, o duplo se tornará um vampiro perigoso. A ideia do duplo é de que o morto não está morto, mas teria uma vida próxima do corpo após a morte, segundo alguns mitos. Em outros, há a ideia do renascimento, porque rapidamente perceberam que o germe, que morre, brota de novo, sobretudo observando o reino vegetal. Pensam que o morto vai renascer como um feto, um bebezinho animal ou humano. Daí advém a crença em alguma coisa que está além, que não obedece às leis da natureza, que é transcendente. É essa coisa que irá se desenvolver nas grandes religiões. Essa é a grande diferença entre a espécie humana e seus ancestrais, que reside muito mais na crença, no mito, na fé, no espírito do que propriamente na fabricação de utensílios.

Há, também, uma coisa espantosa. Foi por acaso que as grutas de Lascaux foram descobertas por alguns pastores, grutas que datam da época de Cro-Magnon, há 25 mil anos. Também descobrimos em Altamira e na Caverna de Chauvet, na França, que data de 25 mil anos, como os animais da época, mamutes, antílopes e outros, são vistos com um realismo que nos encanta. Podemos dizer que isso é de um domínio estético, mas que é também mágico porque faziam ritos perante a caça. Ficamos bastante espantados com o poder criativo do espírito humano e algumas pessoas até pensam que são xamãs, concebem esses seres como xamãs, ou seja, pessoas distintas das demais e que têm um determinado poder de comunicação com o mundo dos espíritos e com as forças da natureza. No candomblé e na umbanda entram em transe xamânico e são capazes de fixar esses animais. Para criar um universo imaginário é preciso ter um poder espiritual muito forte, principalmente se não resgatamos tudo através das pinturas. Balzac ou Tolstoi tiraram de suas cabeças todo um universo de personagens, sociedades, coisas fantásticas. Como Einstein já dizia, só usamos 10% a 15% das possibilidades de nosso cérebro. Evidentemente, ele se referia às possibilidades intelectuais, mas eu também penso que somos subdesenvolvidos em relação a essa poderosa máquina de que somos dotados. Há outras possibilidades que alguns iogues ou sábios orientais conseguiram desenvolver em outro sentido. Há também algo enigmático em relação à questão da adaptação. Notamos na evolução animal que, geralmente, as espécies animais são dotadas de habilidades cerebrais, capacidade mental, inteligência e até certa estratégia superior àquilo que necessitam no dia a dia das suas vidas. Se não tivessem essa reserva de inteligência suplementar, não poderiam enfrentar os grandes desafios que porventura ocorram. O que é incrível é que desde o “Homo sapiens”, ou seja, há 50, 60 mil anos, o cérebro que nós temos é o mesmo. É o mesmo de Michelangelo, de Hitler, Leonardo Da Vinci, Beethoven, Stalin, de todos os gênios e de todos os criminosos. O cérebro já estava pronto. É evidente que foi pouco utilizado durante milhares e milhares de anos, mas nós temos essa possibilidade, absolutamente fantástica, que é esse cérebro.

É interessante também ver a questão da hominização - de Neandertal ao “Homo sapiens” - na relação entre a natureza e a cultura. Muitas pessoas levantaram a hipótese de que para que surgisse o grande cérebro do “Homo sapiens” foi preciso que houvesse condições predisponentes de um meio cultural. Quando o bebê demora muito a viver a fase de nascimento, a fase de aprendizagem, que se segue, também é longa. Haveria, então, uma espécie de berço cultural que faria com que surgisse o tal cérebro. Ou seja, a cultura teria permitido, de certa forma, que essa evolução genética se processasse. Tudo isso ainda é muito misterioso, mas nesse mistério há alguns elementos incontestáveis. Um deles é que continuamos sendo animais, mas vamos além. Além de apenas animais, temos cultura, consciência, espírito, pensamento. Estamos completamente enraizados nesse mundo físico, mas ao mesmo tempo vivemos fora dele, estamos desenraizados. Essa é a nossa situação. É preciso pensar nas duas coisas. Quem fala que somos apenas animais, com toda essa coisa de genética e instinto, acaba por esquecer aquilo que distingue os seres humanos. E outros dizem que nada do que é atributo do ser humano tem a ver com os animais. A humanidade, na verdade, tem essa natureza dupla. De certa forma, portanto, o cosmo está contido dentro de nós - as partículas, os átomos, as moléculas. Somos um microcosmo dessa totalidade, somos o espelho singular desse macrocosmo. E é aí que a imagem do holograma é maravilhosa. Quando a gente vê um holograma, cada ponto dele contém quase a totalidade da imagem representada. Em um holograma de automóvel, por exemplo, quase todo o carro pode ser visto de qualquer ponto. Se você o quebrar, tem quatro carros e depois vai aumentando o número de veículos. O holograma, então, reitera a tese de que o todo está na parte. Evidentemente, poderíamos dizer que o todo está na parte singular. Não somos meramente espelhos, uma imagem especular. Temos o nosso destino individual e, de certa forma, escapamos do mundo que nos concebe. Spencer Brown, que era um matemático, em seu livro “Um Fantasma Hipotético”, perguntava: “Suponhamos que o cosmo queira conhecer a si próprio, o que ele faria? ”. Ele teria que ter certo recolhimento, um distanciamento de si mesmo, porque ele também teria um problema de conhecimento fundamental. Para que o conhecimento seja possível, é preciso um distanciamento. Se quero conhecer a mim mesmo, minha consciência precisa retroceder ou se distanciar de mim. Se não, como vou ser observador de mim mesmo? Ao mesmo tempo, é preciso que, além da distância, façamos parte do mesmo mundo. Se existirem outros mundos de natureza totalmente diversa da nossa, como os iremos conhecer? Não poderemos. Talvez acabemos por adivinhar que eles existem ou sabemos que eles existem, mas só isso. Se quero ver o meu braço, é preciso distanciar o braço do corpo. No momento em que o braço estiver suficientemente distante, a cabeça, que é capaz de pensar, poderá então funcionar. Quando funcionar, há um momento de êxito e, ao mesmo tempo, um momento de fracasso, porque pode ver esse pedaço afastado do cosmo, mas aí o cosmo já não sabe mais por que se distanciou demasiadamente dele mesmo. Essa seria uma metáfora da nossa situação. Nós nascemos do cosmo, mas estamos distanciados dele e é graças a essa distância que poderemos conhecê-lo, uma vez que fomos capazes de ter conhecimento da astronomia e da ciência física, que precisam de muito desenvolvimento cultural, muita objetividade e distanciamento. Há, assim, essa questão fascinante que é a da nossa relação com o meio ambiente.

Para concluir, eu gostaria de levantar dois pontos interessantes de reflexão. O primeiro é que muitos filósofos já tematizaram sobre o fato de que o ser humano é dotado de raciocínio, paixão, espírito, mente e, não apenas isso, mas também de pulsões, os instintos brutais. Há um biólogo americano, Mac Lean, que formulou a questão dizendo que em nós estão contidos os restos do cérebro reptiliano – em que havia a questão do ataque e da fuga, que está impregnada no nosso sistema límbico –, que são remanescentes do cérebro de um mamífero. Quando o córtex cerebral se desenvolveu e o neocórtex, que é propriamente humano, os compartimentos lógicos racionais foram assentados. Com base nisso, vários pensadores, como Teosler (?) e outros, disseram que isso é um tanto quanto curioso porque determinada região do cérebro não controla a paixão e a paixão não controla a pulsão. Muitas vezes, o que acontece é que nossas paixões dominam nossa razão e os impulsos manipulam nossa razão para que desenvolvam instrumentos destruidores. Mas há a racionalidade. É o raciocínio que permitiu que a gente conseguisse soltar uma bomba em algum lugar. Essa racionalidade está a serviço daquilo que há de maior motricidade. Há uma espécie de trindade ou trilogia mortal marcada por essa relação incerta e rotativa entre a racionalidade, a paixão e os impulsos. Se a racionalidade controlasse tudo, não haveria criatividade no seio da humanidade. A curiosidade, o prazer da pesquisa é uma paixão. O amor, a amizade são campos fantásticos das nossas vidas. As relações com a arte, a necessidade de viver um mundo imaginário, tudo isso tem a sua importância. Temos a sorte e ao mesmo tempo a falta de sorte de possuirmos uma mente bem regulada e equilibrada entre a razão, a paixão e os impulsos. Eu diria que, se homo significa “Homo sapiens” é, também, um “Homo demens”, um homem demente. Haveria, portanto, dois polos e entre os dois há toda uma zona de criatividade ou de destruição humana que pode se manifestar.

O segundo ponto é que o ser humano não pode se definir unicamente como indivíduo. O ser humano é também parte de uma espécie, mesmo que a espécie esteja dentro dela mesma, e parte de uma sociedade, mesmo que a sociedade esteja dentro dele. O ser humano é definido também como uma trilogia. Em outras palavras, nós somos ao mesmo tempo da sociedade, da espécie e do interior de nós mesmos. Vamos voltar a isso amanhã. Isso quer dizer que não podemos ter uma ética unicamente para o indivíduo e não podemos ter uma ética que afaste o indivíduo. Somos ao mesmo tempo isso tudo. Esse é o nosso destino humano.

Finalmente, gostaria de acrescentar uma coisa importante. Existe um problema de complexidade que se coloca frente ao ser humano, pois estamos habituados a pensar a unicidade e a diversidade de maneira separada, oposta. Por exemplo, o que é a humanidade? Alguns dizem que a humanidade é una, existe uma identidade humana, uma identidade genética, uma identidade anatômica, uma identidade cerebral. Todos os seres humanos têm, fundamentalmente, as mesmas paixões. Belisfet (?) fez uma observação sobre uma jovem que era surda e muda de nascimento e era capaz de rir, sorrir e chorar. As emoções fundamentais estão em todas as culturas, ainda que em módulos diferentes. Isso é a unicidade humana. Existia um debate no século XVIII entre Voltaire e Ardel. Voltaire dizia que os chineses eram como nós, com as mesmas paixões, as mesmas emoções, as mesmas ambições etc. Ardel, o filósofo alemão, dizia que existiam diferenças de cultura para cultura. Isso é verdade, não somente no controle das paixões e das emoções, mas na maneira de compreender e de ver as coisas. Há dificuldade em compreender essa unicidade e essa multiplicidade. É a partir da unicidade humana que se pode desenvolver a multiplicidade humana, em primeiro lugar, e a multiplicidade das linguagens. Nós temos todos a mesma língua, somos gêmeos pela língua, a qual tem a mesma estrutura por dupla articulação, mas somos muito diferentes pelas linguagens, que são muito diferentes umas das outras. Temos estruturas fundamentais em cada cultura. Cada cultura tem o seu gosto pela música, por determinado ritmo, tem suas crenças, seus mitos etc. As músicas, os mitos e as crenças são muito diferentes. Os indivíduos são todos humanos, têm a mesma identidade humana, mas ao mesmo tempo são muito diferentes, mesmo no interior de uma mesma cultura. Então, ao mesmo tempo a unicidade e diversidade humanas vão ter consequências capitais, hoje, em nosso mundo globalizado. Por quê? Porque, evidentemente, é preciso respeitar a diversidade humana. Nós temos um duplo imperativo que pode parecer absolutamente contraditório. Eu acredito que é preciso pensar no um e no múltiplo ao mesmo tempo e com isso respeitar mais a realidade.

Uma última palavra sobre o indivíduo: nós somos um, é claro. Eu sou uma pessoa, sou um sujeito. Ser sujeito é ser capaz de dizer “eu”, ocupar um lugar que nenhuma outra pessoa pode ocupar. Mesmo tendo um irmão gêmeo univitelino, a pessoa não pode falar “eu” no lugar da outra pessoa, mesmo havendo uma grande cumplicidade entre as duas pessoas. Mesmo sendo singular na ocupação desse local egocêntrico de si mesmo, cada um leva nele mesmo uma multiplicidade de pessoas. Quando estamos bravos, apaixonados ou indiferentes, não somos o mesmo indivíduo, existe uma multiplicação de personalidades. Mesmo em fenômenos patológicos, podemos observar potencialidades que podem se expressar graças a circunstâncias históricas excepcionais. Por exemplo, em certas ocasiões de guerras e torturas, alguns temperamentos que gostam de torturar vão se revelar, senão essas pessoas nunca se tornariam torturadores. Existem potencialidades humanas e podemos dizer que cada indivíduo é um cosmo que tem uma multiplicidade de sonhos e fantasias. Todos são múltiplos, sendo um só. Uma das coisas fundamentais para conhecer a condição humana é ser cada vez mais vigilante na unidade e também na multiplicidade.

Vamos fazer uma pequena parada. Depois do almoço, vocês vão refletir em grupo e podem colocar todas as questões. Não existem questões proibidas. Vocês podem fazer todas as reflexões críticas, é claro. Se eu puder, vou responder às suas perguntas. No final da tarde, podemos concluir essa questão da condição humana. 

Bom apetite.
 
Debate com o prof. Edgar Morin
 
DANTE – Vamos então dar início às colocações dos grupos. Cada grupo coloca as perguntas e depois ele vai responder a tudo em um único enunciado, tentando ver, inclusive, se há similaridade entre as perguntas. Primeiro, fazemos uma rodada com todas as questões e depois ele vai organizar essas questões e nos responder de uma vez só.

PRIMEIRO GRUPO – Meu grupo foi formado por mim, Mariângela, Ciça, João Hadab, Evelyn e Maria Alice. Antes de qualquer coisa, professor, em nome do grupo, quero dizer que sua conferência foi extremamente brilhante e esclarecedora. Todos nós ficamos muito satisfeitos em tê-lo ouvido na parte da manhã e de agora ouvi-lo neste período da tarde. Temos algumas questões.

A primeira delas, talvez seja mais um comentário, mas se o senhor desejar, poderá abordar. O grupo levantou como primeiro aspecto interessante na sua fala a questão da ruptura com o pensamento racional. Aparentemente, ficou clara na sua fala a tentativa de deslocar seu pensamento da tradição do pensamento racional e, aliando à inteligência, a questão da afetividade. Ou seja, o conhecimento também está revestido de emoções, que o homem não é apenas racional, mas também um ser revestido de emoções. A gente achou isso bastante interessante na sua fala e foi motivo de comentário no grupo. 

Talvez uma questão propriamente dita para que o senhor pudesse abordar e responder, buscamos no texto “Meus Demônios”, que nos foi passado como subsídio para a palestra. Na página 46, finalizando um dos parágrafos, existe uma frase que diz o seguinte: “Tornar-se culto é uma aventura perigosa”. O grupo ficou intrigado com essa frase e gostaria que o senhor tentasse nos clarear um pouco o que o senhor quer dizer com isso.

Uma segunda questão diz respeito ao seguinte: o que será que faz com que as pessoas assumam posições destrutivas? 

Outra questão, um pouco como uma receita que estaríamos buscando do senhor, seria a respeito de como funciona a elaboração da consciência do todo.

Por último, talvez mais uma receita: como tornar sua fala uma ação política? Nós gostaríamos que o senhor clareasse um pouco a proposta de como ter uma ação que possa ser concreta no sentido de salvar a diversidade humana, respeitando-se a individualidade frente à globalização. Onde a sua teoria pode se concretizar em uma ação política, em uma ação na sociedade? Foi basicamente isso que o grupo levantou.

SEGUNDO GRUPO – O nosso grupo, formado por mim, Villas, Mara, Ivan, Francisco, Oswaldo, Marcos e Celina, tem duas questões. No texto que a gente leu, que foi “O Método”, parece-nos que o senhor faz duas relações, uma entre cérebro e corpo e outra entre espírito e cultura. A impressão que nos deu é que a relação seria: o cérebro está para o corpo assim como o espírito está para a cultura. De certa forma, nos pareceu haver também certa oposição entre esses dois níveis, cérebro e espírito. Então, gostaríamos que o senhor esclarecesse para nós essa correlação, se é que há relação, oposição ou complementação, entre cérebro e espírito. Resumindo, o que seria esse espírito?

Na segunda questão, o senhor cita outro autor, na página 36: “A aparência da verdade absoluta nada mais é do que o resultado de um conformismo absoluto”. Eu perguntaria a partir dessa frase: o que é a verdade, então? Qual a relação entre conhecimento e verdade?

TERCEIRO GRUPO – O nosso grupo comentou uma curiosidade com relação ao texto que nos foi entregue, “A História de Formação do Professor”. Um fato que nos chamou a atenção, o que diz respeito à não existência de comentários de uma vida ligada, seja na infância ou na juventude, às atividades esportivas, mas enfatizando a literatura, o cinema, a política, a militância. Em nossa discussão, o esporte e o jogo talvez sejam um dos instrumentos mais poderosos para se desenvolver o conceito de ética; a ética do compromisso do grupo com um resultado que, mutuamente, as pessoas compartilham; a ética da responsabilidade dentro de normas e princípios; a ética da discussão, da individualidade e do coletivo. Essa experiência de vida não foi colocada. Daí uma curiosidade que ficou para o grupo é, primeiro, em relação à militância esportiva do professor e, segundo, como o senhor vê não o esporte no sentido como está colocado hoje na sociedade, mercadológico, como um produto de consumo, mas mais aquela atividade como expressão 

Outra questão. No texto utilizado como referência, “O Método”, o professor coloca uma parte em que o grupo fez uma certa analogia com um livro de Foucault, “A Microfísica do Poder”, quando coloca que o próprio sistema cria determinadas possibilidades de desrazão ou de não-regra como aberturas, mas que servem justamente para o poder continuar se mantendo. É quando fala: “Desde então, o imprint impede de ver diretamente o que mostra. Mesmo quando se atenua a força do tabu que proíbe, como nefasta e perversa, toda ideia não conforme, o imprint cultural determina a escolha seletiva, que nos faz desconsiderar tudo aquilo que não concorde com nossas crenças”. Gostaríamos que, se fosse possível, o professor pudesse aprofundar um pouco mais essa abordagem. Foram essas as duas observações.

QUARTO GRUPO – O que nós estivemos discutindo, baseado um pouco no texto e também no que ouvimos pela manhã, é que entendemos que, no conceito e nesse discurso de desenvolvimento e de convivência social, todas as manifestações, de alguma maneira, são válidas. Tudo tem, na verdade, uma razão de ser nesse contexto de sociedade contemporânea. Dessa maneira, gostaríamos que o professor Morin falasse de como ele vê as manifestações de violência explícita existentes nessa sociedade. Manifestações que, de certa forma, estão sempre nessa dualidade da morte e vida, ou seja, são manifestações que levam muitas vezes à morte para que se renove a vida. Seria nesse sentido? E essa violência explícita poderia ser exemplificada como a violência própria de um contra o outro, a violência diante de guerras e até mesmo a violência em relação ao patrimônio? Enfim, como esse tipo de manifestação poderia ser contextualizado, contribuindo para a sociedade contemporânea?

QUINTO GRUPO – Professor Morin, durante a leitura do texto, nós identificamos vários aspectos da teoria marxista no seu pensamento. Nós gostaríamos de saber se o professor concorda com essa observação ou se acredita que o marxismo é apenas uma referência teórica.

No livro “O Mundo Assombrado pelos Demônios”, o astrônomo Carl Sagan afirma que há nesse final de milênio um aumento expressivo de crendices, de superstições e, principalmente, um desenvolvimento notável de pseudociências ou de verdades pseudocientíficas. Ele se mostra preocupado com isso e fala de um possível retorno à idade das trevas. Professor, nós gostaríamos de saber, em primeiro lugar, se há esse incremento mesmo nesse final de século. Nós tivemos recentemente um apocalipse. Desculpe, um eclipse (Freud explica), que muitas pessoas sinceramente acreditavam que talvez fosse o último eclipse do planeta. Na verdade, os astrônomos relatam que eclipses ocorrem várias vezes ao ano. Então, gostaríamos de saber se o senhor compartilha dessa ideia, um tanto assustadora e pessimista, de uma volta às trevas, pelo menos para as próximas décadas ou se é um fenômeno passageiro, uma falsa impressão de Carl Sagan.

SEXTO GRUPO – Professor, nossa questão é parecida com a do grupo anterior. Com o aumento de seitas religiosas, das mais diversas às mais tradicionais, no caso das religiões com paradigmas e verdades tão definitivas sobre a origem e o destino do ser humano, fechadas e impondo uma ordem social rígida, principalmente quando se alinham com o poder político coercitivo. Onde fica, nesse caso, a autonomia de um pensamento pessoal e a atualização do conhecimento, o trânsito do conhecimento?

SÉTIMO GRUPO – Boa tarde, professor. O nosso grupo é composto pelo Sérgio Pinto, Zacarias, Ferron, Lauro, Rui e eu. São duas questões. Uma deriva um pouco da questão que foi feita agora a respeito do criacionismo. Ontem, nós vimos na televisão que dois estados americanos proibiram qualquer citação a Darwin ou à teoria do Big-Bang em todas as escolas fundamentais. Foi uma lei que passou nas assembleias legislativas, no Senado desses estados e foi sancionada pelos governadores. Tudo fica explicado pelo Gênesis ou a criação do mundo por Deus e pelo que está no livro do Gênesis, na Bíblia.

A segunda se dá pela leitura da bibliografia que recebemos. Grande parte ou quase a totalidade do referencial é de autores russos, que não são propriamente ocidentais. Como é que fica essa hegemonia da cultura ocidental sobre as demais culturas? Como é tratado o restante das culturas que existem no mundo, principalmente a cultura oriental, que é vista no Ocidente normalmente como uma cultura exótica, como algo que serve para algumas panaceias e não é encarada seriamente ou de maneira a desenvolver melhor essa relação Oriente-Ocidente?

 
Edgar Morin

 As perguntas são profundas e numerosas e poderiam servir como alimento para diversas discussões noite adentro, até o ano 2001. Como Scherezade, nos contos das Mil e Uma Noites, eu não poderia passar a noite inteira enaltecendo vossos espíritos, mas vou fazer uma tentativa de responder às suas perguntas. Antes de responder diretamente, já que a primeira é muito importante e fala do pensamento racional, eu gostaria de fazer um pequeno esquema de natureza antropológica sobre a condição humana.

 
Eu disse, hoje de manhã, que o homem é um “Homo sapiens” racional e também o homem louco, em latim “Homo demens”, que se comunica de uma maneira muito estranha. Eu diria também que ele é “faber”. Vocês sabem o que é o “Homo faber”? É quando definimos o homem, porque ele produz ferramentas, “faber”, de técnica. Mas quando falamos em técnica, esquecemos que há outro aspecto que é o “Homo ridens”. Um antropólogo de origem holandesa escreveu um livro no qual falou que “ridens” é o jogo. Já vamos chegar ao esporte, mas se trata de tudo que é relacionado ao prazer em um jogo, coisas gratuitas na vida e, efetivamente, as atividades humanas que existiram em todas as sociedades e todas as civilizações, os jogos, as corridas. No antigo Império de Bizâncio, em Constantinopla, as corridas de cavalo eram muito importantes. Então, isso também deve ser colocado. Há também um jogo recíproco quando, por exemplo, se sonha e a gente tem vontade de voar como um pássaro. Um sonho mitológico, Pégaso, durante séculos esteve aí. Até que finalmente, quando os aviões foram construídos, a técnica sobreveio. Os “Homo economicus”, os economistas, querem definir o homem como alguém que vive no campo da economia. E nós nos esquecemos de outro aspecto que poderia ser o “Homo misticus”, místico, aquele que dirige seu olhar para outro aspecto da vida além da economia. Há civilizações em que os humanos consagraram muito mais esforços de trabalho para construir e erigir as suas sepulturas do que para construir impérios durante a vida. Podemos dizer que o homem “empiricus”, aquele que vive no nível das realidades empíricas, significa justamente homens que promovem atividades racionais de cunho empírico. É evidente que, se não fôssemos empíricos, não poderíamos criar ferramentas, caçar e assim por diante. Mas o homem empírico é também o homem imaginário. Uma parte da vida dele está relacionada com o mundo fantasmagórico ou com os mitos. O imaginário muitas vezes esteve relegado como algo secundário, como uma superestrutura quando se fala em pensamento marxista. Eu estou totalmente convencido de que o mundo imaginário é uma parte fundamental da realidade humana.

Há também a humanidade, que pode ser considerada como a do homem prosaico, alguém que está vinculado a tarefas imediatas, práticas, à sobrevivência do dia a dia. Por outro lado, há a poética. Qual é a diferença? A poesia e a prosa não são apenas poemas e escritos que lemos. São características da vida. O caráter prosaico da vida se manifesta em todas as atividades necessárias à sobrevivência, ao sustento. Às vezes temos a sorte de fazer um trabalho que gostamos. Aí ele tem uma dimensão de poético, a gente se inflama, ficamos apaixonados pelo que fazemos. É o que nos inspira uma noção de júbilo, fervor, amor, paixão, entrega. Então, o que é prosaico é necessário à sobrevivência. Mas sobreviver não é viver, é preciso sobreviver para viver e não viver para sobreviver. Essa é a tragédia atual do mundo. Talvez, a maior parte da humanidade apenas viva para sobreviver. Mas é inevitável que precisemos de uma sobrevivência para uma expansão na vida. Quando Hölderlin, poeta alemão, dizia poeticamente “o homem habita a Terra”, eu posso dizer que o homem habita a Terra poética e prosaicamente.

Se definirmos o ser humano apenas pela coluna da esquerda, que inclui todos esses fatores mencionados, a visão resultante é extremamente limitada. O que eu digo não está em ruptura com o pensamento racional, mas com uma racionalidade fechada, obtusa, que rejeita e ignora o que lhe escapa. A racionalidade aberta é uma racionalidade capaz de entender seus próprios limites. É uma racionalidade capaz de criticar a si própria. Por exemplo, falávamos do Ocidente e do Oriente. Eu vou voltar a esse tema, mas durante muito tempo, quando vemos os grandes pensadores, antropólogos e filósofos que o Ocidente gerou, para tais pessoas o Ocidente era o proprietário, detentor da racionalidade, da verdade e do progresso. Pensavam que as demais civilizações eram antigas, as tais primitivas, civilizações infantis, místicas. David Hume, antropólogo, definia os primitivos como homens místicos vivendo em um campo mágico da vida. Já Einstein dizia: se eles vivem somente no mundo mágico, como são capazes de produzir armas, flechas para caçar e tudo o mais? É porque em qualquer civilização há, simultaneamente, um pensamento empírico racional, técnico, assim como há um campo da mitologia e do mundo da magia e até mesmo religioso. Há relações diferentes entre umas e outras. O que tento demonstrar em alguns dos meus livros é que a fé na ciência não era propriamente científica. Era um mito, porque acreditávamos que a ciência só traria bem-estar, sendo que hoje de manhã pude dizer que ela proporcionou grandes progressos, mas também há nela um elemento destruidor. Havia uma fé no progresso, que era uma ideia também irracional, ainda que fosse concebida como racional. Não se trata de pensar, portanto, que somos racionais por ser apenas racionais. A racionalidade não é uma ruptura. Ela é indispensável a todas as atividades humanas, mas não está isolada. Tentem, por exemplo, entender o que significaria uma vida totalmente racional, no sentido fechado do termo racional, vivendo somente de economia, não gastar muito, nada de luxo ou coisas inúteis, cuidar bem da saúde, não beber muito vinho, nada de caipirinha, nada de excessos, muito cuidado, zelo com tudo. É um pensamento econômico que faz economias. Essa vida totalmente racional acaba sendo uma vida louca, porque nos esquecemos de viver. O que é a racionalidade ou a sabedoria? É sempre um jogo, um intercâmbio dos pesos da balança, entre racionalidade e paixão, racionalidade e emoção. É por isso que em meu livro chamado “Amor, Poesia e Sabedoria”, digo que o amor é o acúmulo da união entre a maior das sabedorias e a maior das loucuras. Com efeito, o amor pode nos tornar extremamente lúcidos, assim como totalmente cegos. Mesmo na paixão é preciso manter um espaço para a racionalidade. Mas também não podemos dizer à paixão que ela está completamente fora da nossa vida. É aí que chegaremos quando falarmos da ética, que é uma aventura difícil, não apenas perigosa, mas que também dificulta a vida no plano ético, no sentido da realização do seu ser interior.

Quando falava das massas ou da loucura humana, no limite da folia está a genialidade. Muitos dos grandes escritores e poetas viveram sempre no limite, como Nietzsche e Hölderlin, que foram talvez os maiores espíritos ou almas que viveram no século passado. Se a gente está totalmente na loucura, no delírio, na incoerência e esquecemo-nos da realidade, esquecemos de navegar e de conduzir corretamente o barco. Nessa loucura humana há, então, um risco de destruição, onde os massacres e as torturas são produzidos. Um de vocês falou de uma atitude destruidora e alguém citou a violência também. Vocês sabem, pois, que há problemas potenciais, condições dantescas de destruição de si mesmo e do próximo, assim como há também imensas possibilidades criativas.

Assim, seria bom refletir um pouco sobre o porquê de haver tanta violência no mundo, hoje em dia. Em primeiro lugar, há um aspecto que é de cunho sociológico. Se considerarmos as sociedades de animais, de lobos, macacos, há muitas vezes relações de agressividade entre os machos em relação ao domínio, para que sejam os primeiros a abocanhar o alimento ou também as fêmeas. Mas essa agressividade é resolvida por ritos de pacificação. Raramente eles cometem assassinato. Quando dois rivais brigam, em determinado momento um intimida o outro de maneira mais contundente e o outro aceita e se resigna ao rito de submissão. O cachorro ou o lobo, por exemplo, estica o pescoço como se dissesse: “Tudo bem, se você quiser me morder, eu aceito, você é o mestre”. A agressividade, que vem do mundo de competição no reino animal, tem ritos de regulação internos no seio da própria sociedade deles, que estão presentes no cérebro deles. Os lobos seguem de maneira inata esses ritos. Mas a sociedade humana, em que há uma regressão daquilo que é inato do ponto de vista instintivo, a regulação é confiada à sociedade. Nas sociedades antigas, arcaicas, de poucos indivíduos - às vezes apenas centenas ou alguns milhares - praticamente não havia assassinatos. Há uma espécie de pacificação que é oriunda do fato de que cada qual interiorizou tão profundamente a lei da vida em sociedade, que não ousa ofendê-la. Um estudo de Marcel Moss diz que a pena para alguém que infringe um tabu era a morte, mas morria por si mesmo, por estar tão convencido daquilo que lhe foi ensinado. Então, é uma espécie de regulação em que não há classes sociais, não há distinções entre raças, não existem aglomerações populacionais imensas. É claro que há pequenas guerras entre essas sociedades e guerras de certa forma ritualizadas, principalmente porque cada uma conseguiu prover as suas necessidades. Com o aparecimento das cidades maiores, com o Império, a escravatura, o Estado, as classes sociais, os burgos, a agricultura, tudo isso transformou as relações de maneira incrível. Quando há guerra civil, que provoca roubos e furtos, cada um, que interiorizou a regra social, esquece tudo isso. As pessoas simplesmente obedecem porque são obrigadas ou, como no caso dos escravos, por medo, e não porque em nós mesmos tenhamos incorporado a ideia de que somos parte de uma sociedade, tanto quanto a sociedade faz parte de nós mesmos. É por isso que nas sociedades contemporâneas sempre houve uma zona na qual há camadas muito baixas, que são os delinquentes, pessoas que não reconhecem a lei da sociedade como legítima para elas mesmas.

No nosso século, principalmente, surgiram novas maneiras de ruptura ou novas formas de violência. Nas periferias, nas favelas, há uma marginalização da sociedade, uma desintegração do tecido social da família, crianças cujo pai é desconhecido e desintegração das relações entre vizinhos. Nesse contexto, toma forma um novo fenômeno de reintegração, que se processa mais junto à juventude e que é análogo às sociedades mais primitivas. Nas nossas sociedades modernas, os jovens, quando formam grupos ou gangues, estão sempre se divertindo em festas e às vezes até com excesso de violência. Antigamente, eram coisas ocasionais. Quando o tecido da sociedade se desintegra, cria-se uma nova sociedade menos grupal, baseada no território, existindo uma sacralização do território. É sabido que, em cidades como Nova York, Chicago e talvez em grandes cidades do Brasil, há bandos que disputam e até se matam uns aos outros, quando há invasão do terreno de cada um. Há um código de honra e é a via primitiva da mendicância. Não é a justiça que deverá solucionar o problema, é cada um por si. Alguém do clã irá punir alguém do outro clã que cometeu o crime e há também a vingança, criando-se uma sociedade que tem a sua própria lei e ignorando as condições da sociedade contemporânea. Hoje em dia, até o modo econômico de vida desses grupos é desenvolvido de outra maneira, pela delinquência, roubos e droga. O traficante tem dinheiro e há até famílias inteiras envolvidas. Isso é um sintoma da desintegração do tecido social e que provoca atitudes destrutivas. Evidentemente, é um problema difícil de resolver. Como poderia ser solucionado? Com uma reforma não somente da estrutura da cidade, mas da sociedade inteira. Qual seria a ação política? Talvez, no último dia eu fale um pouco mais sobre isso. Estamos apenas começando. Toda ação começa com um pequeno grupo que traz uma nova ideia salutar. Se as circunstâncias forem favoráveis, essa ideia cresce, difunde-se, torna-se uma tendência e depois uma força política. Atualmente, infelizmente, não chegamos ainda a esse ponto.

Como ainda estamos considerando a racionalidade, também foram mencionadas as seitas, superstições, credulidade e todos os perigos pertinentes. Parece-me que, efetivamente, há um problema se, por exemplo, considerarmos algumas superstições como o mapa astral ou a de Paco Rabane que disse que o eclipse viria junto com a queda do satélite. Interpretar uma profecia de Nostradamus como sendo o fim dos tempos é uma coisa tão grotesca, que não traz qualquer perigo para a sociedade. É uma crença estúpida, uma superstição pueril que não é perigosa. De onde vem tudo isso? Primeiramente, é preciso saber que considero que há, também, seitas religiosas. Vocês sabem que qualquer grande religião, tanto o cristianismo como o islamismo, nos primórdios, eram seitas? Algumas têm doutrinas e membros que manipulam os cérebros, fazem certa lavagem cerebral para gerar uma obediência incondicional. Eu vi isso acontecer em relação aos trotskistas e maoístas, no passado. Isso não é uma novidade. No entanto, o fenômeno importante é que, efetivamente, nós sentimos que há uma insuficiência da ciência e até mesmo da medicina tradicional. Houve imensos progressos no campo da medicina alopática, mas ela ficou tão especializada que tem efeitos contrários. Quando se trata de um órgão isoladamente, nem sempre o resultado é bom com doses maciças de medicamentos. Própolis com gengibre e mel é um medicamento mais natural, não é uma droga. Então, me parece que vivemos num mundo completamente pasmo, psicologicamente dizendo. A gente queria uma solução e, de repente, percebemos que a solução não é evidente, não está clara. As mentes estão perdidas. A gente esquece que, neste século, o stalinismo e o nazismo estiveram presentes, quando crenças dementes permitiram o massacre de milhões de pessoas, mas todo mundo dizia que se vivia no século da racionalidade. Será que a racionalidade regrediu, porque não somos mais stalinistas, maoístas ou nazistas? Penso que vivemos numa época estranha. Eu diria que a verdadeira racionalidade consiste em lutar em duas frentes: por um lado, contra a insuficiência da racionalidade e, por outro, contra as ilusões, as superstições de todo tipo.

Alguém mencionou, também, dois estados norte-americanos impondo o criacionismo. Ainda não é uma catástrofe total, porque afinal o desenvolvimento da teoria de evolução está repercutindo muito nos Estados Unidos. Um dos maiores sábios nesse campo, Stephen Hawking, é americano e propôs modificações que não eram criacionistas como uma evolução da teoria de Darwin. O papa, ele próprio, voltou a condenar a ciência, o que era um dogma da Igreja, não apenas em relação a Galileu, por exemplo, mas à própria teoria da evolução. Há muitos cristãos que interpretam a Bíblia do ponto de vista simbólico e não necessariamente como fatos que aconteceram. São símbolos. Nesse campo, eu penso que é preciso sempre estar muito atento porque nada impede que novas ilusões invadam a nossa mente. Não estamos isentos de sofrer novas ameaças, porque não estamos imunizados contra o perigo do erro e da ilusão. É por isso que no início da minha palestra, hoje de manhã, eu lhes dizia que é muito importante a educação. Os erros da religião estão relacionados com uma falta de conhecimento, que é fundamental.

Quanto à questão do Oriente e do Ocidente, vocês só leram fragmentos do que escrevi e não puderam ver a totalidade da minha concepção. E é claro que, esboçando uma teoria, também posso incorrer em erros, mas me parece que a racionalidade no Ocidente tem que ser crítica e autocrítica. Ela tem que ter limites. É preciso saber que há sabedoria e pensamentos que vêm de outra região. Não sei se vocês tiveram sorte ou azar comigo, porque eu sou um fã da cultura russa. Os maiores escritores para mim são Tolstoi, Tchekhov, Dostoiévski e também Basilic Hosman (?) eSoljenítsin. A Rússia é um dos países que tem as coisas mais lindas na literatura e na poesia. Pushkin é um dos maiores poetas da História. A religião ortodoxa também tem formas dogmáticas, no entanto apresenta também profunda espiritualidade. Por exemplo, entre os três termos da Trindade, o principal é o Espírito Santo. Na religião ortodoxa, também há outros elementos de grande beleza que se manifestam na liturgia, através da música esplendorosa e corais religiosos muito belos. Eu, pessoalmente, me alimento não apenas da cultura russa, mas também da literatura advinda de pequenos países da Europa, mas não nos orientalizamos o suficiente, por assim dizer. É preciso refletir. Foi apenas no século XIX, principalmente na Alemanha, que começam a ser introduzidos os Upanishads hindus ou o Tao-Te-Ching e apenas para poucos eruditos universitários, até que, lentamente, outras camadas da população começam a conhecer e a penetrar em outros planos. Peter Brooks filmou o Mahabharata, poema épico hindu. É fantástico. Mas eu sustento o que digo: é preciso continuar nossa integração, não apenas com o Oriente, mas com tantas civilizações menores que geraram concepções riquíssimas da vida, enormes fontes de sabedoria, que precisamos conhecer. Há populações que estão até em vias de desaparecimento por destruição, como comunidades indígenas na Amazônia. Há testemunhos de etnólogos que foram viver na Amazônia com essas tribos, como Clasters, que é francês, e também, evidentemente, Claude Lévi-Strauss. 

Eu dizia também que a aventura da cultura é uma aventura muito arriscada, porque há muito saber disperso. Como acumular tanto saber em nossa mente? É preciso que tenhamos pilares e saber qual é a intuição a seguir, além de ter a consciência de duas portas que não se comunicam: de um lado, a cultura científica e, do outro, a cultura humanista tradicional, que nos traz a habilidade de refletir sobre a História, principalmente no Ocidente, com Montaigne, Pascal, Diderot, Voltaire, só para citar alguns franceses. Ser uma pessoa refinada ou ter uma boa educação, portanto, é uma dificuldade porque nos torna homens armados. Para desenvolver uma atitude sobre como tratar problemas particulares específicos é preciso desenvolver a inteligência como um todo, considerando o espírito humano como um problema genérico. O cérebro é uma máquina para resolver esses problemas genéricos. Quanto mais formos capazes de resolver os problemas genéricos, vamos também ser capazes de resolver os problemas particulares. Na França, cada vez mais, os líderes de empresas são formados não apenas em escolas técnicas especializadas, mas são pessoas que têm uma formação de cultura literária e filosófica, porque a literatura e a filosofia ensinam a fazer ginástica mental.

Já que estamos fazendo uma ginástica mental, vamos então falar do esporte. É verdade que, infelizmente, eu não pratiquei muitos esportes. Eu gostava de jogar “pelota basket”. É uma bola que a gente joga com a palma da mão, uma espécie de tênis rudimentar. Eu gostava disso e também jogava futebol, um futebol meio deplorável, na hora do recreio da escola. Mas depois eu abandonei essas atividades esportivas. É uma pena para mim, porque adoro jogos. Os jogos de competição são jogos que nos permitem liberar a nossa agressividade sem maldade, se respeitarmos, evidentemente, as regras do jogo. Ninguém vai matar o outro, é uma emulação sublimada. Há uma ética do esporte. Quem mencionou o esporte disse que, hoje em dia, há uma corrupção tremenda, o dinheiro, o profissionalismo, os engodos e tudo o mais. Isso é uma deformação. O esporte está incluído no lúdico, mas também na poesia. Por exemplo, grandes jogos de futebol são momentos de poesia. Eu, na verdade, acabo assistindo no estádio ou pela televisão. Quando assisti a Copa de Mundo, em Paris, senti tanta emoção que quase morri de tanto torcer. O suspense do jogo da França contra a Itália foi demais. Mas sei que o esporte é uma das lacunas na minha vida. Se pudermos renascer em outra vida, tentarei renascer como um esportista, um campeão. Em todo caso, eu segui a minha inclinação na vida. Cada um tem um caminho.

Agora, vou ter que acelerar mesmo. Não sei se está em um dos textos que lhes passei sobre as condições do desenvolvimento das ideias, mas o que nos impede de ver o que é evidente é a imposição de uma ideia, de um dogma, de uma concepção sobre a vida. É evidente que o sol nasce a leste e se põe a oeste, mas não é evidente que é a terra que gira em torno do sol. Foram necessárias muitas pesquisas para chegar a essa concepção. Muitas vezes, são os nossos próprios olhos ou os nossos hábitos que nos impedem de ver. Eu me lembro de uma piada. Quando havia colônias da Inglaterra na África, a Colonial Filmenique (?) passava filmes para os habitantes africanos e um dos filmes mostrava uma cidade, para mostrar o que era uma cidade. Aí perguntaram para eles do que gostaram mais do filme e responderam que tinha sido da galinha. Mas não tinha nenhuma galinha no filme e eles insistiam que tinha. Passaram de novo o filme e perceberam que num cantinho da tela tinha um franguinho. Era a única coisa viva. Eles viram o frango e não as casas. São milhares de coisas que nos impedem de ver a verdade, mas principalmente os dogmas.

Quanto ao marxismo, haveria muito o que dizer. Eu fui marxista, as ideias de Marx me influenciaram muito, mas sempre fui um marxista mais aberto, pois podia combinar o marxismo com outras contribuições que encontrei em Freud, na psicologia e na filosofia. O marxismo, para mim, não era uma ciência integral, cabal, mas há ideias de Marx que são muito importantes para mim. Por exemplo, ele dizia que as ciências da natureza abraçarão as ciências humanas e as humanas abraçarão as ciências naturais ou da natureza. É isso que eu tratava de dizer quando falava da condição humana. As ciências da natureza, a biologia, a cosmologia etc., permitem abraçar o homem, mas o homem, com seu conhecimento, também é capaz de ser receptivo. É um abraço mútuo e não reducionista. É claro que Marx não falava nada da vida interior, ele tem lacunas enormes. Para ele, as crenças eram fenômenos totalmente secundários, uma superestrutura dispensável. Ele só se importava com a luta de classes. Mas ele se esquecia de que, nas nações, havia uma força de coesão. A opressão partia basicamente do capitalismo e ele não via que o Estado era, ele próprio, um elemento capaz de gerar muita opressão. Então, há muitos nós cegos nos ensinamentos de Marx, assim como coisas muito profundas. Muito do que se fala sobre o fetiche que foi feito da mercantilização ou o que o capitalismo causa ao mercado não é apenas um objeto para o sujeito. Esse copo d’água é um elemento de consumo para um ser humano, mas produz também um sujeito para o objeto, nos influencia para que a gente compre aquilo que o mercado oferece. Marx também via pontos positivos no capitalismo, mas dizia que o capitalismo destruía as relações interpessoais, que o dinheiro acabava subjugando essas relações. Essa tendência se desenvolveu muito, mas não apenas por causa do capitalismo e, sim, por uma burocratização generalizada. Em outras palavras, nós podemos continuar a nos alimentar de Marx, mas Marx não é a única fonte. Eu diria que a minha mente é uma constelação de grandes pensadores: Pascal, Rousseau, Hegel, Marx, Adorno e outros. Marx sozinho é insuficiente.

Um dos pontos, que acho que talvez tenha sido mal-entendido, é a relação entre o cérebro, o espírito e a cultura. Talvez eu não tenha me expressado bem e o texto, que vocês leram, careça de explicações mais completas. O cérebro humano é um órgão, faz parte do organismo. Com a evolução, começamos a estudar o cérebro. Então, a cultura e o espírito aparecem no sentido próprio da palavra, o que faz com que os três sejam inseparáveis para a humanidade. Os materialistas desenham o cérebro e para eles o espírito é só um epifenômeno. Veem o cérebro, mas não veem o espírito. Eu vejo o espírito como algo que emerge como uma possibilidade a partir do desenvolvimento humano da cultura. É uma linguagem, um pensamento de uma trindade absoluta e inseparável. O espírito concebe o cérebro. O espírito é uma emergência do cérebro, é o fruto mais suculento, a flor mais bonita. Não é uma superestrutura, é o que tem de mais rico, de melhor nessa produção. Esse é o pensamento fundamental. Para a humanidade não há como separar esses três. Se reduzirmos tudo ao cérebro, vamos perder a dimensão humana, mas, se subtrairmos o cérebro, há também uma mutilação. Então, esses três elementos estão totalmente interligados e são indissociáveis.

O último ponto é quando se fala em verdade. A verdade é a questão da humanidade. Eu diria que há verdades que de fato são fáceis de serem definidas. Isto é um copo, tem água dentro, esta coisa é uma xícara, nela bebi chá de boldo, isto é um microfone. Todos concordarão. Por outro lado, há verdades que são difíceis de definir. Quem declarou guerra entre a Coréia do Sul e a Coréia do Norte? Um acusa o outro. Depois de um certo tempo, conseguimos entender que foi a Coréia do Norte. Também era difícil saber o que acontecia na China de Mao: a propaganda dizia que havia um entusiasmo maravilhoso, mas ninguém falava dos milhões de mortos e dos campos de concentração. Há fatos, portanto, nos quais a verdade não é aparente. Mas há também um problema de fundo: para onde estamos indo? O que é essa incerteza e, afinal, o que é o conhecimento? O conhecimento é um navegar em um oceano incerto através de ilhas e arquipélagos de certeza. Se estivéssemos mergulhados na incerteza total, nada poderíamos dizer. Mas se tivéssemos certeza absoluta saberíamos o que vai acontecer no futuro. Então, nem um nem outro são totalmente verdadeiros. Poderia dizer que nem o conhecimento é totalmente verdadeiro. Tem uma frase maravilhosa de Pascal que diz que o campo do conhecimento, ao se expandir, cresce e encontra a fronteira com a ignorância, com o não-saber. Quanto mais sei, sei que nada sei. Há também um poema muito bonito de Saint Jean de la Croix que diz que quanto mais os sábios sabem, menos sabem. Não significa que não vale a pena buscar saber. É uma aventura maravilhosa, porque o conhecimento toca no grande mistério do espírito humano. Alguns talvez serão iluminados. Eu penso que os mistérios mais fundamentais não são totalmente esclarecidos. Em que baseio essa minha opinião? No fato de que me parece que a mente humana se formou, antes de mais nada, para responder a necessidades práticas. As células, a partir das quais o cérebro humano foi criado, são células que no embrião são as da epiderme, ou seja, a metáfora do contato com o mundo exterior. Mas o sistema nervoso se desenvolveu e, à medida que foi se desenvolvendo, tornou-se um capital tão precioso que foi preciso colocá-lo numa caixa-forte, que é a nossa caixa craniana. Infelizmente, foi tão bem guardado nessa caixa-forte que ele não se comunica diretamente com o mundo exterior, a não ser por nossos órgãos dos sentidos, ouvidos, olhos e assim por diante.

Esse é, então, mais um dos grandes paradoxos do conhecimento. É uma tradução, uma reconstrução, como todo conhecimento. Há muitas coisas misteriosas no mundo que escapam à nossa vontade de saber, temos dificuldade em responder a essas perguntas. Como dizia Pascal, é isso que, no fundo, traz a dignidade humana. O homem é apenas uma vareta pensante, um imbecil, um verme e, ao mesmo tempo, a coisa mais digna e maravilhosa que possa existir. Ele fala das contradições humanas de uma forma linda. Se eu soubesse de cor, até concluiria minha palestra recitando esses versos para vocês: “Mas o que é a verdade? É a nossa busca, o nosso problema, a nossa questão. Podemos ter muitas verdades, mas a verdade... Eu pessoalmente não sei nada a esse respeito”.

Obrigado.
 
Segundo dia
São Roque, 25 de Agosto de 1999 
Seminário: Cultura e Sociedade: Ética e Complexidade 

Edgar Morin

 
Antes de abordar o tema da ética, gostaria de dizer algumas palavras em decorrência de uma observação escrita que fez um participante do seminário, o senhor Milton Cunha. Ele pensa, certamente, que os dogmas e as ilusões tiveram um papel capital na aventura do conhecimento e que as ilusões e os erros não devem simplesmente ser rejeitados em nome de uma visão limitada do que poderia ser a verdade. Eu mesmo disse, ontem, que temos uma grande incerteza sobre a verdade. O que gostaria de dizer com relação a essa observação é o seguinte: os conflitos de ideias tiveram um papel capital na aventura do conhecimento e na história do pensamento ocidental. Na antiguidade grega, Sócrates se rebelou contra os sofistas e houve conflitos entre os pensamentos de Platão e de Aristóteles. Na Idade Média, houve conflitos fundamentais na história da cultura ocidental. A partir do Renascimento, há o conflito entre a fé, a dúvida e a razão. Aliás, quando me perguntam qual é o fundamento da cultura ocidental, se é a razão, digo que não é a razão somente, mas é o conflito permanente entre a razão e a religião. Não é a dúvida sozinha, mas é o conflito entre a dúvida e a fé. A dúvida se introduz no seio da fé, como na concepção do Princípio de Pascal. A religião se introduz dentro da razão, como a fé se introduz na deusa Razão. Assim, o conflito de ideias é muito fecundo. Não é o dogma, porque os dogmas impedem os conflitos. É sempre necessário manter a conflitualidade de ideias, também na política. Vou voltar a isso quando falar de democracia.

A ilusão e o erro são categorias absolutas e, ao mesmo tempo, relativas. Se digo que não seguro um copo de água de Santa Bárbara na mão, é um erro, uma ilusão. Existem muitas áreas em que existem ilusões e erros. Vocês sabem que o erro no seio de um sistema pode ser a verdade em outro sistema. Por exemplo, na origem da vida, a vida é anaeróbica. Isso quer dizer que ela se mantinha fora do ar, que comporta oxigênio. O oxigênio era um veneno que destruía essa vida anaeróbica. Depois, os seres vivos utilizaram o oxigênio como desintoxicante, como necessidade vital. Por exemplo, respiramos oxigênio e é esse oxigênio que, circulando através de nossos vasos sanguíneos, vai limpar nossas células. O oxigênio, portanto, que é um erro no sistema anaeróbico, é uma verdade em outro sistema.

Quando lemos as lendas dos gregos e de outras civilizações, podemos pensar que é ilusão acreditar no deus Júpiter ou em Atenas, filha de Júpiter, todos esses deuses e deusas do Olimpo antigo. Mas essa mitologia nos diz coisas profundas sobre a realidade e as aspirações humanas. Os mitos não são somente ilusões, eles contêm verdades que não podem ser traduzidas na linguagem da racionalidade. É por isso que é preciso prestar atenção no problema do erro e da ilusão. Quero dizer com isso que penso que todo mundo deve lutar, dentro de si mesmo, contra seus erros e ilusões, mas tudo que é reconhecido como ilusão ou erro pode recobrir outras coisas e pode comportar uma parte criativa.

Se tiver tempo, hoje mesmo vou completar certo número de pontos com relação à complexidade humana. Quando falei em complexidade humana, falei muito sobre a condição cósmica, a condição física, biológica e terrestre do ser humano, mas talvez não tenha desenvolvido muito o humano e gostaria de tratar do problema da liberdade. Podemos ser livres ou é uma ilusão pensar que podemos ser livres e autônomos? É um problema muito importante. Talvez possamos tratar dele mais tarde, pois não gostaria de atrasar muito a discussão sobre a ética. Se tiver tempo, voltarei a isso. De qualquer forma, estamos tratando sempre dos problemas fundamentais da condição humana.

Quando se faz um juízo de valor, da ética, do bem e um juízo sobre a realidade como é normalmente a da ciência, que diz que a causa de tal efeito é tal, há uma verdadeira vala, um espaço imenso entre um julgamento da realidade e inferir dele um juízo de valor. Considerando que a ciência moderna se desenvolveu a partir dessa diferença e uma vez que ela foi crescendo durante os séculos XVII e XVIII em um ambiente profundamente religioso, repleto de obstáculos, vocês sabem o que Galileu e a teoria de Copérnico sobre o universo tiveram de enfrentar. Quando se fala efetivamente das descobertas científicas, temos que ser muito prudentes na pesquisa daquela época. A ciência precisa se afirmar de maneira independente de qualquer juízo de valor de origem política ou religiosa, de modo que não haja ameaças sobre a ciência. O grande sucesso da ciência aconteceu em função de uma ética do conhecimento. Conhecemos por conhecer e não conhecemos para o bem, nos parece bom conhecer alguma coisa, sabemos que o que a ciência descobre irá implicar em resultados bons para a humanidade. Ao longo de muitos séculos, foi essa a visão que imperava e há várias mudanças que poderiam ser feitas. Nos últimos 50 anos, pudemos perceber que a ciência conseguiu desenvolver imensos poderes como, por exemplo, dominar a energia atômica e que era preciso ter sistemas de prevenção moral. Em determinado momento, será que não seria preciso que tais pesquisas fossem interrompidas? Será que vale a pena continuar clonando mamíferos? Finalmente, vai ser autorizado que genes humanos sejam clonados? Isso não é conveniente. Há uma questão ética de valores envolvida.

Uma nova questão que se coloca é justamente a questão da ética, já que cada vez mais, ao término deste século, muitos livros são publicados sobre a ética e a necessidade da ética para uma humanidade muitas vezes desamparada. Quando dizemos que um pensamento correto e objetivo não é capaz de dar qualquer subsídio sobre que atitude é preciso ter, há uma frase de Pascal que é surpreendente. Ele diz: “Trabalhar para bem pensar, essa é a fonte da moral”. Talvez pareça estar deslocando a questão ética e reduzindo-a ao conhecimento. Mas, na verdade, o que Pascal quer dizer é que é preciso evitar a ilusão e o erro, inclusive quando temos que tomar decisões de caráter ético. Se assim for, é preciso enfrentar a complexidade do real. Assim como há certas drogas que, se ministradas incorretamente ou com um diagnóstico errado, podem matar o doente, também pode haver soluções éticas de efeito catastrófico.

Por que, então, se coloca essa questão de bem pensar em nosso século? Simplesmente porque, como dizia ontem, estamos sob o jugo da dominação de um pensamento que separa, compartimentaliza, atomiza e impede que vejamos a solidariedade, a globalização e a vivência real. Muitas vezes, tal modo de pensar perde de vista os problemas fundamentais em meio a questões técnicas ou imediatas, que se tornam prioridade. Como já disse, se não é possível ver o que é calculável, o que não é possível ser mensurado está sempre sob essa ameaça. Finalmente, acabamos gerando uma desumanização na nossa maneira de pensar, já que não vemos a felicidade, a dor, os sentimentos inerentes à vida humana. Assim, o que aparece é uma pseudorracionalidade. É uma realidade até de certa forma grotesca, que obedece à lógica da máquina artificial. Temos inventado máquinas nas nossas civilizações, sobretudo a partir do século XVIII, como teares, máquinas elétricas, máquinas a vapor e assim por diante, que obedecem a uma lógica totalmente determinista. Cada peça dessas máquinas especializadas sofre um processo de usinagem para cumprir uma função esperada. E uma máquina artificial tem que estar 100% adaptada, capaz de executar uma determinada função. É uma máquina trivial. Sabemos o que ela vai fazer, quais as manifestações dela, que trabalho ela executa. É fácil: programamos a máquina para fazer tal coisa, damos inputs, e sabemos quais serão os outputs ou os resultados, aquilo que a máquina vai fazer. É só colocar o programinha ou o disquete e pronto, a máquina faz. Mas um ser humano, um ser vivo não é uma máquina banal, trivial. Pode ser que, muitas vezes, tenhamos atitudes banais ou executemos aquilo que foi programado. Se tenho que chegar ao escritório às 9 horas ou o almoço é ao meio-dia, tudo bem, são coisas banais da vida. Mas em relação às coisas importantes da vida, não somos máquinas triviais e somos capazes de ações totalmente inesperadas. Tinha um grande amigo que, no dia do seu casamento estava frente àquele que oficiava a cerimônia civil e, quando chegou a hora da famosa frase, se ele aceitava a senhorita como digníssima esposa, pegou a margarida que usava na lapela e começou a tirar as pétalas: sim ou não, bem-me-quer, malmequer. A última deu malmequer e ele disse: “Sinto muito, não vou me casar”. E não se casou. Há, portanto, coisas imprevistas na vida. Muitas vezes, o imprevisível é o que acontece. Na história da França, Joana D’Arc é uma personagem totalmente inesperada, uma camponesa escutando vozes dizendo que caberia a ela a responsabilidade de salvar o reino, a França. Mais ainda, era uma pastora a cavalo salvando um país. Quando conhecemos alguém e, de repente, a paixão cai como um raio, ainda bem que temos comportamentos capazes de serem controlados. Mas eu diria que em nossa sociedade, o desenvolvimento do tecnicismo e da burocracia tenta considerar os seres humanos como se fossem puras máquinas artificiais. O capitalismo e o poder do dinheiro fazem com que tudo tenha que ser alcançado em função dos lucros. Funciona, mas funciona mais ou menos, não muito bem. Efetivamente, há resistências, problemas, estresse e mal-estar. Então, é a questão da racionalidade falsa, fechada, equivocada, porque revoga todos os outros aspectos da natureza humana.

Não sei se vocês assistiram ao filme Matrix. É um filme norte-americano que foi lançado há pouco tempo. Muito rico, é um filme de conteúdo profundo, pois o que acontece é que, no mundo de Matrix, a sociedade humana está inteiramente controlada por uma inteligência artificial. Evidentemente, os homens não sabem disso e ainda acham que têm a sua liberdadezinha individual. A história do filme gira em torno da resistência de uma meia dúzia de pessoas, que tentam não apenas escapar a essa submissão, mas abrir uma porta para outro mundo. Isso me fez pensar em outro romance de ficção científica que se chama Hyperion, que fala de um mundo futurista onde a mesma questão é levantada. Ou seja, a inteligência artificial controlando os humanos que não sabem que são controlados. Os humanos têm a ilusão de que são eles que estão usando a inteligência artificial a seu serviço. Mas acontece que ela se desenvolveu, começou com a era da Internet e foi criando ramificações. Essa obra mostra uma luta entre a humanidade e as máquinas artificiais, até que finalmente aparece uma mensageira, uma jovem que irá salvar tudo porque ela é híbrida, é o produto da fusão entre a máquina artificial e o ser humano.

O que eu queria dizer com isso é que devemos entender que a inteligência artificial já está impregnando a nossa vida. Na nossa maneira de pensar, de categorizar as coisas e de conceber os determinismos, obedecemos a essa lógica. É isso que chamaria de inteligência cega. Ter que bem pensar, como dizia Pascal, é ter a necessidade de entender o que acontece à nossa volta e desenvolver uma nova maneira de pensar, de gerar um pensamento capaz de entender a experiência vivida, a afetividade, o sentimento; uma maneira de pensar capaz de contextualizar as relações entre as partes e o todo; uma maneira de pensar que restaure o sujeito humano e não meramente objetos que queiramos manipular. Um pensamento capaz de reconhecer a complexidade humana e também de enfrentar a incerteza e as contradições. Pensar corretamente implica em uma ética da clarividência, uma ética que sempre pede que tenhamos um certo cuidado. Em um de meus livros, “Para sair do século XX”, cito uma experiência de percepção. Estava em um cruzamento em Paris e vi um carro atropelar um ciclista. Acho que o farol estava vermelho para o carro, portanto o ciclista tinha o direito de passar. É claro que saio correndo, completamente irado com esse motorista, mas o ciclista, levantando, reconhece e admite que foi ele quem atravessou a rua com o farol vermelho. E eu fiquei pensando: por que tive a impressão que vi outra coisa? Vi outra coisa por causa de uma lógica racional à qual era fiel, já que é sempre o mais forte que age contra o mais fraco. Jamais pensaria que o ciclista seria capaz de bater no carro. Há, assim, essa tendência e, em todos os momentos da vida, a gente sempre incorre nesses pequenos erros de percepção. As testemunhas sempre dão depoimentos absolutamente contraditórios, porque a emoção transforma a percepção que tiveram do momento.

Temos também um grande problema com relação às informações. Ao mesmo tempo, temos que ter confiança e também desconfiar das informações que nos dão. Mas se ficarmos sempre desconfiados, vamos ficar paranoicos. Temos que confiar em coisas que são certas. Se há opiniões diferentes na imprensa, por exemplo, nós mesmos podemos fazer nosso julgamento crítico. Enfim, vocês podem imaginar o que quis dizer com essa fórmula preliminar de Pascal: trabalhar para pensar bem.

Há também outra coisa que gostaria de dizer. Disse que o pensamento complexo é um pensamento que estabelece a solidariedade entre coisas que nosso modo de pensar normal separa e isola. Esse pensamento, que estabelece a solidariedade no conhecimento, é favorável a ligar não somente as coisas, mas a ligar os seres humanos entre si. 

Vejamos como se coloca o problema da complexidade e da solidariedade numa sociedade. Numa sociedade muito complexa, a complexidade é o que une as coisas, muitas vezes diversas, ou seja, comporta uma grande diversidade de indivíduos, de interesses, de opiniões etc. A sociedade é complexa, mas une coisas diversas e, ao mesmo tempo, permite liberdades. Uma sociedade muito complexa favorece liberdades. Uma sociedade, porém, que permite liberdades totais se dissolveria porque não haveria mais ligações sociais. É preciso um mínimo de autoridade para manter juntos os membros de uma sociedade, um mínimo de força policial, por exemplo, e de coesão. Numa sociedade, a mais complexa possível, que tenha uma grande possibilidade de liberdade e um mínimo de obrigações, é preciso que cada membro dessa sociedade tenha em si mesmo o sentimento da solidariedade para com os outros membros dessa sociedade, que tenha sentimento de comunidade. Podemos dizer que, efetivamente, estamos numa época em que, por várias razões históricas e sociológicas, há um enfraquecimento, uma desintegração das ligações de solidariedade. Existe a dissolução das antigas solidariedades da grande família, de famílias que eram ligadas umas às outras, principalmente famílias com muitas crianças, muitos primos etc.; existe a dissolução da solidariedade nas cidades, com esse aumento da urbanização; existe degradação da solidariedade entre vizinhos. Além disso, há o aumento da solidariedade burocrática, que é a solidariedade da assistência social. São problemas fundamentais nas sociedades evoluídas. É uma coisa que pensei há alguns dias apenas, pois minha esposa estava em uma clínica e estava falando com uma mulher que estava fazendo faxina ali, uma marroquina, uma africana. Essa marroquina dizia: “Você sabe, é muito curioso o que acontece aqui. Outro dia, vi um velho doente que tentava andar no corredor da clínica e vi que ele ia cair. Eu me precipitei para ajudá-lo e, nesse momento, a enfermeira disse: “não faça isso, não tem que fazer isso. Não tem que fazer isso, senão você vai ser responsável se acontecer um acidente. É preciso chamar a enfermeira-chefe para se ocupar disso”. Ela disse: “Eu saí na rua e vi um homem cair no meio da calçada, vítima de uma crise cardíaca. Eu me precipitei para ajudá-lo a se levantar, mas duas enfermeiras saíram e falaram: “Não pode ajudar, não pode ajudar, tem que chamar a polícia, a ambulância, porque senão você vai ser responsável”. É muito curioso, venho de um país subdesenvolvido e no meu país é completamente natural ajudar pessoas nessa situação – o que em um país desenvolvido como a França é uma coisa anormal e proibida”. Isso é para mostrar a degradação do sentimento de solidariedade, que vem com o que nós chamamos de civilização, desenvolvimento técnico, econômico e outros. Esse problema da solidariedade é efetivamente importante. Estamos em uma sociedade onde existe esse processo de degradação da solidariedade e o problema é como regenerá-la. E vocês sabem que é um problema, no qual há condições extremamente sociológicas. Por exemplo, em uma organização especializada, cada um trabalha em um pequeno setor, em uma empresa, em um escritório, cada um é responsável por seu setor. E se o trabalho é organizado como uma máquina artificial, sem criar contato entre os diferentes níveis, cada um cuida só de seu pequeno interesse e perde a visão de conjunto e isso acontece não somente na empresa como na sociedade. A especialização e a burocratização degradam a solidariedade. Para resgatar a solidariedade, então, é preciso lutar contra a burocratização e é preciso não se deixar fechar na especialização, mas sim, desenvolver uma policompetência. São problemas sociais fundamentais. Não é suficiente dizer: “Seja solidário”. É preciso uma regeneração ética que necessita de uma regeneração social e política. O que tem de grave é que a ética da solidariedade é inseparável da ética da responsabilidade. Quando você se sente solidário, se sente responsável também pelo outro. O que é ser um cidadão? O cidadão não é somente uma pessoa que tem o direito de votar. Um cidadão é alguém que se sente profundamente responsável e solidário pela coletividade da qual faz parte. Vemos agora esse grande problema da ética, mas vamos encontrá-lo novamente em diferentes níveis. 

Antes de voltar a falar sobre esse tema, gostaria de falar sobre a ética do entendimento, da compreensão. Ainda há um buraco negro em nosso ensino, uma vez que ninguém ensina o que é conhecimento. Também, ninguém nos conta o que é compreensão. Afinal, o que quer dizer isso? A compreensão não é apenas produzida pelas diversas formas de comunicação. Vivemos em um universo no qual há uma comunicação múltipla de todos os meios, como telefone, fax, internet, rádio, satélite. A comunicação não implica só em compreensão, ela traz inteligibilidade, mas não o entendimento do outro. E é preciso fazer uma distinção entre dois níveis de entendimento: a compreensão ou o entendimento intelectual, que é objetivo, e o entendimento humano, que é interior, de foro subjetivo. Afinal, o que é um entendimento objetivo? O que significa a palavra compreender? É de origem latina, “cum-prendere”, pegar junto, abraçar com, apreender com. Em outras palavras, não se trata apenas de juntar detalhes separados para entender o todo, mas é preciso entender a relação entre as partes do todo e o todo. Por exemplo, vocês estão fazendo um trabalho de tradução, digamos que tenham algo para traduzir, uma versão, um texto estrangeiro para o nosso idioma, para a nossa língua-mãe. Então, muito bem, a gente recorre ao dicionário, procura uma palavra. Há palavras que têm inúmeros sentidos, muitas vezes totalmente diversos entre si, e o bom senso diz que devemos tentar analisar a frase inteira e ver os modos, os tempos verbais, se se trata de passado, de futuro. Há palavras mais simples (é como fazer palavras cruzadas), até começar a entender que se parte de um sentido que parece ser global e que, supostamente, daria um entendimento da palavra considerada em particular. Uma vez que isso tenha sido bem definido, aí sim podemos ver a conexão com o sentido global da frase. Quando os elementos conseguem tornar a frase coerentemente grafada, então podemos dizer: “Bem, fiz uma tradução boa e adequada dessa frase ”. Isso significa que cada palavra apenas tem um sentido em função do contexto. Há um labirinto chamado dicionário, mas você também pode ter certeza do que a frase em si está querendo dizer quando em um determinado momento ela se insere corretamente no capítulo, no livro. Ou seja, o texto está no contexto da frase. Só conseguimos ver o texto em si e ter um bom entendimento, se pudermos ver todo o conteúdo linguístico, global, do que está sendo explicado através das palavras. Apenas uma mera palavra pode ser um desastre. Por exemplo, se você chega para uma pessoa e fala “seu imbecil! ”, dependendo do contexto, é um insulto. Agora, se você fala para alguém que você ama muito “seu bobo, é imbecil”. Isso, afinal de contas, é uma frase de amizade. Mudou a conotação. Quem estuda semiótica diz, com muita propriedade, que a conotação é fundamental para que entendamos a denotação, que é o sentido literal dos vocábulos. Entender, compreender significa situar um elemento em um conjunto. Por outro lado, compreender também está ligado à capacidade de obter explicações. Afinal, o que significa explicar? Explicar é igual a considerar aquilo que é preciso ser entendido como um objeto, ao qual se aplicam todas as possibilidades objetivas como a causalidade, a mensuração etc.

A compreensão humana pode ser capaz de utilizar as explicações. Ela faz isso, mas ela vai muito além, porque o entendimento humano é o conhecimento de um sujeito a respeito de outro sujeito, que também coloca em andamento esse processo de afetividade e emoção. Para quê? Para entender a afeição do outro. Quando vemos uma criança chorando, para entender por que essa criança está chorando, não vou colher as lágrimas dela para fazer uma análise físico-química do conteúdo de cada lágrima. Entendo porque já fui criança, já chorei, fiquei chateado, alguém me magoou. Nesse momento, há um entendimento entre o sujeito e o outro. Há traços em mim do caráter infantil, que são fruto da minha infância, e por isso entendo por que a criança chora. Da mesma forma, uma pessoa que foi humilhada. Há um processo de projeção em relação ao outro e de identificação do seu ser com o outro, o que permite que o entendimento humano aconteça, incluindo necessariamente um processo de empatia. Empatia vem de “empathos”, sentimento, emoção. Quando experimentamos em nós mesmos, de maneira mimética, a emoção que uma outra pessoa vive, quanto mais amamos o outro, mais somos capazes de sentir essa empatia e de entender a pessoa.

O que é compreensível, então? O que significa entender? Muitas vezes pode ser sinônimo de indiferença. A gente finge que não vê alguém caído na rua, não quer escutar, vira a cara. E o que é muito curioso é que somos muito mais capazes de ter um profundo momento de entendimento no cinema ou quando lemos um livro qualquer do que na vida cotidiana. Por quê? Quando a gente vai ao cinema para assistir ao Charles Chaplin, que sempre está no papel de vagabundo, maltrapilho, sujo, o filme suscita em nós uma simpatia profunda, um sentimento de amizade forte por essa personagem. Nós simpatizamos com o que o Chaplin apresenta, mas, aí, a gente sai do cinema e vê um mendigo na rua, um vagabundo. O que a gente fala? “Ah, esse cara fede, cheira mal”. Então, tanto no cinema como nas obras de Shakespeare, vemos personagens que cometem crimes e, ao mesmo tempo, vemos que essas personagens são capazes de amar o pai e a mãe. Ao mesmo tempo em que são grandes traidores, são capazes de demonstrar alto grau de fidelidade em relação a outras pessoas. Em “Crime e Castigo” de Dostoiévski há um estudante cínico que precisa de dinheiro para acabar os estudos e decide que vai matar uma velha crente e fala: “Que direito tem essa mulher de respirar, de viver? ”. À medida em que o jovem vai traçando seus planos, a gente vai observando o que ele faz e, graças à ajuda de uma mulher jovem, uma prostituta, ele vai começar a entender finalmente a gravidade de sua atitude. Quando a gente lê jornais, simplesmente rejeitamos determinados artigos. Hegel, o filósofo, disse uma coisa maravilhosa: “Chamar de criminoso alguém que cometeu um crime significa que reduzo todos os outros aspectos da personalidade dessa pessoa ao crime cometido”. Ele cometeu um crime. E daí? Ele pode ter outros aspectos. Conheci criminosos que, após terem tido um momento de delírio, paixão ou loucura que os levou a cometer o crime, conseguiram voltar a si mesmos, por assim dizer. Mas eles não poderiam mais estar contidos nessa conotação ou acepção de criminosos. Então, o que importa é a necessidade de entender o outro ponto de vista humano.

Aqui, nos deparamos com o paradoxo que compreende a subjetividade, ou melhor, que compreende alguns atributos do sujeito. O que é o sujeito, já que nunca definimos quem é o sujeito, o que ele é? A definição do sujeito é colocar-se no centro de seu próprio mundo para considerar e tratar seu próprio mundo em conformidade. Significa ser egocêntrico, estar no centro do seu próprio mundo. Ser um sujeito implica um princípio de exclusão, isto é, apenas eu. A respeito de mim mesmo posso dizer “eu”. Ainda que eu tenha um irmão gêmeo, ele diz “eu” em nome dele, ele fala por ele e eu falo por mim. Automaticamente, excluo todos, inclusive o gêmeo. Isso é ser um sujeito. Evidentemente, é uma das fontes básicas da incompreensão e não há como escapar disso. No entanto, o fato de ser um sujeito humano implica também um princípio de inclusão. Ou seja, somos capazes de incluir a nós mesmos em um “nós”, em um conjunto coletivo subjetivo. Por exemplo, nossos pais, nossos amores, nossos filhos, nossos concidadãos, nossa pátria. E ainda, em uma esfera mais ampla, podemos considerar a nossa comunidade humana. O poeta latino Terêncio, em sua peça de teatro chamada “O fardo de si mesmo”, dizia: “Eu sou homem e nada do que é humano me é estranho”. Essa é a fonte do entendimento.

A nossa civilização comporta progressos simultâneos e antinômicos do entendimento e da incompreensão. O progresso do entendimento ocorre por que e como? Porque o egocentrismo toma um tamanho maior com o individualismo, fica amplificado. O egocentrismo é aquilo que chamei, ontem, de mentir para si mesmo, ou seja, a incapacidade de se autocriticar. E é incrível como somos capazes de ter uma atitude avassaladora, destruindo relações, por exemplo, entre pais e filhos. As relações de casal, por exemplo, podemos dizer que são o câncer da vida moderna, que geram toda a agressividade, o desprezo e, além disso, a necessidade de encontrar um bode expiatório, de reduzir o outro ao que ele tem de pior em si. Isso significa se recusar a entender a complexidade humana e reduzir o outro ao que ele tem de mais execrável. Assim, nós precisamos considerar uma ética do entendimento.

Vou abrir um pequeno parêntese, porque acabei de lembrar o que queria dizer antes, quando eu falava que era preciso que tivéssemos um sentimento experimentado de pertencer a uma comunidade para que a sociedade pudesse ser bastante livre e complexa. Queria fazer uma análise do que é a complexidade em uma nação, mas antes de chegar ao conceito de nação, queria mostrar que nas sociedades de animais mamíferos há dois aspectos: um que chamaremos de comunitário e outro que seria apenas de sociedade, de rivalidade. Quanto a ser rival, falei um pouco, por exemplo quando os machos brigam pelo poder, quem domina a tribo etc. É um conflito interno, mas no momento em que o grupo tem que enfrentar um perigo exterior, eles se tornam fraternos. Os lobos, apesar de predadores, têm uma estratégia de proteção interna. Eles têm uma estrutura dupla, de proteção comunitária e também de rivalidade. Nações são muito mais complexas. Elas têm esses dois aspectos que podemos dizer que são alternativos. Em épocas de paz, vemos que são os conflitos de classes e entre indivíduos que imperam, ao passo que, se houver uma guerra, uma ameaça exterior ou algum outro acontecimento como, por exemplo, a Copa do Mundo, tudo isso irá implicar na criação de um forte sentimento de fraternidade. Na Europa, as guerras tiveram um papel fundamental. É durante as guerras que brota e renasce o sentimento comunitário. A palavra pátria é uma palavra interessantíssima. É um vocábulo que tem um início paternal, “pater”, pai, e acaba de modo feminino, a declinação é feminina, ou seja, aparentemente, é um vocábulo masculino, mas é feminino. Por quê? Porque se reúnem ambos os aspectos da comunidade familiar: a mãe, com quem temos uma relação de amor e o pai, a quem devemos respeito e obediência. Quando falamos, portanto, na mãe pátria, expressamos nosso amor e, ao mesmo tempo, obediência. Todos os elementos de rivalidade não desaparecem, simplesmente ocupam menos espaço do que os aspectos da vida comunitária. A pátria torna-se algo muito forte e acaba gerando uma confraternização entre os cidadãos. O hino nacional da França, a Marselhesa, diz: “Allons enfants de la patrie”, “vamos adiante, filhos da pátria”, filhos do mesmo pai e da mesma mãe, ainda que não tenhamos qualquer vínculo sanguíneo ou de origem genética. A pátria cria esse sentimento comunitário a partir dessa conotação maternal. Aliás, não acredito que se possa ter um sentimento de fraternidade sem ter uma ligação com alguma coisa maternal e não somente a pátria, mas eu diria a Terra, a humanidade. O sentimento de comunidade é muito forte em tempos de guerra, de conflito. Por exemplo, durante a Copa do Mundo, os franceses esqueceram todos os conflitos, confraternizaram todos, se beijaram todos depois da vitória. Eles agiram como brasileiros. Depois, evidentemente, voltou tudo ao que era. Os brasileiros têm esse sentimento de comunidade muito forte, principalmente em competições esportivas, diferente dos países europeus. O problema é como uma comunidade pode ser ligada sem a necessidade de um conflito externo, sem a necessidade de uma competição. Esse é um problema extremamente interessante e importante.

Após esse parêntese, vou voltar à ética da compreensão, que nos pede para entender porque há incompreensão, para poder lutar contra ela. Essa ética da compreensão necessita de um entendimento da complexidade humana, um conhecimento bastante complexo. Ela necessita também do que podemos chamar de uma autoética, um exame de si mesmo. Aí também nos damos conta de uma falha extraordinária em nossa formação: o exame de si mesmo, que encontramos muito forte na literatura. Um grande escritor francês do século XVI, Montaigne, escreveu um livro chamado “Les Essais”, onde ele pensa e estuda a si mesmo. Marcel Proust, um grande romancista, também estuda a si mesmo nos diferentes episódios de sua vida. Existe toda uma tradição da literatura: a introspecção, o olhar sobre si mesmo, que foi totalmente negligenciado em prol de um conhecimento que se achava objetivo. Atualmente, existem muitas práticas psicoterápicas ou mesmo psicanalíticas que procuram levar as pessoas ao autoconhecimento, mas em função de alguém que esteja fora. A pessoa que está fora, ajuda o outro a se conhecer, mas não suscita no outro a fonte de autorreflexão e do autoexame. A autoanálise é a compreensão de si mesmo. A base da autocrítica é conhecer suas próprias fraquezas, suas próprias carências. Quando conhecemos nossas próprias fraquezas, adquirimos segurança e tendemos a não condenar tanto o outro. A autoanálise, então, deve ser completada com a abertura para o outro.

Antes de chegar a essa abertura para o outro, também penso que na autoética, a ética para si mesmo, existe uma ética da honra. A honra é uma noção muito importante em todas as culturas, mas nas culturas tradicionais ela está ligada à nossa imagem vista pelo outro. Seria mostrar ao outro uma boa imagem de si mesmo. Isso é a honra. Por exemplo, no caso extremo dos japoneses, o almirante japonês que perde uma batalha comete o “haraquiri”, ele se suicida porque perdeu a honra. A perda da honra é, então, não ser capaz de manter a boa imagem. É a ideia tradicional, mas penso que precisamos da honra não somente para a nossa imagem em relação aos outros, mas precisamos da honra em relação a nós mesmos, ou seja, podermos olhar para nós mesmos, na medida em que somos capazes de resistir às mentiras e à autodecepção. A honra não é, então, um sentimento que se deve relegar ao passado, mas é um sentimento que se deve reabilitar no fundo de si mesmo. Isso significa o quê? Significa que a compreensão deve ser considerada, ao mesmo tempo, como meio e como fim da comunicação humana. Só podemos nos comunicar verdadeiramente com o outro se conseguirmos nos comunicar conosco mesmos. É um valor extremamente importante compreender aqueles que estão próximos de nós, mas também os que estão longe, os estrangeiros, suas crenças, seus hábitos. Existe todo um problema de educação para a compreensão. Como a compreensão comporta alguma coisa de emotivo, é claro que a compreensão leva à compaixão. Essa palavra também é interessante em sua origem latina - “compatire” é compreender o sofrimento do outro. A compaixão é uma das virtudes éticas fundamentais em muitas das grandes religiões. No budismo, principalmente, uma das grandes mensagens do príncipe Shakyamuni (Sidharta) é a descoberta da dor e que ela faz parte da vida. Não somente a dor humana, mas também a dor animal. É uma mensagem de compaixão. É isso que me conduz pessoalmente a dar essa mensagem, pois no final do meu livro “Meus demônios” falo em resistir à crueldade do mundo. Estamos em um mundo de muita crueldade, onde não há possibilidade de eliminar toda a crueldade. 

A ética que conduz à compreensão vai implicar em outro ponto, que é sempre o problema da ética da complexidade mantendo-se em âmbito geral. Isso implica no confronto de diversas éticas. Por quê? Porque sempre há contradições inerentes aos princípios éticos. Ainda que aparentemente seja muito simples que a gente deva fazer o bem, às vezes há dois imperativos que se contradizem ou que são opostos. Por exemplo, Louis Marcion, que conhecia as civilizações árabes, cita um exemplo da mulher de um beduíno que havia sido assassinado. Os beduínos são nômades do deserto e vivem em tribos. Se alguém da tribo é assassinado, a vingança é matar o agressor. É o conceito de Talião, da vingança. Mesmo em sociedades em que a justiça é responsável pela execução da lei, é forte o sentimento de vingança. Quando a gente vai ao cinema assistir um filme de bang-bang, no qual há sempre um justiceiro que vai acabar matando o bandido, ficamos satisfeitos ao ver a vingança. A gente está sempre em confronto com essa coisa do Talião, que tem que ser de certa forma superada. Voltando ao caso do beduíno, um membro de uma tribo vizinha matou esse beduíno. Sua mulher se vê frente a dois imperativos sagrados. O primeiro: é preciso matar o assassino de seu marido. Mas o segundo é a hospitalidade, porque essa também é uma lei sagrada. O que faz ela, então? Oferece hospitalidade e de manhã cedo convoca a família para que eles o matem. Essa foi a maneira que ela encontrou para conciliar os dois imperativos.

Respeitamos preceitos éticos muito diferentes, por exemplo, em relação às pessoas mais próximas de nós, à nossa família. Também temos deveres em relação aos nossos concidadãos e em relação à humanidade em geral. Tomemos o caso de uma pessoa que é extremamente devotada à humanidade, que participa dos Médicos sem Fronteiras, que vai para Kosovo e outros países simplesmente oferecer seus serviços. Ela faz o bem para a humanidade, mas pode ser que tenha esquecido completamente de sua própria família, não cumprindo suas obrigações com seus familiares. Há sempre um equilíbrio sutil, difícil de manter, entre a devoção aos próximos e a uma comunidade mais ampla, ainda mais a humanidade. Todos são importantes. Há essas contradições éticas o tempo inteiro. Em determinado momento, é preciso tomar uma decisão.

Há também uma contradição em relação à tolerância. Devemos ser tolerantes. Vou falar sobre isso daqui a pouco. Temos que ser tolerantes com uma sociedade aberta, em que há ideias contrárias às nossas. Até mesmo ideias antidemocráticas devem ser toleradas, mesmo que elas impliquem em uma ameaça à própria democracia. Até que ponto, porém, a tolerância tem que prevalecer? Se essas ideias acabarem ocasionando o fim da democracia, significa que, em determinado momento, nós as toleramos demais. Por exemplo, quando Hitler tomou o poder, não foi por um golpe de Estado. Houve eleições na Alemanha, Hitler foi eleito deputado, depois foi promovido a primeiro-ministro dentro de um jogo democrático. Mas, uma vez que subiu ao poder, depôs o partido socialista, destituiu o poder dos partidos e se impôs. Na Argélia, quando os islâmicos conseguiram maioria na assembleia, ficou bem evidente que, se eles tivessem chegado ao poder teriam acabado com a democracia, que sequer havia nascido. O simples fato de terem eliminado as eleições e impedido os islâmicos de consolidarem um regime, já é uma contradição. Há sempre essa questão da contradição em relação à ética pura. Por exemplo, ao longo do desenvolvimento da ciência nos deparamos, a todo momento, com novas contradições. É por isso que foram criados institutos que estudam a bioética. Em vários países, foi levantada a questão, abordada de maneiras diferentes, do direito à prática do aborto. Podemos dizer que o aborto depende da autonomia exclusiva da mulher, em uma sociedade na qual ela tem direitos iguais aos do homem. Foi preciso, entretanto, levar em consideração que esse direito ao aborto implicava na supressão do direito do embrião à vida. O direito de uma sociedade, de certa forma, salvaguarda seu potencial de expansão demográfica baseado nisso. Então, há questões a serem levantadas, porque um embrião não é um objeto, não é uma coisa qualquer. Há um certo estágio de desenvolvimento em que um embriãozinho já sente dor e tem sentimentos. É uma escolha ética, portanto e, em certos casos, a mulher é favorecida. Em outras circunstâncias, porém, podemos tentar uma moderação na escolha. Quando, hoje em dia, por exemplo, falamos em eutanásia, somos capazes de manter uma pessoa em estado vegetativo por um período indefinido. Mas ainda são pessoas? Perderem a consciência e a autonomia. É preciso, então, desligar os aparelhos que as mantêm respirando? É um problema. O princípio de Hipócrates diz que é preciso prolongar a vida indefinidamente, mas muitas poderiam ser salvas através do transplante de órgãos. Muitas vezes, os médicos acabam tendo que decidir pela própria consciência. Isso é um segredo, é difícil saber. Há conflitos que poderiam ser generalizados como alguma coisa complicada. Por exemplo, mães que fizeram implante de gene de outra mãe. Como na lei de Salomão, quem é a mãe verdadeira, aquela que doou os genes ou aquela que carrega os genes em si? Em que medida podemos manipular os seres vivos? Até que ponto? Há muitas contradições e, hoje em dia, a gente tem que enfrentá-las. É preciso propor uma ética humanista em relação a todos os processos científicos e técnicos.

Para não dizer que esqueci da primeira ou da última contradição, seria a contradição absoluta entre a revolta contra o destino e a aceitação do próprio destino. Essa contradição foi maravilhosamente expressa por Beethoven. No último movimento de seu último quarteto, Beethoven escreveu na partitura duas palavras: “Muss es sein”, que significam: será que é possível aceitar isso? E a resposta é: sim, é possível, assim é. Temos que superar a revolta contra o destino. Se não aceitarmos o destino, como vivemos? Viveríamos de forma humana? Cada um de nós, portanto, tem que se confrontar com essas contradições, quando a pessoa efetivamente passa por momentos mais graves ou críticos de sua própria vida ou da vida de pessoas que lhe são muito caras.

Tendo colocado todos esses pontos, cobri todo o tópico das contradições éticas, que muitas vezes esquecemos. Parece muito simples repetir a fórmula “faça o bem”, mas essas contradições nos conduzem à temática de uma ética extremamente complexa em relação à questão de como enfrentar a incerteza. O grande princípio da moral kantiana, por exemplo, está baseado na intenção: faça aquilo que você pensa que todos os outros deveriam fazer, aja no sentido universal, aja para o bem. A ética é uma intenção. Essa ética, entretanto, nunca vê as consequências, o que significa que há insuficiência de boas intenções para se fazer boas ações.

(Intervalo)

Eu tinha falado sobre o problema de enfrentar as incertezas. Muitas pessoas pensam que tudo o que digo é muito desencorajador, porque em geral queremos certezas. As certezas são reconfortantes. Se nos dizem que há incertezas onde acreditávamos que havia certezas, ficamos desmoralizados. Vou dizer uma primeira coisa que tenho certeza: a certeza de que existe incerteza. O enfrentamento da incerteza é um dos aspectos do destino humano. Desde o início da história da humanidade, quando os seres humanos saíram da África e se expandiram por todos os continentes, sempre se defrontaram com incertezas, climas novos, espécimes novos, nova alimentação. As guerras, as crises, os conflitos e a incerteza fazem parte do destino humano. A melhor preparação é estar consciente e enfrentar essas incertezas. Existe uma incerteza entre os fins e os meios. Há um princípio que diz que “o fim justifica os meios”, que quer dizer que podemos utilizar meios não tão nobres para fins nobres, a serviço de Deus, do comunismo ou para a felicidade da humanidade. Devemos saber, porém, que os meios contaminam os fins e que os meios se transformam em fim. Peguem o exemplo histórico da União Soviética. No início da Revolução, a polícia secreta, a repressão e os campos de concentração foram meios para permitir a vitória do comunismo sobre seus inimigos. Uma vez que essa vitória foi assegurada, esses meios se perpetuaram e acabou em um sistema totalitário. O meio, que era para chegar à liberdade, se tornou o fim que suprimiu essa liberdade. Podemos pensar que, efetivamente, os meios contaminam o fim, mas algumas vezes podemos utilizar um meio que não é nobre para conseguir um fim nobre. Suponham, por exemplo, que um terrorista tenha colocado uma bomba atômica numa cidade grande como Paris e que essa bomba vai explodir numa hora “x”. Se conseguirem pegar esse terrorista, vão usar de todos os meios, mesmo os não nobres, para que ele diga onde está essa bomba e como desativá-la. Temos que utilizar todos os meios para suspender a utilização de certos princípios. É necessário respeitar absolutamente os princípios democráticos e dar liberdade até a movimentos antidemocráticos. Mas esses movimentos antidemocráticos estão ameaçando a democracia, então, temos que suprimir essa liberdade para evitar a tomada do poder por esses movimentos. Nesse caso, também existe uma incerteza.

Também há uma incerteza sobre o realismo e a utopia. Aí, também, é muito banal dizer que é preciso ser realista, pois uma utopia pode chegar a resultados catastróficos. Repito, vejam o caso da União Soviética. Mas também, é preciso pensar em duas coisas. O realismo é a realidade como ela se apresenta de imediato. Devemos obedecer a essa realidade que se apresenta? De maneira nenhuma. A França foi vencida em 1940, foi ocupada pelos nazistas e o império hitleriano se expandiu pela Europa, chegou a Atenas e os exércitos alemães já tinham entrado até na União Soviética. Ser realista naquela época era se adaptar à situação, ou seja, à Europa sob o domínio da Alemanha de Hitler durante um tempo prolongado. Hitler dizia que seu império iria durar mil anos. Poderiam pensar que seria um exagero, mas poderia durar 50 anos. Não se sabia. O realismo era se submeter à desfeita, à perda. O contrário disso foi a atitude de alguns resistentes, como o general De Gaulle, que era julgada completamente irrealista. Entretanto, em dois anos o realismo mudou de rosto. Aliás, De Gaulle fundou seu princípio em bases realistas, ou seja, forças enormes não tinham entrado na guerra: nem os Estados Unidos, nem a União Soviética. Era uma aposta, não era certo ainda, mas obedecer ao fato ocorrido não era certamente realismo, porque a realidade está sempre sendo trabalhada por forças subterrâneas, forças obscuras. O que parece estável pode se desintegrar rapidamente. Existe um princípio de incerteza dentro do realismo humano. E existem duas utopias, a que podemos chamar de boa e a que podemos chamar de má. A má utopia é imaginar que podemos chegar a um universo perfeito, transparente, onde tudo seja harmônico e não haveria mais incompreensão, mortes, conflitos. Se quisermos realizar essa utopia, vamos ser obrigados a violentar a realidade porque a realidade vai resistir e isso vai conduzir a catástrofes. A boa utopia consiste em dizer que o que não é realizável, hoje, pode ser realizado em princípio. Por exemplo, sempre tivemos guerras no mundo; então não é realista pensar que o planeta possa chegar a um estado de pacificação completa, sem nenhuma guerra, mas há uma possibilidade. Assim, é uma utopia boa que nos empurra nessa direção. Durante muito tempo, na Idade Média, por exemplo, a França ficou dividida entre estados feudais que faziam a guerra e o poder monárquico, unificador, suprimiu essas guerras. Não é utópico, portanto, pensar que o mundo pode chegar a uma situação melhor. Em outras palavras, se a utopia é o melhor dos mundos, o mundo perfeito é uma má utopia. Se a utopia diz que podemos chegar a um mundo melhor, o que é completamente diferente de dizer o melhor dos mundos, é uma boa utopia que pode nos levar a mudar a realidade.

Agora, vejamos a incerteza entre a intenção e a ação, que vem do que chamo de ecologia da ação. O que quer dizer ecologia da ação? Quando vocês fazem uma ação, essa ação vai rapidamente escapar de suas intenções porque ela vai entrar em um jogo no meio ambiente, social, político, humano, natural, onde as condições vão transformá-la e modificar seu sentido. A ação talvez vá tomar um sentido contrário àquele que vocês queriam no início e é isso que acontece frequentemente na história humana. Podemos dizer que é o que acontece mais frequentemente. O processo que conduziu à Revolução Francesa foi desencadeado por uma reação aristocrática. A aristocracia, que tinha perdido muitos dos seus privilégios com a monarquia absoluta, quis se aproveitar de um rei fraco, Luiz XVI, para reconquistar o poder e decidiu juntar representantes das três grandes ordens sociais, a nobreza, o clero e o Terceiro Estado, quer dizer, o resto - burguesia, os camponeses etc. Habitualmente, a cada vez que havia a convocação dos estados gerais na França, o voto era feito por ordem. Sempre havia a maioria de dois terços em favor da nobreza e do clero e nunca dos representantes do Terceiro Estado, que nunca podiam ganhar. Quando, em 1889, houve a convocação dos estados gerais, os deputados solicitaram que fosse feita uma votação por número de cabeças e não mais por ordem. Nesse momento, houve uma mudança total e a abolição dos privilégios aristocráticos, porque o poder havia mudado. Em outras palavras, a aristocracia fez brotar, sem querer, uma revolução que ela não estava esperando. Da mesma forma, na Espanha, em 1936, houve uma efervescência da qual acabou surgindo o general Franco e a ditadura. Na França, o presidente Chirac dissolveu a Assembleia Nacional, esperando que as eleições lhe dessem uma maioria muito maior do que aquela que tinha, mas o resultado foi o contrário do que queria, uma assembleia dominada pelos socialistas. São exemplos que confirmam que os acontecimentos e as condições modificam as intenções e esse é o princípio da ecologia da ação. Os resultados da ação são independentes das intenções, dependem do meio em que acontecem.

O segundo aspecto da ecologia da ação é que, em longo prazo, os resultados de uma ação são imprevisíveis. Ainda no caso da Revolução Francesa, ela teve desdobramentos imprevisíveis. Detonou, por exemplo, o surgimento de um império pelo fato de que um general da revolução acabou se tornando imperador: Napoleão Bonaparte. Quando a França caiu, ele restaurou a monarquia e um processo que se desencadeou até a Revolução Soviética, que pode ser considerada uma consequência indireta da Revolução Francesa. Quando, em 1949, a Revolução Soviética se desfaz [sic], vemos que há uma reatribuição dos valores que, de novo, colocam em destaque a liberdade, a igualdade e a fraternidade, os ideais da Revolução Francesa. Como saber o que está por vir? Na ecologia da ação, podemos dizer que aquele que provoca uma ação é 100% responsável por essa ação, mas ao mesmo tempo ele também é 100% irresponsável, já que não sabe quais serão os frutos da sua ação.

O que nos permite enfrentar a incerteza da ecologia da ação? Qual é a ética da ecologia da ação? Em primeiro lugar, é a consciência da aposta. Quando decidimos tomar uma atitude, há um risco. O primeiro pensador que trouxe a consciência sobre essa incerteza, não na ação, mas na fé religiosa, foi Pascal. Pascal, que é um pensador moderno, entendeu que se não era possível ter uma prova lógica, empírica da sua religião, então era preciso apostar. Aí, ele começou a argumentar em favor de sua própria aposta. Lucien Goldman, que é um marxista, estudou Pascal e concluiu que o socialismo era uma aposta, diferentemente dos socialistas comunistas que diziam que o socialismo era uma certeza científica. Durante dezenas de anos, a interpretação dogmática do marxismo levou a que o socialismo fosse considerado inevitável, uma necessidade histórica. Esse exemplo nos diz porque as certezas são ruins. Goldman dizia que era uma aposta, pode dar certo ou não. Devemos estar conscientes das opções que fazemos, há sempre uma aposta subjacente. E aí podemos desenvolver uma estratégia. Em que consiste essa estratégia? A estratégia se define em função do programa. E o que é o programa? O programa é uma sequência de ações que é determinada no ponto de partida para chegar a uma finalidade. Quando queremos construir um carro, há toda uma linha de produção para a montagem desse veículo, até que ele se transforme em um produto acabado. É evidente que tais programas são úteis, mas precisam ser executados em condições em que o meio ambiente seja estável. Evidentemente, se as condições forem alteradas e se tornarem incertas, o programa será interrompido. Mesmo numa linha de montagem de automóveis, se houver algum problema, o sistema inteiro pode entrar em colapso e terá que ser consertado antes de ser reiniciado. No mundo da ação, as condições da ecologia da ação não são estáveis e não são permanentes. A palavra estratégia deriva de “estrathos” que significa líder do exército. A estratégia é, portanto, conduzir a ação em clima de incerteza, já que há o azar, o acaso, o inesperado. É por isso que se tem uma rede de espionagem e todos querem limitar o incerto ao máximo. Na arte da guerra, por exemplo, há o caso clássico da Batalha de Austerlitz, que foi vencida por Napoleão Bonaparte com base numa coalizão com austríacos e russos. Naquela manhã, em Austerlitz, a região à esquerda, que os franceses tinham que atravessar, uma região pantanosa, estava recoberta de brumas. Como a região era pantanosa, os soldados teriam que atravessá-la devagar e, se não estivesse recoberta de brumas, eles teriam sido descobertos imediatamente. A bruma, de repente, teve um papel totalmente inesperado. Aí, Napoleão resolveu fazer uma falsa ofensiva à direita, para dar ideia de que ele iria atacar por esse lado e, assim, consegue ter a maior vitória da história da França. Com os 12 mil canhões que conseguiu em Austerlitz, ele depois edificou na Place Vendôme a coluna que até hoje está lá. Isso modificou o rumo das ações ou até mesmo sua interrupção ou alteração, quando as condições não estavam favoráveis e levariam a um provável desastre.

A aposta e a estratégia são as duas premissas sobre as quais se baseia a incerteza. A estratégia tenta conjugar as forças para poder enfrentar a própria situação. Então, nós temos o fim, que é o norteador, o guia, mas há que se percorrer o caminho. Tomemos a fórmula, liberdade, igualdade e fraternidade, a máxima típica da República Francesa. Quando refletimos sobre essas três noções inseparáveis, percebemos que há contradições éticas internas a cada uma. Se você deixar a liberdade andar sozinha, ela destrói a igualdade e a fraternidade. Se a gente quiser impor a igualdade à força, adeus liberdade. E não há lei ou decreto que seja capaz de impor a fraternidade. Aí, então, a gente se dá conta de que há incertezas e há momentos em que é preciso insistir em um dos termos dessa equação. O nosso momento atual é a época em que a fraternidade e a solidariedade são o tema mais importante, e é essencial tentar colocar em prática essa fórmula tripartite.

Na conferência de hoje falei da autocrítica, a ética do “self”, falei das contradições éticas, a ética do entendimento, da solidariedade, e agora vou falar da antropoética, ou seja, da poética humana. Antes disso, vou ter que tocar no aspecto da tolerância, porque a tolerância é, também, um problema complexo. Há duas maneiras de conceber a tolerância. Temos a indiferença e o ceticismo. Se você é uma pessoa indiferente, cética, tolera qualquer coisa, mas se você tiver alguma fé ou convicção em valores que implicam em liberdade, igualdade e fraternidade, por exemplo, a tolerância torna-se uma coisa muito delicada e você sofre quando é obrigado a tolerar ideias que são expressas no sentido de contrariar a igualdade, a liberdade e a fraternidade. Assim, há três princípios relacionados à tolerância. O primeiro princípio foi colocado por Voltaire, que dizia: “Senhor, suas ideias me enojam. No entanto, eu poderia nesse momento morrer em prol do seu direito de defender suas horripilantes ideias. É o princípio de respeito ao direito de expressão de cada um e que pode implicar em sofrimento. O segundo princípio é um princípio democrático. Por quê? A democracia precisa de pluralidade, implica em ideias contrárias. Se não houver conflito de ideias, ela irá se ressecar. A democracia implica em tolerância quanto a ideias contrárias às nossas, senão não seria democracia. Por fim, poderíamos dizer que o terceiro princípio está há três séculos de distância, já foi expresso por Niels Bohr e por Pascal há 300 anos. Niels Bohr foi um grande cientista dinamarquês, responsável pelo desenvolvimento da física no início do século. Juntamente com Einstein, são os dois grandes expoentes no campo da microfísica. Pascal dizia que o oposto de uma verdade não é um erro, é outra verdade. E Niels Bohr disse a mesma coisa de maneira um pouco mais elaborada. Ele acrescentou um ponto importante, dizendo que o oposto de uma verdade profunda não é um erro, mas é uma profunda verdade. Então, o oposto de uma verdade superficial pode ser um erro. Voltando ao exemplo do copo, se eu disser a vocês que isso é vinho e não água, é um erro, uma estupidez. Mas quando falamos da incerteza metafísica, sabemos que a questão se coloca. Sem entrar no questionamento sobre as verdades metafísicas, mesmo no campo das grandes ideias, inclusive ideias de cunho político, penso que é importante perceber qual é a parte de verdade que comporta em si mesma uma ideia oposta. É também um pensamento complexo. É possível que haja uma parte de verdade nas ideias alheias que contradizem a nossa. Portanto, essa fundamentação seria mais importante para ser incluída no princípio de tolerância.

Vamos às conclusões básicas com relação à antropoética. Mencionei três polaridades na realidade humana: o indivíduo ou sujeito, a espécie ou o gênero humano e a sociedade. Se um dos elementos for removido haverá uma visão mutilada. É como a trindade teológica, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, que são inseparáveis, são um. A teologia mostra como a unidade existe na diversidade. Isso é ser humano. Não apenas estamos na sociedade, a sociedade está dentro de nós e a espécie humana no indivíduo. Finalmente, a consciência individual é que é capaz de realizar tudo através de sua inteligência. Isso tudo é muito importante e implica em outras coisas. O que são essas consequências que chamei de antropoética? Significa que todo e qualquer desenvolvimento humano verdadeiramente ético, produzido pelo ser humano, implica no desenvolvimento conjunto das autonomias individuais, da participação comunitária e do fato de pertencer à espécie humana. São mais três termos entre os quais pode haver conflito, mas eles têm que progredir juntos.

Essa ética da espécie humana pressupõe uma análise da relação entre indivíduo e sociedade. Qual seria a sociedade mais adequada ao desenvolvimento conjunto dessas três premissas? Seria uma relação em que os indivíduos têm condições de controlar a sociedade que, por sua vez, os controla. O que quer dizer isso? É uma sociedade que funciona de acordo com os princípios democráticos, já que os indivíduos são capazes de controlar os governos e os governos, uma vez eleitos, irão por sua vez controlá-los. É preciso que haja esse sistema de rotação, de intercâmbio. Já as sociedades totalitárias ou igualitárias colonizam indivíduos que são quase objetos, sujeitos submetidos, enquanto na democracia o indivíduo é cidadão; ele é responsável solidário e controlador. Temos, então, grandes problemas na democracia. Em nenhum lugar a democracia é realmente praticada. Amanhã, vou voltar ao problema da regressão democrática em todos os lugares. O que a democracia comporta é a pluralidade de opiniões, o conflito dessas opiniões e a separação dos poderes. Assim, é todo um sistema que impede o controle total da sociedade sobre os indivíduos, mas que permite justamente um jogo entre os indivíduos e a sociedade. As democracias do século XXI estarão submetidas a problemas gigantescos e vou voltar a isso amanhã.

O segundo problema é entre indivíduo e gênero humano. Como vocês sabem, a ligação ética entre indivíduo e gênero humano foi reconhecida, durante muito tempo, em religiões e também por pensadores como Terêncio. É um aspecto fundamental da antropoética. No início do século XVIII, o filósofo Kant, um dos espíritos mais poderosos na história humana, dizia que o finito geográfico da nossa Terra impõe aos habitantes o princípio de hospitalidade universal, permitindo que eles não sejam vistos como inimigos. Parece que essa comunidade impõe de maneira vital essa solidariedade. Falarei amanhã justamente da humanidade como destino comum, problema que se manifesta no nosso final de século e que vai se desenvolver durante o século seguinte. Estão aí, portanto, alguns aspectos dos problemas de complexidade ética com os quais estamos nos confrontando. Espero que vocês tenham muitas observações e críticas para enriquecer nosso debate de hoje à tarde. Até daqui a pouco. 

Obrigado.

Debate com o Prof. Edgar Morin

PRIMEIRO GRUPO – A pergunta do nosso grupo, que tem ainda a Marta, o Ridequis e o Henrique, seria: é possível um lazer poético? E como o senhor exemplifica a relação entre prosa e poesia, levando em conta sua proposta de reforma do ensino? E é possível uma manifestação artística complexa que relacione todas as artes?

SEGUNDO GRUPO – O meu grupo sou eu, Marina, San, Zé, Luiz e Mauro. Nossa pergunta parte da máxima maquiavélica, que o senhor utilizou em sua fala, de que os meios justificam os fins. Numa sociedade como a brasileira, o senhor, conhecedor da nossa sociedade, onde os meios, muitas vezes mais ilícitos do que os próprios fins, estão mais presentes do que os fins, como o senhor analisa as questões de ética e solidariedade à luz de suas reflexões, abordando nossa sociedade brasileira, uma sociedade onde os meios de comunicação têm personagens bizarros e locutores bizarros? A televisão, de maneira geral, produz programas de baixa qualidade ou com ética extremamente duvidosa. Jornais e políticos utilizando-se de diversos meios, às vezes, também ilícitos, para alcançar fins talvez não tão nobres assim. Então, como o senhor analisa, à luz de suas reflexões, a questão da ética e solidariedade na sociedade brasileira?

TERCEIRO GRUPO – O senhor acredita que a ação política poderia se constituir como possibilidade de esperança? E como seria isso, como se daria? A outra questão é, os fins éticos não pressupõem meios éticos?

QUARTO GRUPO – O nosso grupo tem o Sérgio, o Dino, o Lauro, a Alice, o Zacarias, o Edson, o Rui, o Porto e o Zaquir. É quase uma assembleia. Na verdade, a gente tem duas questões. Existe possibilidade de uma ética relativa, de uma ética a partir de ideologia? Existe alguma ética universal possível, principalmente em uma sociedade baseada no produtivismo e no consumerismo? Consumismo é uma coisa e consumerismo é um pouco maior ainda, infelizmente, onde a concorrência, a tecnologia ou a incorporação do conhecimento científico existem para dinamizar a sociedade de consumo e, ao mesmo tempo, criar as marginalidades, marginalizar grandes populações, grandes contingentes. A outra pergunta é uma provocação um pouquinho diferente, talvez numa ordem mais conceitual. Provavelmente, uma das grandes conquistas do século XX, em termos de filosofia, é o existencialismo. E, com certeza, Martin Heiddeger foi a pessoa que fundou essa corrente. A gente sabe toda a trajetória dele, que ele veio a morrer no Tibete.

EDGAR MORIN – Não, ele morreu na Alemanha.

QUARTO GRUPO – Ele esteve um tempo no Tibete. A segunda coisa, em função disso, é que em Sartre existe toda uma conceituação da intersubjetividade. E, durante muito tempo, foi dito que isso implicava na impossibilidade de se criar uma ética a partir do existencialismo, que seria impossível na relação com o outro.

QUINTO GRUPO – O que o senhor define como antropoética implica na necessidade imperiosa de transformar efetivamente as condutas humanas ou pelo menos em reequilibrar os aspectos do prosaico e do poético? Em caso afirmativo, usando uma terminologia que o professor usou esta manhã, aposta-se na possibilidade de um progresso ou de um aperfeiçoamento da natureza humana? Ou ainda, a questão da pulsão de morte e de destruição, da maneira como foi formulada por Freud no texto “Mal-estar na civilização”, se apresenta como uma barreira intransponível ao atingimento dessa meta?

SEXTO GRUPO – A nossa equipe queria fazer uma consideração sobre o que o senhor falou a respeito do casamento, de o casamento ser o câncer da vida moderna e transpôs essa situação para uma empresa. Como ficam as relações de amor e ódio em uma empresa? Essas relações podem ser de caráter profissional e pessoal, o que sabemos é que acontece em qualquer empresa.

Edgar Morin

As duas perguntas dizem respeito à relação entre a prosa e a poesia. A prosa e a poesia são feições da existência humana. A poesia nos dá alegria, emoção, fervor, exaltação na fé, na amizade, nas festividades, na arte, no amor. Há nela múltiplas facetas. A prosa tem a ver com as coisas que são obrigatórias, que não trazem alegria em si mesmas. Na nossa civilização, as coisas estão bem separadas, estanques, mas nas sociedades arcaicas, por exemplo, as atividades práticas estavam sempre ligadas à música, à dança e não havia essa separação moderna entre lazer e trabalho. Havia uma outra separação que tinha mais a ver com a festa e a vida diária. E as festas eram o momento de exaltação da poesia, quando todas as proibições estavam suspensas, era permitido que qualquer coisa acontecesse. Ao invés do princípio de economia, que norteia as coisas da vida diária, o que imperava nas festas era o espírito da doação, da expansão. Na nossa sociedade tem o lazer, a vida cotidiana, mas o lazer não é necessariamente poético. É possível que encontremos noções poéticas, mas muito atenuadas, por exemplo, na televisão. A gente não está vivendo a poesia. O que dizia é que a qualidade poética da vida deve ser defendida. Por quê? Porque há uma invasão da prosa na nossa vida, na nossa civilização. E por quê? Porque a prosa está ligada à lógica da máquina artificial. Fazemos coisas que obedecem à especialização, à cronometragem, a restrições. E tudo isso se espalha, repica pela sociedade, não é apenas um trabalho. Seria preciso dizer também que as pessoas na sociedade tentam reagir, principalmente a juventude, trazendo grupos de amigos em festas, saindo de férias. Há coisas muito ambíguas no amor. A multiplicação dos encontros faz com que os amores sejam possíveis, mas ao mesmo tempo eles se consomem muito mais rapidamente, e os mal-entendidos se instalam em segundos. O casamento em si pode ser totalmente dissolvido. E aí vamos de novo sair em busca daquele que trará a poesia à nossa vida. Porque amar alguém é estar com alguém que traz um elemento poético à vida, que promove um sentimento de natureza poética. É uma das qualidades do amor. Nós todos desejamos poesia em nossa vida. O problema verdadeiro não tem tanto a ver com o equilíbrio entre prosa e poesia. Há uma alternância. Não podemos expulsar a prosa da vida. E se na vida houvesse só poesia, a gente nem perceberia. Se a vida fosse pura felicidade, quem saberia o que é felicidade? De certa forma, a felicidade implica na infelicidade. De certa maneira, não apenas a felicidade é incapaz de refutar a tristeza ou a infelicidade, mas precisa delas. Se você tiver uma pessoa que ama muito e ela morrer ou se for ou desaparecer, então você vai sofrer. É por isso que no livro de sabedoria chinesa, o Tao-Te-King, é dito que a infelicidade caminha a braços com a felicidade, uma toca a outra. Há traduções distintas dessa passagem. Uma diz que a infelicidade se deita aos pés da felicidade. Mas, enfim, é uma associação entre prosa e poesia. Não há como escapar da prosa, mas podemos limitá-la.

Então, qual é o papel da educação? É uma ótima pergunta. Em primeiro lugar, a poesia, a literatura, a música, as artes em geral são iniciações à poesia da vida, à poética da vida. É através delas que nós somos habilitados a contemplar as belas obras de arte, as belas paisagens. Nós temos uma tendência a enriquecer a habilidade de vermos a poesia em nossa vida. Então, como ensinar literatura nas escolas? Na França isso ficou extremamente gramático, semiótico. A gente tira a carne e só estuda a morfologia, a análise sintática. Isso não tem nada a ver, porque as obras literárias abrem as pessoas à vida, às pessoas como elas vivem, quais são as suas paixões reais. É preciso dizer que nas artes, na música, nas grandes artes, nas grandes obras sempre há um pensamento muito forte, subjacente e que se expressa sem precisar de palavras. Às vezes faz uso da palavra, como hoje de manhã eu dizia que as palavras que Beethoven quis colocar no seu último trabalho eram palavras fortes. Mas se ele não tivesse colocado palavras, o sentido estaria aí, seria nossa tarefa sentir isso. Será que é preciso aceitar ou se revoltar? Essa é a contradição. Todas as grandes obras colocam essa questão. Dostoiévski, por exemplo, é um ser que vive uma contradição incrível entre a fé e a dúvida. Sim, ele é crente, mas ao mesmo tempo questiona sobre como podemos justificar o sofrimento de uma criança. Ele escreve isso em “O Idiota” e nos “Irmãos Karamazov”. É essa a pergunta que tortura a alma dele, que faz com que haja uma falha na sua fé. Nas grandes obras, há sempre uma maneira de pensar que permite ver o mundo em maior profundidade e que faz parte da poética. Porque a poesia não é apenas o gozo, a embriaguez. A poesia é também a profundidade. A prosa é o nível plano, o aborrecimento, mas a poesia pode causar angústia. Filmes que dão emoções muito fortes, emoções de dor no prazer, que muitas pessoas experimentam quando veem, por exemplo, filmes de Clint Eastwood. O último filme de Clint Eastwood, que é “O condenado” ou “O culpado”, alguma coisa assim, em que um jornalista tenta provar que um negro, que foi condenado à morte por ter matado uma balconista em um supermercado, é inocente. Ele não tem a prova, mas, por intuição, sabe que ele é inocente. E o julgamento sobrevirá, a condenação talvez venha e, no suspense dos filmes americanos, finalmente, a prova aparece: era a mãe do suposto assassino, que tinha roubado o colar da balconista. Quando ele consegue levar a mulher a confessar, nos minutos finais do julgamento, antes da execução por uma droga letal, as pessoas dizem: “Como sempre, nos filmes americanos, alguém vai chegar a tempo, antes do último segundo. Vai dar tudo certo e o inocente será salvo”. Eles chegam atrasados, infelizmente, e o inocente é condenado e morto. Só depois aparece a prova factível, cabal. Isso gera uma angústia incrível, mas ao mesmo tempo é bonito. Essa é a poesia da vida: viver a profundidade, as tragédias. Eu penso que o ensinamento da arte deve ser não tão formal, simplesmente algo que permite uma abertura para o universo. O universo literário, musical, da pintura, o universo das artes nos remete a um estado secundário, um estado de beleza. O que a gente chama primeiro estado, o normal, o normótipo, em que a gente pensa em ficar acordadinho, na verdade é um estado em que vivemos como sonâmbulos, pois fazemos grandes coisas no piloto automático. Quando estamos no segundo estado, que aparentemente pode ser considerado um transe, uma hipnose, como por exemplo no cinema, em que a gente não está totalmente adormecida, mas em uma situação quase hipnótica, na verdade, despertamos para o nosso foro íntimo, despertamos perante nós mesmos, o que é a consciência e a complexidade humana, a poética da vida. Eu penso que o papel da educação, da literatura e das artes é algo muito importante.

Tinha uma outra pergunta que alguém fez sobre “O Mal-estar na Civilização”, essa bela obra de Freud. Freud dizia que a civilização tem algum elemento de pacificação que cria condições de vidas aprazíveis. A civilização acaba empurrando a agressividade humana para a frente, mas essa coisa toda que é estagnada, guardada, não trabalhada, fica como se houvesse um gás tóxico que se torna um poderoso explosivo, e o excesso de civilidade acaba despertando a agressividade. Isso me faz lembrar de outro filme que nesse momento está sendo transmitido em um canal da TV brasileira e que vi há muitos anos, o Zardoz. Era a história de uma civilização tão evoluída que todas as personagens se tornaram imortais, se aborrecem terrivelmente, até que chega um bárbaro e vai despertar toda a turma. Isso é um pouco a tese de Freud. A meu ver, essa tese tem seu elemento de verdade. É verdade que foi importante porque Freud escreveu isso no início dos anos 1930, antes da explosão do nazismo e da guerra. Depois, quando todos os fenômenos de barbárie foram inseridos na civilização, porque é preciso lembrar que a Alemanha era o país mais civilizado da Europa, senão do mundo, dotado das mais importantes culturas, filósofos, poetas, músicos; esse país é aquele que vai abrigar a barbárie. Então, pensamos também que Freud tinha razão em algumas das coisas que ele levantava. Mas acho que isso era apenas um dos aspectos das coisas. Se o nazismo chegou ao poder é porque havia duas razões que não eram puramente devidas à civilização. Uma é que, por um lado, houve uma crise econômica brutal, violenta, que acabou tocando e atingindo a Alemanha ainda mais do que outros países, criando muito mais desemprego e perturbações sociais do que em qualquer outro país. E finalmente, nessas condições, o fato de a Alemanha ter sido humilhada por ter sido vencida na Primeira Guerra Mundial e por termos tirado do território alemão outras nações que eram parte das nações vencedoras. Essa humilhação nacional foi um fermento que acabou fazendo com que o nazismo chegasse ao poder. Na mesma época, os Estados Unidos enfrentaram uma grande crise e a solução não foi pela violência, como foi na Alemanha, mas por Roosevelt e seu pacto, o New Deal, uma maneira social e democrática de lidar com as coisas. Então, a meu ver, a tese de Freud tem suas limitações.

Uma vez posto isso, penso que há um outro mal-estar da nossa civilização, diria que há um mal-estar no bem-estar. Por mais que tenhamos, em um país desenvolvido como a França, os bens materiais disponíveis, o consumo, comodidades mil, há uma insatisfação profunda. O individualismo mostra suas limitações, que estão na solidão.

E não apenas nisso, pois na autonomia individual há o peso de toda uma série de restrições, de burocracia, de proibições, e o dinheiro que tem que ser ganho. De certa forma, a nossa civilização tem a sua nova doença, muito profunda, que hoje, de certa forma, acaba causando um problema muito grande.

Outro aspecto não tão importante, mas que é uma espécie de efeito colateral, é o consumo. Muitos disseram que há um caráter quase hipnótico-compulsivo do consumo, principalmente nos grandes hipermercados. As pessoas vão com seus carrinhos e todo mundo fica, de repente, fascinado por um, dois, três, quatro produtos. Quando Marx dizia que nós não criamos apenas um objeto para o sujeito, mas um sujeito em prol do objeto, criamos apenas um consumidor para a produção. Era isso que Marx dizia: criamos esse espírito consumista para consumir a produção. Muitas vezes são coisas maravilhosas, úteis, como geladeiras e carros. É maravilhoso ter dois carros numa família. Três já é um excesso. Há a questão da primazia do quantitativo sobre o aspecto qualitativo, porque as pessoas buscam rentabilidade, competição e tudo mais. Então, começamos a ter uma degradação de qualidade horrorosa, que se manifesta já na alimentação. Por exemplo, na Europa, a vaca louca acontece porque a vaca foi alimentada por farinhas de origem horrorosa. Nós temos também o caso dos frangos que são alimentados com imundícies, com coisas horripilantes. Tem uma série de problemas. O propósito seria mudar a perspectiva e dizer: menos, mas melhor. Talvez a qualidade deva ser mais importante. Quando isso acontece, a poesia volta a tomar o seu lugar. Após uma boa refeição entre amigos, em que se degusta um vinho delicioso, você tem o prazer e essa alegria de compartilhar que não se consegue quando se vai comer hambúrguer no McDonald´s. É evidente que o fast-food é muito pior. A qualidade dos alimentos acaba repercutindo em seu ser e contribui para a sua poesia, a poesia da vida. Tudo isso para dizer que a questão da qualidade poética da vida é um problema muito importante, não somente de origem existencial para cada um, mas que tem um caráter coletivo e social, político, e que também tem aspectos econômicos. É um tema que deveria compor algo que eu não vou poder falar a respeito, mas que eu falei em um livro, que seria uma política de civilização. Uma política que tente remediar as desfeitas, a degradação da nossa civilização. Ontem, fiz alusão a alguns outros aspectos da degradação e decomposição do tecido social que os fenômenos de violência e delinquência. Isso para responder à questão da poesia.

Maquiavel, os meios e os fins. Eu disse que era uma questão complexa. Em uma lógica simplista, temos meios que são utilizados para se chegar a um fim, mas se a finalidade não retroceder sobre os meios, se os valores dos fins não estiverem contidos nos meios, haverá uma alteração e, finalmente, serão os fins que estarão a serviço dos meios. Por exemplo, no comunismo soviético, o fim que era a sociedade sem classes, a liberdade para todos, tornou-se um meio de propaganda de convicção e de ilusão para justificar os novos fins secretos e misteriosos do sistema, que eram o da manutenção do totalitarismo, que no início era apenas um meio, e a ditadura do proletariado. Mas essa questão não é simples, ela foi colocada numa das perguntas formuladas quanto à política e a ética. A ética deve estar a serviço da política. Por exemplo, o bem-estar, o melhor estar, a liberdade, a fraternidade, uma boa sociedade, isso é a boa ética. Os gregos faziam uma reflexão sobre o que seria uma boa sociedade: uma boa sociedade tem uma política que reflete o seu Estado. Nós sabemos que a política deve estar a serviço da ética. Servir-se de métodos não estritamente éticos, aí é que reside o perigo, porque os que defendem os métodos que não são éticos dirão: “Bem, é preciso que sejamos realistas”. Realista significa adaptar-se ao estado comum das coisas e esquecer esse exemplo que eu falava para vocês e que aconteceu comigo. Eu tenho que aceitar o fracasso, a situação, a ditadura. O que fazer? Não podemos fazer nada. Nesse momento, a adaptação serve à ditadura, aos meios de opressão. A política não é apenas uma adaptação ao estado das coisas, mas também não pode ser totalmente surrealista ou irreal. Vamos a exemplos concretos. No caso da China, restou ainda uma estrutura ditatorial, semitotalitária pelo menos. As pessoas que são dissidentes continuam sendo presas. Muitas vezes, os representantes de países como a França, os Estados Unidos, a Inglaterra ou outros, quando negociam com chineses, sabem que há a questão pendente dos dissidentes ou a questão do Tibete, por exemplo. E os chineses imediatamente dizem: “Não. A vossa concepção de liberdade não é a nossa, vocês não têm nada que se meter nos nossos assuntos”. Um ministro de Negócios Estrangeiros chinês me disse isso porque eu tomei a liberdade de fazer algumas perguntas quando fui a Pequim e questionei sobre o Tibete. Ele falou: “O Tibete era chinês, mas a Bretanha não era francesa”. E acabou. Fim da discussão. Ok, o Tibete podia ser território chinês, mas ele era tibetano. Frente a tal caso, será que os países poderosos, economicamente desenvolvidos, romperam relações diplomáticas com a China por causa disso? Não romperam. Deveriam ter rompido? Não sei. Em certos casos, poderia haver uma maneira mais sinuosa de se chegar a democratizar a China e que não deve ser muito brutal. Às vezes, quando a gente toma uma atitude de bloqueio, acabamos reforçando a ditadura. Eu pessoalmente penso que, por exemplo, no bloqueio imposto ao Iraque, não é o Saddan Hussein que sofre por esse bloqueio, mas milhões de crianças, a população é que sofre. Enfraquece o quê? As reservas quanto ao potencial petrolífero, mas não mais que isso. O bloqueio imputado à Cuba apenas reforçou o poder de Fidel e contribuiu para isso. Afinal, que meio utilizar? No fundo, na política há uma série de razões pragmáticas não muito corretas, limpas, para se chegar a determinado resultado. Se nós perdemos a ética, é claro que a política fica totalmente degradada. Então, ela quer ser dialógica, um diálogo permanente entre os meios realistas, concretos, que têm que ser utilizados, e os meios éticos. Não é possível ter uma política sempre limpa, superlimpa. É impossível. Mas também não podemos aceitar uma totalmente degradada para falar bem amplamente.

Quanto ao Brasil. Eu diria que o Brasil é um caso particular de um problema mais amplo. Problemas de corrupção, superficialidade dos meios de comunicação e tudo que vocês falaram, isso também acontece na França e na Itália, e também, mas com matizes diferentes, nos Estados Unidos. Mas no Brasil o elemento que marca é essa situação bipolarizada: de um lado, um desenvolvimento técnico poderoso, civilizacional, em regiões como São Paulo, que está encabeçando muitas cidades no mundo quanto ao desenvolvimento técnico-industrial, e onde já tem problemas de civilização de Primeiro Mundo, de países desenvolvidos; por outro lado, a miséria, a pobreza do Nordeste, que é permanente e não para de se agravar. Isso para não citar a Amazônia, a floresta em extinção, os índios. O Brasil tem, por um lado, que tratar de regular e cuidar da civilização, que é desenvolvida em certas regiões, mas ao mesmo tempo, cobrir um buraco, uma lacuna no desenvolvimento subdesenvolvido. É muito difícil. Sem falar na corrupção, que é parte da ação política, o sentido da finalidade. Nós vivemos o dia a dia e tomamos medidas todos os dias. Então, nós perdemos o pensamento quanto à transformação do mundo e da sociedade. Nesse caso, também há um problema de regeneração, de solidariedade, de ética, ambas ligadas e às vezes dependentes de iniciativas locais. Eu não conheço tão bem assim o Brasil, mas na Argentina, onde estive recentemente, há muitas iniciativas de solidariedade na província de Buenos Aires. Pessoas desempregadas criaram um sistema de troca que permite que um preste um serviço ao outro de maneira a fazer a economia ressurgir. Em várias partes do mundo, nós estamos tentando ter moedas paralelas que não sejam a moeda que impera. Todas são iniciativas para tratar de regenerar a solidariedade. São iniciativas isoladas, que não são reconhecidas e que não conseguiram se juntar em uma ideia política global que fosse pensada e desejada por um partido que está no poder. Na história da humanidade é sempre assim. Ao longo da História, temos grandes problemas, quando vivemos como agora o final do século, muitas das soluções se transformam em problemas. Pensávamos que a ciência e a técnica fossem soluções e agora são problemas. Com a democracia é a mesma coisa. Tal e tal metodologia para abordar a questão social eram boas e agora não são mais. Há cinco anos havia a ideia de que o liberalismo econômico, que o mercado ia ser o grande regulador de tudo. Ele regula algumas questões, mas aí se colocam problemas de ordem imensa, dantesca. Na organização econômica, nós sabemos que essa economia burocratizada de Estado programado foi à falência, que tudo isso já faliu. É incapaz, exceto no escopo militar. Isso é o que nós podemos extrair da experiência da União Soviética, da China e de tudo o que era a antiga economia de Estados burocráticos face à abertura de mercado. Hoje a abertura de mercado está cada vez mais nos mostrando seus limites e até mesmo catástrofes desconhecidas. A gente não sabe.

Então, temos que buscar aquilo que há tempos buscamos e não encontramos, isto é, o terceiro caminho. Não o de Tony Blair, mas a terceira via, que integraria o mercado de tal forma que a economia estivesse a serviço do conjunto dos cidadãos, das sociedades. Quando discutimos esse problema, inicialmente temos que mostrar que são problemas, na dificuldade que eles implicam e as soluções possíveis, mas que são difíceis. Se alguém virar para você e disser: “Me tira do bolso uma solução mágica”. Alguém tem essa solução? É um impostor, obviamente. Se falamos de esperança, eu não fico vendendo esperanças, vendo resistência. Dito isto, o Brasil, na sua maneira particular, se confronta com problemas imensos. É preciso um investimento intelectual, é preciso refletir, reformular o pensamento para definir o problema corretamente. Porque de uma coisa estou certo: se vivemos da mesma maneira de pensar – fragmentária e separada – não podemos ver o todo. Uns verão a questão econômica, outros a social, outros a psicológica e assim por diante. Então, é necessária uma reformulação do pensamento que implique em uma reforma do ensino. Finalmente, as pessoas diriam: “Mas por onde começar? ” A gente começa pelo começo, isso é inevitável. E isso está na história. Quando se pergunta: como esses movimentos imensos cresceram? De onde surgiu o cristianismo, o islamismo e o socialismo? De onde apareceram? Jesus tinha seus doze discípulos, era um grupelho entre outros grupos judeus, havia os zelotes, os saduceus, fariseus, os essênios, que eram pequenos grupos, e ele era apenas mais um. Foram necessários dois séculos para que o cristianismo conseguisse incubar o seu germe de maneira subterrânea no Império Romano, que depois eclodiu como um vírus em todos os cantos. Mas foi favorecido pela mãe de um imperador (Justiniano), isso foi uma sorte, e foi reconhecido como uma religião de Estado. Quando chegou a esse nível, o cristianismo interditou e suprimiu as demais religiões.

Vocês veem como um movimento universal começa de maneira obscura e modesta no caso de Maomé. Ele foi perseguido, a sua mensagem quase foi extinta, mas ele conseguiu converter um povo guerreiro de cavaleiros e aí o islamismo chegou a todos os pontos, ao Leste, ao Oeste, à África, à Europa. Os primórdios do socialismo foram muitos, no século XIX, com alguns pensadores como Proudhon, Fourier, além de Marx. Eles refletem sobre a sociedade, afinal, o que é, como organizá-la. Uns são autoritários, são os pais do socialismo ditatorial. Outros são libertários, os pais dessa outra vertente. Mas foi preciso aguardar o fim do século XIX para que nascesse o primeiro partido Social Democrata alemão.

No século XX, depois das grandes crises, como a crise de 1914, há duas vias que se separam e sobrevêm a fracassos e êxitos. A nossa época é, de novo, uma época de reinício. Diáspora é o que vivemos, pequenos grupos esparsos. Nietzsche dizia: “No início, as ideias progridem como patas de pássaros, de uma pomba, isto é, silenciosa e discretamente”. Essa é a época em que vivemos. “I am sorry about this”, não temos como escapar disso. É um apelo para que agarremos os problemas pelas mãos.

Penso que não tem que se ficar desencorajado, mas é preciso repensar o mundo, agir novamente. Alguém me falou: “Mas como ter esperança? ” Antes de mais nada, quero deixar isso bem claro: não é preciso querer vender esperança. A esperança brota e nasce de si mesma através do exercício das forças vitais. Viver é projetar-se, lançar-se para o futuro. Ter um filho é produzir esperança. Há uma tragédia maravilhosa de um grande poeta húngaro do século passado, “A Tragédia Humana”. É uma série de quadros, a primeira tela é de Adão e Eva no paraíso. Aí eles comem a maçã, fim do primeiro quadro. Expulsão. Depois vêm a Semíramis, Cleópatra, e tudo começa bem, depois acaba mal. Há “n” capítulos na História que começam maravilhosamente e acabam de maneira desastrosa. Napoleão é outro. Chega-se ao ano 3.000, uma época em que o Sol já se resfriou, a Terra está gelada, coberta de gelo. Sobrou uma cabaninha de gelo, um iglu onde vive um casal de esquimós. A mulher está grávida e dá à luz. O pai e a mãe sorriem um para o outro e eis que a esperança renasce. Eu penso que é preciso ter esperança no desespero. Não é esperar a qualquer custo, mas nada, jamais, está 100% decidido. Tomando outros exemplos históricos, quando você se vê em determinada situação, desesperançoso aparentemente, como no caso da França em 1940, qual era a esperança? Mas alguns ainda pensavam e tinham esperança, a despeito de todas as coisas. Finalmente, os fatos levaram a que o improvável acontecesse. O provável era que os nazistas vencessem, mas o improvável surgiu. E o mais belo exemplo histórico nesse campo aconteceu cinco séculos antes de Cristo, quando uma armada persa gigantesca ataca as pequenas cidades gregas de Atenas e Esparta. São pequenos burgos, os gregos estão perdidos, as cidades gregas provavelmente serão destruídas. Houve duas guerras e por duas vezes os gregos conseguiram vencer e fazer o inimigo retroceder com vitórias, como a da guerra naval de Salamina. Foi graças a uma estratégia brilhante. E houve outras batalhas, como a de Termópilas, onde 600 resistem a uma armada de dois milhões de persas. E fizeram um desfile. Eles conseguiram durar três dias, o tempo necessário para organizar a resistência. Então, o improvável aconteceu, as cidades gregas sobreviveram e graças a esse fato a democracia pôde nascer, pela primeira vez na História, em Atenas. E pela primeira vez na História a filosofia tornou-se capaz de se desenvolver. E o que é a filosofia? É uma “região” em que não há sanção entre adição e punição quando ideias opostas são colocadas. Não há extermínio físico de um oponente. Em situações em que a probabilidade é extremamente negativa, sempre há uma possibilidade improvável. O que diz a teoria das probabilidades hoje em dia? Que as armas atômicas estão se multiplicando e que o perigo atômico cresce. O Paquistão e a Índia, por exemplo, e o Oriente Médio. Tem 200 armas nucleares em Israel. Todos querem sua bomba, é um regime de tensão. O perigo ecológico cresce, não deixou de crescer, apesar da Conferência do Rio, há uns anos atrás. Isso é o provável. Porém, o improvável sempre existe e a esperança é agir no sentido do improvável.

Uma coisa importante a citar (vai ser muito difícil traduzir isso em português porque é uma rima entre a consumação e o consumo). O consumo é um fenômeno mercadológico, prosaico, como compras no supermercado. A consumação, que é algo que queima, é o fogo intenso que arde dentro de nós. É o fogo de quando há uma festa, uma celebração, de quando temos grandes refeições, bodas de casamento ou de prata. A consumação é poética. Não podemos viver na consumação 100% do tempo, mas é evidente que uma vida sem gastos, sem desperdício e sem destruição não é concebível.

Eu não sei se vocês entenderam bem, mas uma das perguntas dizia que falei do casamento como um câncer.  Nunca falei isso. Atenção. Disse que era a incompreensão, a falta de compreensão que se colocava no seio do casamento como um câncer. Essa que é a verdadeira doença. E mais: o mundo individualista, que deveria favorecer o entendimento, ao contrário, promove a incompreensão. Por exemplo, antigamente, obedecíamos tão perfeitamente à autoridade do pai de família que nem sequer pensávamos em nos revoltar. Por exemplo, o que o meu pai decidia? Meu pai queria ter sido médico e o pai dele virou para ele e falou: “Não, eu não tenho como sustentar estudos de medicina. Você terá que partir para o comércio”. Meu pai obedeceu, e nunca odiou o meu avô por causa disso. Já duas gerações mais tarde, hoje em dia, está assim: “Por que meu pai me proibiu? ” O filho não entende o pai e o pai não entende o filho. Quanto mais autônomos nos tornamos, menos entendemos as coisas que se opõem aos nossos desejos, anseios e aspirações. Por isso que é tão importante que o entendimento seja uma pérola que se desenvolva.

A ética, o existencialismo, a intersubjetividade e Sartre. Ele teve grandes ideias. Parece-me que nesse campo sempre há um conflito entre concepções do ser humano, quando sua própria concepção contrasta com a concepção dos outros e se torna uma negação do si mesmo, do ser interior. É o que Sartre diz com “o inferno são os outros”. Mas há outras concepções que dizem que a necessidade do outro, que a existência do outro é imperativa para que eu mesmo seja. Eu não acho que haja muito a falar a esse respeito, mas o outro é necessário, ele é fundamental para nós mesmos. Isso é algo em que acredito piamente. Então, bem entendido que o problema da intersubjetividade é fundamental. Se a gente não entender o que são os seres humanos afinal, a intersubjetividade pode ser uma intersubjetividade repleta de concorrência, rivalidade, falta de entendimento. Mas é ela também que permite o desenvolvimento dos afetos, da amizade. E é isso que se deveria buscar desenvolver: a ética da compreensão.

Ética relativa “versus” ética universal? Eu diria ambas. Por quê? Porque no fundo a ética universal foi formulada nas grandes religiões universalistas. Vocês notarão que, em princípio, religiões como o cristianismo, o islamismo, o budismo, todas se endereçam a todos os seres humanos, quaisquer que sejam as raças, as nacionalidades, as identidades, enfim. A mensagem das grandes religiões, que são mensagens de fraternidade, de compaixão e amor, são mensagens de natureza universalista. O humanismo é de uma ética universalista. O humanismo, enquanto ética, significa que todo ser humano, não importa quem seja ele, a raça, o sexo a que pertença, sua religião, depende dele. Ele tem igual valor e dignidade e, portanto, merece igual respeito. Poderíamos dizer que o humanismo é uma forma laica de uma ética universalista que nasceu no seio do universo religioso. Em Terêncio, que já data de dois mil anos – “eu sou um homem e nada do que acontece à minha volta me é estranho” –, há um universalismo ético incontestável e que hoje, cada vez mais, deveria ter peso e importância nessa era da globalização. Amanhã, eu vou falar mais sobre isso. Mas há também éticas que são relativas a determinados modos de organização social. Por exemplo, o caso das tribos, uma organização em que a justiça não é exercida por um Estado soberano que domina, que governa toda a sociedade, mas em que cada tribo deve zelar pela justiça. E a regra de cada tribo é a regra de Talião, a regra da vingança, mas que também pode ser a regra do perdão e da humanidade. Mas não é isso que se vê no caso dos nômades. Então, a ética é relativa. Quando eu falava dos beduínos, há muitas outras éticas em países do Mediterrâneo, como na Córsega ou na Sicília, na Grécia, nos Balcãs. A ideia é relativa, fechada. É preciso ir além dela. Há também crenças que são relacionadas a uma fé social religiosa. E é claro que é preciso também respeitar as éticas singulares, particulares, mas com a condição de que possam estar inseridas em uma ética mais universal. Deveremos considerar que elas até façam parte da ética da universalidade, até mesmo, por exemplo, a hospitalidade, como no caso dos beduínos. É por isso que eu citei a frase de Kant, em que ele dizia que a Terra está mais estreita e que por isso nós temos o direito de promulgar a hospitalidade para todos os seres humanos. Essa é a questão da universalidade e da ética. Parece-me que terminamos hoje. Penso que não podemos vender esperanças, repito, como se estivéssemos vendendo qualquer coisa em uma prateleira de supermercado. Não é uma mercadoria. A esperança pode ser encontrada em si mesmo, na vontade, na credulidade ética, e posso não temer afirmar isso.

Obrigado.

 
Terceiro Dia 
São Roque, 26 de Agosto de 1999 
Seminário: Cultura e Sociedade: A Era Planetária e as Duas Mundializações - O Testamento do Século XX    
Conclusão: Reforma do Pensamento e Reforma da Educação
 
Edgar Morin 
 
Vamos começar nosso terceiro e último encontro. Comecei a me habituar com esses encontros e pensei que pudéssemos continuar por mais um ou dois meses, mas enfim, vamos terminar hoje falando sobre a era planetária. Aliás, acho que precisamos chamar de era planetária, o que os livros de História chamam de tempos modernos. Em geral, nos livros de História europeia (não sei se é a mesma coisa aqui), os tempos modernos começam com a queda de Bizâncio, em 1453, para marcar, de alguma forma, a ruptura com a antiguidade. Na minha opinião, os tempos modernos começam verdadeiramente com o desenvolvimento técnico-econômico da Europa Ocidental, que levou à conquista da América nas viagens em torno do mundo e que fez começar a era planetária. Em outras palavras, a partir da comunicação de todos os continentes do planeta, já que alguns deles não tinham praticamente nenhuma comunicação, como os dois continentes americanos, a Ásia e a África de um lado e a Europa de outro. Também, é necessário dizer que as comunicações eram muito restritas entre os mundos chinês e indiano e o resto do mundo, a começar pela Europa. Houve a conquista de Alexandre, O Grande, que foi até a Índia, depois teve a rota da seda, a rota desse comércio que atravessava os desertos da Ásia para que a Europa pudesse importar a seda. A era planetária começa nessa época, pois é a época em que Copérnico descobriu que a Terra é um planeta e que não é o centro do universo. É um planeta, um satélite do sistema solar. O que é interessante é que a palavra grega “planeta” quer dizer astro errante. Evidentemente, a Terra não é um astro errante porque ela gira em torno dela mesma de modo regular e também em volta do Sol. Mas, se vocês considerarem a história da Terra, ou seja, o aparecimento da vida, a multiplicação da vida, os cataclismos ecológicos e a história da humanidade, podemos dizer que a história da Terra é a história de um astro errante, perdido, uma aventura incerta. Nós sempre estamos errando. Antes da era planetária, houve a história da humanidade como diáspora planetária, que deve ter começado talvez há 100 mil anos. Se as hipóteses dos estudiosos da pré-história estão certas, nossa espécie, chamada de “homo sapiens”, surgiu na África e de lá as populações humanas se dispersaram nos diferentes continentes, o que era muito fácil da África para a Europa e para a Ásia, através do antigo istmo de Suez, e naquela época ainda havia comunicação por terra entre a Ásia e a América. É uma história muito interessante. Através dessa dispersão se constitui a diversidade humana. Eu disse ontem que é certo que todos os humanos têm uma mesma estrutura de linguagem, uma estrutura de dupla articulação, mas é evidente que as línguas são de uma diversidade infinita. Criou-se um número incrível de línguas e, hoje em dia, a grande maioria desapareceu, com o extermínio dos povos que falavam essas línguas ou sua integração em populações nacionais muito mais vastos. É nesse período que há uma enorme variedade de línguas, crenças e se constitui a diversidade humana.

Depois dessa época da diáspora planetária da humanidade, oito a dez mil anos antes de nós, surgem as civilizações históricas em alguns pontos do globo, uma coisa totalmente nova. Não são mais sociedades pequenas, sem Estado, sem agricultura, sem classes sociais, mas sociedades com Estado, com cidades, com campo, com agricultura, com classes sociais, com escravidão, com religião, com o que chamamos de civilização que, como vocês sabem, comporta a sua parte de barbárie, pois também comporta guerra e opressão. Isso aparece no Oriente Médio com certas civilizações que duraram muito tempo, como a egípcia, a síria. Isso também se manifesta na bacia do Indo, na Índia e na China, as mais antigas civilizações conhecidas no mundo, com mais de cinco mil anos. Isso também se manifestou no México e no Peru, com o Império Asteca e o Império Inca. Mas essas grandes civilizações, esses grandes impérios, entretanto, ficaram isolados uns dos outros. Mesmo na América, não havia comunicação entre o Império Asteca e o Império Inca. Havia um fechamento relativo e o que é bastante curioso é que no final do século XV, antes da era planetária, antes da conquista do mundo pelo ocidente europeu, a China dos Ming é muito mais rica, muito mais potente, muito mais desenvolvida. Foi a época em que foi inventada a imprensa, descoberta a pólvora, que servia de munição para os canhões, uma série de técnicas. A Índia mongol é muito mais florescente do que as potências ocidentais. Na Europa, o Império Otomano, que englobava a Hungria, a antiga Iugoslávia, a Grécia, a Bulgária, uma grande parte da Europa e uma grande parte da Ásia e da África, é uma enorme potência. Por duas vezes, os turcos chegaram às portas de Viena, no século XVI e no século XVII. A capital que hoje em dia se transformou no Peru atual, Cuzco, a capital do Império Inca, tinha uma população muito maior do que Paris, Madri, Londres e Lisboa. É um verdadeiro paradoxo histórico que faz com que pequenas nações tenham podido dispor da bússola, que havia sido inventada pelos chineses, quando chegam na rota do Atlântico, e também das armas de fogo, que até então eram totalmente desconhecidas pelos incas e astecas, assim como o cavalo, que acabará aterrorizando os Estados Unidos como também outras regiões. Enfim, toda essa era planetária se constitui pela conquista e destruição de civilizações. Seria interessante ler Garsens King (?), quando ele escreve sobre a história da América Latina e o colapso histórico que foi a destruição dessas civilizações da Ameríndia.

Por que então dizer era planetária? Porque a primeira unificação do planeta é microbiana, porque o micróbio da gripe, do herpes, da tuberculose se difunde nas Américas e acaba causando desastres maiores do que os massacres que os brutais colonizadores impingem aos povos dominados. Já a sífilis deixa a América, chega na França e Itália, é chamada na Itália de mal francês e depois tentam chamá-la de mal italiano, até que chega às portas de Xangai. Aí está a unificação microbiana. Em seguida, há uma troca de vegetais e animais, que há tempos havia sido iniciada entre a Ásia e a Europa, já que há muitas árvores frutíferas, como as cerejeiras, que haviam sido trazidas da China, ou as galinhas que foram trazidas da Índia. Batata, tomate e milho também vieram de lá e foram integrados à Europa. Os mediterrâneos acreditam piamente que o tomate é de origem mediterrânea, mas não é, é originário da América. Em seguida, tivemos o gado bovino, os cereais, o trigo e até outras plantas tropicais que chegam à América. São eles [sic] que trazem o arroz, assim como o café, que era de origem das Arábias, e a cana-de-açúcar, que é quase uma especialidade brasileira. Essa é a primeira unificação. Marx dizia que a História sempre progrediu pelo pior lado, referindo-se ao século passado. Se estendermos sua fórmula, ela pode chegar até o fim do século XX e nem sequer sei se ela avança até hoje ou se tudo não passa de uma grande regressão. Mas, enfim, o colonialismo, a escravatura, tudo isso desaparece no século XX para serem substituídos por outras formas de dominação, porque a planetarização é antes de mais nada uma ocidentalização, com as técnicas e as armas ocidentais se expandindo por todos os lados. O sistema político inventado na Europa Ocidental é o Estado-Nação, que irá se implantar por todos os lados. Muitos europeus irão migrar para a América. Há muitos fluxos migratórios, na Malásia, China, Indonésia, África do Sul. São movimentos planetários que acabam trazendo alguma coisa da diversidade que se expande, ou seja, há uma mescla que começa. O mestiço no Brasil é um exemplo maravilhoso de miscigenação. Há muitas regiões em que a miscigenação não apenas se concluiu, como no Peru, por exemplo. Mas há processos de miscigenação não apenas étnicos, mas também culturais, com novas artes sendo criadas, música latino-americana, música indígena, música africana, que chegaram no período da colonização. São processos ambivalentes.

Há uma aceleração histórica dessa planetarização e o século XX conhece um fenômeno típico de duas guerras mundiais. Nunca antes havia acontecido um fenômeno dessa natureza. Há uma guerra europeia, uma guerra que inclui todos os países da Europa e, finalmente, vai atrelar os Estados Unidos, o Japão e até um certo número de países da América Latina, sem falar das colônias do norte da África, sobretudo em relação ao exército francês. A Segunda Guerra Mundial é ainda mais globalizada do que a primeira. Por quê? Porque dessa vez o Japão, ao atacar os Estados Unidos, que já havia atacado a China, acaba penetrando na Indochina, Indonésia e chega quase às portas da Austrália, que acaba se vendo envolvida na guerra. Há também as crises mundiais, como a de 1929, que começa em Wall Street com o crack da Bolsa, se expande por todo o mundo e acaba sendo uma das causas da Segunda Guerra Mundial que, como já havia dito, afetou profundamente a Alemanha democrática de então e gerou a tomada do poder pelo Partido Nacional Socialista de Hitler. A seguir, há a intensificação das comunicações, a aviação tem um período de desenvolvimento profundo e se transforma em um meio de transporte a partir de 1930. Os correios podem fazer a ponte com a América Latina por via aérea e a era do jato acaba chegando também aos correios. As comunicações são totalmente transformadas, sobretudo pela televisão, que permite que possamos acompanhar instantaneamente, por exemplo, o assassinato de Kennedy. É preciso dizer, então, que em cada residência do mundo, a partir de 1960, foi possível ver o mundo todo através de imagens transmitidas via satélite, quando foram divulgadas as primeiras imagens do planeta inteiro transmitidas da Lua. Mas a comunicação não cria por si só o entendimento, ela permite que a compreensão ocorra, mas não a cria. Muitos processos de entendimento acabam se desenvolvendo em várias partes, a partir da Europa Ocidental, quando temos conhecimento de outros mundos, através do surgimento das traduções de diversas obras literárias. Diria que essa compreensão ainda é um pouco dispersa e minoritária. O mundo cada vez mais se torna um. Quando falava da relação entre as partes e o todo e do todo em relação às partes, falava que não apenas as partes estão compreendidas no todo, mas o todo está dentro, no âmago das partes. Não apenas a Europa, Ásia e América fazem parte do planeta Terra, mas estão presentes dentro de todos os indivíduos. O indivíduo em particular, sem que ele perceba, inclui tudo isso. Hoje de manhã, o que fez um europeu? Ele acordou, foi tomar seu café que chegou da Colômbia ou um chá importado do Ceilão, da Índia. Depois vai ligar o seu radinho “made in Japan” e ouvir as notícias que chegam de todos os lados do mundo. Veste uma blusa de lã fabricada na Índia ou no Egito. A lã talvez tenha sido importada da Austrália, mas foi manufaturada em Manchester. Ele pode decidir beber tequila, cachaça ou uísque e comer frutos considerados exóticos. Os asiáticos, os africanos, os sul-americanos, todos fazem parte de um circuito planetário, não de riqueza, mas de miséria. Por quê? Como são países produtores de matérias-primas e de produtos como o cacau, o café, o açúcar etc., eles também sofrem violentamente os contragolpes do mercado mundial. Durante muitos anos, o problema da baixa da taxa do café na Colômbia, por repercussão, incitou o desenvolvimento da plantação da coca, muito mais rentável nas condições atuais do que a do café. E ela mesma está ligada ao desenvolvimento de máfias planetarizadas. As populações agrárias que viviam sob um princípio de policultura, quer dizer, uma agricultura de autossuficiência que permite a cada família satisfazer suas necessidades fundamentais, são afastadas de suas cidades por processos vindos do Ocidente, o desenvolvimento da monocultura industrializada. Esses camponeses autossuficientes se tornam suburbanos e favelados. São produtos da planetarização. Eles bebem cerveja e coca-cola, usam camisetas, veem filmes americanos e telenovelas. E se tornam sujeitos de um Estado que se criou sob um modelo ocidental.

Como vocês podem ver, a mundialização, a globalização está onipresente em todo lugar, mesmo sendo subconsciente. Essa palavra globalização, que apareceu recentemente, é uma palavra tardia, porque na realidade a mundialização começou no século XVI. Essa palavra apareceu porque se tomou uma consciência muito forte desse fenômeno, após a queda do comunismo soviético e a crise das economias estatizadas, a queda do liberalismo econômico em todo o planeta com a extensão do mercado mundial. É nessa época que se fala de globalização, mas a globalização, repito, começou muito antes disso. Entretanto, essa globalização se manifesta de uma maneira mais intensa no período atual. Podemos dizer que essa globalização nos mostra todos os caracteres unificadores que ligam todos os homens do planeta, pois há uma outra característica da globalização de que é preciso falar, que no fundo é o fato de que a ameaça nuclear, o problema ecológico e a globalização econômica, o mercado, criam problemas de vida e morte para toda a humanidade. Criam, então, uma comunidade ligada pelo destino. A comunidade de destino quer dizer que a arma nuclear leva potencialmente em si o aniquilamento da humanidade. Imaginemos que uma guerra mundial comece em breve. Como um grande número de nações possui arma nuclear e pode se servir dela, seria um cataclismo absolutamente destruidor. A humanidade nunca tinha sido capaz de cometer suicídio. Mesmo os maiores massacres da história da humanidade nunca nos levaram a imaginar essa eventualidade. Essa é a ameaça de morte. 

A segunda é uma ameaça ecológica. Evidentemente, é muito difícil fazer previsões, mas um certo número de fenômenos de degradação se manifesta. Há um aquecimento da atmosfera que não vem de acidentes naturais, mas da intensificação da economia industrial que leva a processos incontroláveis como, por exemplo, o desflorestamento maciço na África e na Amazônia. A biosfera é um organismo que se autorregula. Essa é a maravilha da organização dos ecossistemas, pois existem processos de regulação espontânea. Mas nós podemos nos perguntar até quando ela vai poder se regular. Uma nova preocupação, que podemos chamar de princípio de precaução, começou a se impor a partir de grandes catástrofes ecológicas como Chernobil e algumas outras. Não sabemos exatamente qual será a importância da ameaça, mas é necessário tomar cuidado. 

A conferência do Rio de Janeiro e depois a de Tóquio tiveram muito poucos resultados, porque ainda estamos numa época em que, para que a consciência venha, é necessário estar à beira do desastre. Como dizia o poeta Hölderlin, quando o perigo aumenta, aumenta também o que salvar. Quando o perigo aumenta, existe também o aumento das possibilidades de lutar contra esse perigo, porque as pessoas começam a tomar consciência do perigo. Essa ameaça ecológica global cria uma comunidade de destino. Podemos dizer que os novos vírus, como o da Aids, que se expandiram em todo o globo, e velhas bactérias que achávamos que tinham sido extintas, como o bacilo de Koch, da tuberculose, tudo isso efetivamente cria problemas comuns, um destino comum a todos os humanos. Micróbios e vírus que acreditávamos ter vencido para sempre, não somente não estão liquidados como preparam novas ofensivas. A humanidade nunca destruirá esses inimigos, mas deverá combatê-los sempre.

Há também a questão das drogas com todas as máfias espalhadas pelo mundo. A droga acaba gerando uma pacificação, uma maneira de lidar com a angústia e diminuí-la. Ontem, essa questão foi levantada, como Freud havia já detectado. Mas é evidente que a angústia incentiva as pulsões de morte. Portanto, há problemas comuns e a questão do paradoxo. Por um lado, a unificação, um destino comum e, no entanto, a globalização, ao mesmo tempo, representa um processo conflitivo. A unificação técnica, econômica, ideológica vem da sua própria negação, que é uma balcanização do globo. Por quê? Porque, antes de mais nada, um dos processos da globalização foi a difusão da fórmula do Estado-Nação soberano, criada no século XX, graças à descolonização. Ou seja, quando o colonialismo foi eliminado, todos os pequenos Estados acabam se tornando independentes. Outras potências, como a Índia e a China, começam a tomar fôlego. Grandes impérios, como a ex-União Soviética, são destruídos e o império otomano continua se manifestando nessa guerra da Iugoslávia. Esse processo de balcanização é representativo e esses Estados-Nação soberanos são fortalecidos pela vontade de defender sua própria identidade, face a essa homogeneização. Chega a um ponto em que a gente se recusa a ver desaparecer aquilo que caracteriza a nossa própria cultura. Lembro-me de um estudo de comunidade que fiz em 1967: eram jovens da Bretanha que estavam preocupados em salvar sua língua, sua música, sua gastronomia e seus costumes. Foi uma resistência a essa homogeneização. Isso também se manifestou em muitos outros Estados, como, por exemplo, a Córsega em relação à França, a Catalunha em relação aos Países Baixos, a Escócia em relação à Inglaterra. Esses movimentos acabam tomando fôlego e vão crescendo em outras regiões do mundo.

Há ainda a crise do futuro. O que é isso? A ideologia do progresso acabou se tornando universal. Ela era diferente nos países ocidentais, quando dizíamos que estava vinculada ao desenvolvimento da democracia industrial. Ela estava ligada também ao desenvolvimento do capitalismo. Na União Soviética e na China, pensavam que o progresso viria do socialismo. Mas houve também nos países islâmicos muitos movimentos sociais, que acreditaram no progresso tecnológico e econômico de caráter emancipador. No Oriente Médio, muitos países que eram laicos se tornaram progressistas, mas muitas coisas fracassaram. Com a crise do socialismo e do comunismo, aquele futuro radiante prometido e seguro desaparece e, mais uma vez, estamos imersos na incerteza. Quando nos sentimos infelizes no presente, o que nos resta? A volta ao passado. Numa concepção progressista, o passado era desvalorizado, era considerado algo ruim. Mas, nessa nova concepção, que advém da crise do progresso, será preciso retomar os valores do passado para preservar a identidade. A volta ao fundamentalismo religioso é um exemplo. Nesse momento, não apenas há conflitos entre as nações, mas conflitos que acabam se tornando religiosos, como o caso da Índia e do Paquistão, o mundo islâmico e o mundo hindu. Eles incitam demasiadamente o fanatismo religioso em conflitos entre muçulmanos e cristãos, entre armênios e o Azerbaijão, entre Israel e os outros países do mundo árabe que, além de uma maioria muçulmana, têm uma população cristã. Há uma multiplicação de conflitos religiosos entre o norte e o sul, o leste, o oeste e até mesmo em zonas sísmicas no planeta, não na acepção da geologia, mas da sociologia. São zonas de grande perigo porque é onde se encontram essas culturas e religiões misturadas. Quando falo do Azerbaijão e todos os conflitos na Europa do Norte, a Rússia agora quer também combater o Paquistão e a região do Cáucaso e acaba chegando até o Oriente Médio, passando pela Iugoslávia. Na Argélia, o conflito entre os laicos e religiosos é também profundo. O mundo está cada vez mais conflitante, ao mesmo tempo em que está cada vez mais unificado. Quando a gente estuda os mapas de guerra na Europa, na África e na Ásia, podemos dizer que o desenvolvimento técnico criou muito mais problemas do que apresentou soluções. Basta citar a questão da ecologia, da biosfera em relação ao desenvolvimento técnico-econômico. O desenvolvimento conforme o modelo ocidental conduziu à crise da civilização ocidental. Tudo o que parecia trazer uma solução aos problemas do passado cria novos problemas de vida e civilização. Podemos dizer que o desenvolvimento no qual foram concebidos, os fatores econômicos e técnicos são considerados como locomotivas que vão levar automaticamente ao desenvolvimento social, moral e ético, mas o que vemos, ao contrário, é a degradação da solidariedade e o desenvolvimento do egoísmo, sob o efeito também da monetarização generalizada. Tudo pode ser pago em dinheiro e a parte das relações gratuitas na vida diminuiu.

Nós temos, então, esse grande paradoxo da era planetária: uma unificação e ao mesmo tempo os conflitos. Considerando o fato de que os Estados Unidos constituem hoje uma potência hegemônica no plano econômico e no plano militar, a guerra recente de Kosovo mostrou muitos progressos técnicos e militares dos Estados Unidos, também graças à informática e à telecomunicação, para poder atingir os objetivos. Mas se os Estados Unidos são incontestavelmente hegemônicos nessa área, não é verdade que controlam o planeta. O planeta de fato tornou-se policêntrico. A China é uma enorme potência. A Rússia atualmente é uma potência débil, fraca, mas poderia muito bem ter relações econômicas e se tornar uma potência de primeiro nível. Não vai ser mais a antiga União Soviética, mas vai ser uma potência considerável. A Europa lentamente se encaminha para a sua unidade, já conseguiu ter a moeda comum, o que é muito bom, mas ainda é muito pouco porque continua subordinada em várias áreas. Grandes potências da América Latina vão se desenvolver, a começar pelo Brasil. Em outras palavras, o mundo de fato se torna policêntrico. A hegemonia dos Estados Unidos sobre a América Latina não é mais tão forte quanto era há 30 ou 40 anos. Existe, então, um certo policentrismo. Não se sabe se os Estados Unidos vão conhecer sua própria crise ou não, mas de qualquer forma esse é o universo com um futuro muito difícil de ser previsto.

Falei antes dessa segunda globalização. O que é a segunda globalização? Ela está ligada à primeira, mas com uma imagem de positivo negativo, ou seja, com uma crítica à primeira globalização. A primeira foi o domínio colonial, técnico, econômico, que tende a homogeneizar o modelo ocidental. Essa segunda globalização está baseada no que é oposto ao domínio, ou seja, no respeito à diversidade humana e na ideia da unidade humana. Ela tem seus primórdios no século XVI, com a famosa controvérsia de Valladolid, na Espanha, quando houve um confronto teológico para dizer se os índios eram ou não seres humanos e se eram dotados de alma ou não. Quando eles foram catequizados à força, se colocou essa questão. Antes não havia sido levantada. Montaigne entendeu muito bem que há civilizações que têm seus próprios valores. Com que direito, então, acreditamos que somos superiores a outros povos? Essa capacidade de autocrítica em relação à racionalidade ocidental era a principal virtude da cultura europeia, ou seja, a partir de seu próprio ponto de vista, fazendo autocrítica, sendo capaz de admitir que há pontos de vista distintos do nosso. Montaigne era representante desse humanismo do século XVIII e as ideias dele serão ideias de dupla face. A primeira face, a meu ver, deve radicalmente ser abandonada, deixada de lado. É a ideia de que o homem toma o lugar de Deus e lhe é prometido tornar-se o mestre do universo, graças à sua ciência e técnica. Essa mensagem humanista, desde o início da ciência europeia, foi preconizada por Bacon e Descartes, que disseram que a ciência permitiria ao homem tornar-se o mestre capaz de dominar e possuir a natureza. Depois, foi retomada por outros como Marx e tornou-se uma ideia evidente ao mundo ocidental: o homem é o rei do universo, vai controlar e dominar a natureza. Bem entendido que essa ideia, hoje em dia, é ridícula do ponto de vista cósmico. Não faz muito tempo, durante o século XX, fomos capazes de aprender que o sistema solar não passa de uma pequena região de periferia de uma galáxia e que a via láctea, por sua vez, é totalmente periférica no universo. Nós sabemos que não é possível, a partir da via láctea, entender o que se passa no seio do universo. Assim, as plantas, os animais, os objetos, todas as coisas que vemos à nossa volta conduzem à degradação da biosfera, o que acabará implicando em nosso próprio suicídio. Um universo vivo não pode ser tratado como máquina artificial e então volto a essa ideia simples, porque a falsa racionalidade nos faz conceber tudo como objetos simples, capazes de serem manipulados, mecanizados e assim por diante. É graças a isso que perpetramos crimes irreparáveis. É evidente que é preciso considerar o fenômeno da vida como algo que não é banal, que não é trivial e é difícil traduzir esse conceito, porque não é da mesma ordem de banalidade que máquinas comuns, artificiais, que têm um propósito a cumprir. Esse humanismo de conquista e domínio em detrimento de um outro humanismo, que foi muito bem explicado quando, a partir do século XVIII, grandes filósofos do século das luzes, Diderot, Voltaire e outros, se ocupam do estudo disso tudo, dizendo efetivamente que todos os seres humanos têm direitos iguais [sic]. É preciso dar a todos os seres humanos os mesmos direitos. Esse princípio filosófico do século XVIII foi integrado na Declaração dos Direitos do Homem e foi a base da Revolução Francesa, ou seja, todos os seres humanos nascem livres e com direitos iguais. A todos é preciso que se dê respeito, liberdade e igualdade de direitos e essa ideia nasceu na França, no Ocidente. Ainda assim, porém, o grande colonizador não dava esses direitos aos povos dominados, pois eram “povos infantis, atrasados”. Por todos esses aspectos históricos e complexos que se colocam, o Estado francês, quando ensinava a língua francesa e os ideais da Revolução Francesa, como liberdade, igualdade e fraternidade, na Argélia ou em outros países colonizados, propagava as ideias humanistas como sendo um elemento fundamental dessa segunda globalização, que poderemos chamar de globalização humanista.

No século XIX, porém, vemos aparecer ideias muito importantes e, no século XX, surgem as ideias internacionalistas, ideias pelas quais haveria algo em comum a toda a humanidade e que deveria ser superior ao conceito das nações. É evidente que essas ideias internacionais passaram por crises profundas. A Segunda Internacional Socialista, que foi muito poderosa no início do século XX, quando o partido socialista alemão era muito forte, bem como o partido socialista francês, ambos não queriam a guerra, mas a partir do momento em que começou o conflito, as ideias internacionalistas se volatilizaram e os socialistas alemães e franceses, imediatamente se precipitaram a lutar contra o inimigo a favor da união sagrada da nação. Então, essas internacionais não foram fortes. Quando vem a Terceira Internacional, criada após a revolução soviética, ela ficou a serviço da União Soviética, muito mais do que a União Soviética a serviço da Terceira Internacional. Aí vem a quarta, que é a de Trotsky e que foi sempre uma corrente minoritária.

Abrindo um parêntese, poderia dizer que um dos buracos negros no pensamento marxista, que existiu no socialismo, foi a incapacidade de dar realidade à nação, porque Marx, com muita lucidez, tinha entendido a importância da luta de classes que, muitas vezes, vinha mascarada sob a imagem da união comunitária nacional. O que ele não tinha entendido era o quão forte essa ideia era. Ontem, tentei explicar um pouco isso, quando falava do aspecto mitológico da ideia da mãe pátria, uma substância paterna/materna que confraterniza as pessoas. Foi um marxista austríaco que descobriu e aplicou a ideia de nação, a ideia de comunidade de destino. É porque houve um destino comum no passado, instituições comuns, idiomas comuns e, finalmente, uma nação solidificada. Em outras palavras, o pensamento socialista como também o econômico-liberal foram cegos à realidade da nação. E é por isso que a Internacional acabou engolindo e absorvendo-os.  Se quisermos pensar o mundo em sua complexidade, temos que tentar entender o que é uma nação.

Victor Hugo era, por certo lado, muito lúcido porque, no meio do século XIX, formulava a ideia dos Estados Unidos do Mundo; não a supressão das nações, mas a confederação das nações. Há uma passagem magnífica de Victor Hugo, na qual ele diz que era preciso fazer os Estados Unidos da Europa, somente como um início para se fazer os Estados Unidos do Mundo. São palavras muito bonitas e que, na minha opinião, ainda permanecem no nosso horizonte. No século XX, o que parece importante é essa consciência da identidade planetária, da comunidade de destino e, nesses dois casos, uma cidadania terrestre. Por exemplo, temos as associações humanitárias como a dos Médicos Sem Fronteiras e muitas outras. São associações que, assim que acontece um desastre no mundo, como o terremoto na Turquia ou uma guerra, correm para socorrer os feridos, sem considerar nem sua nacionalidade nem sua religião. Isso, na minha opinião, constitui uma grande ruptura na ideologia do nosso século, pois durante muito tempo, até os anos 1970, dizia-se que era preciso ajudar os bons e negligenciar os inimigos. A primeira inovação dos Médicos Sem Fronteiras foi a intervenção em Biafra. Biafra foi uma província da Nigéria que se revoltou e foi selvagemente aniquilada. Não tinha nenhum interesse ideológico, nem comunismo, nem capitalismo, nem nada disso. Eram pessoas infelizes que estavam sendo exterminadas. Na época, Bernard Kouchner, que foi o iniciador do Médicos Sem Fronteiras, ajudava cristãos e muçulmanos. São manifestações de cidadania terrestre. A Anistia Internacional é uma associação que vocês devem conhecer, sem dúvida. Em todo lugar do mundo onde há tortura e prisioneiros políticos, essa associação trabalha para divulgar os problemas causados pela repressão. Eles tiveram ações no Brasil durante um bom tempo. Na França, houve um relatório da Anistia Internacional há menos de um mês, denunciando torturas praticadas por policiais franceses. A Anistia Internacional trabalha em todos os países e representa uma vontade de cidadania terrestre. Há também a Survival Internacional, da qual me orgulho de participar, que se preocupa com o destino das pequenas nações que estão em vias de eliminação. Vocês podem pegar também comunidades indígenas na Amazônia ou na Colômbia, que têm um território que lhes foi dado legalmente, mas, assim que aparecem interesses políticos, elas são destituídas de seu território. A própria História do Brasil é muito rica em destruição humana, principalmente a dos índios. A Anistia Internacional até consegue resultados. Por exemplo, no caso do Timor Leste, na Indonésia, onde houve um massacre ou nas pequenas nações do mundo sem defesa porque não têm Estado nacional para defendê-las. São os representantes da humanidade arcaica, ou seja, da humanidade como ela apareceu há milhares de anos e que criou a cultura humana. São os nossos ancestrais. Eles ainda têm tesouros de culturas, não somente superstições, mas culturas e há muita sabedoria nesses povos e nessas nações. Quando sabemos que o tesouro da humanidade é a diversidade e a condição de que ela salve sua unidade, é evidente que precisamos salvar a diversidade em todas as áreas, não somente a vegetal ou a biológica, mas também a diversidade criadora. Temos o Greenpeace, associação planetária de defesa da biosfera, que quis lutar contra as explosões francesas no Atol Moruroa, na Polinésia Francesa. Temos numerosas associações não governamentais de todas as ordens, algumas reconhecidas pela ONU e pela UNESCO, que fazem um trabalho muito útil, colocando problemas fundamentais.

A cidadania planetária não é contraditória com outras cidadanias. É perfeitamente possível ser um cidadão de sua nação, um cidadão europeu ou latino-americano, assim como ser um cidadão da Terra. É preciso que assumamos isso, porque hoje se tornou vital. O desenvolvimento dessa nova globalização é vital, porque é preciso implementar uma reforma de pensamento. Por quê? Porque, antes de mais nada, precisamos interpretar o mundo e não o encarar como fatias estanques. O Brasil não está separado da América Latina, que por sua vez não está fora do continente americano e de trocas planetárias. É preciso refletir sobre essas mudanças que são aceleradíssimas. Há tantos fatores em jogo, que muitas pessoas acabam se perguntando: o que é mais importante? Alguns disseram, durante algum tempo, que era o controle demográfico, já que os índices de demografia no mundo estavam crescendo tanto, que iríamos ficar submersos por esse crescimento populacional incontrolável. Isso vigorou durante 30, 40 anos. Mas as pessoas que pensavam dessa forma deveriam saber que, em função da evolução de uma nova vida, a demografia decresceria. As pessoas deixaram de ter filhos na medida em que tiveram melhores condições financeiras, sem contar que houve todo um progresso, anticoncepcionais se desenvolveram. A história dos anticoncepcionais surgiu a partir de práticas espontâneas difundidas na Europa, a partir dos séculos XVII e XVIII, inicialmente nas classes mais abastadas, depois se expandiram. Era o “coitus interruptus”, que é uma prática psicologicamente muito desagradável, pois, como vocês sabem, no coito interrompido, o parceiro é obrigado a se retirar antes da ejaculação, no momento mais precioso. O que estou falando é puramente científico, mas dói muito para ele e não é muito satisfatório para a parceira. A minha geração viveu isso. Depois, vieram os preservativos e há nações inteiras que acabam, como na China, fazendo até contenção dos desejos da carne, porque os rapazes são considerados de grande valor e as meninas são até mortas ou eliminadas. Há mais mulheres do que homens sobre a Terra. É curioso, mas é assim. Ainda não se chegou ao nível de perigo máximo. Não é o problema demográfico o problema número um, mas é uma questão que se coloca nos dois sentidos, porque também há um fenômeno de despovoamento, quando há um declínio de crescimento demográfico, como na Europa. Isso começou, em 1951, em Berlim e se multiplicou por outros países. São questões que estão presentes. Talvez não seja a questão número um a pensar, porque a ecologia vem antes, a questão nuclear também e a nutrição em geral. Aí se diz que a população é demasiada em relação às fontes alimentares disponíveis. Hoje, porém, dispomos de meios para rentabilizar a distribuição dos alimentos, por exemplo, na Índia, a produção de arroz seria capaz de abastecer toda a população; a China, que atravessou crises horrendas por razões políticas, muito mais do que por razões climáticas, também se serviu do arroz e depois houve a revolução verde e a piscicultura. Então, é possível alimentar o planeta. Ainda que haja fome e subnutrição, é de responsabilidade de um Estado sociopolítico e econômico suprir essas necessidades. Na África, como na Abissínia e em outros países, houve problemas e recursos são enviados, mas na verdade o auxílio é desviado por burocracias e máfias. Não é o alimento que falta, mas é a organização para fazer face à corrupção e há o problema da economia globalizada. Todas essas questões estão vinculadas umas às outras.

É muito difícil entender o planeta. Por quê? Porque, como eu dizia, os processos estão superacelerados. Já é suficientemente complicado entender, como dizia Ortega y Gasset: “Nós não sabemos o que acontece e isso é o que acontece”. É sempre preciso que um determinado período de tempo ocorra, porque é preciso dar um tempo desde a ocorrência do evento até que entendamos o que aconteceu. Hegel, por exemplo dizia: “O pássaro de Minerva abre as asas e voa ao crepúsculo”. O que queria Hegel dizer com isso? O pássaro de Minerva é a coruja, o pássaro da sabedoria. Vocês sabem que Minerva é Athena, Minerva é o nome de origem romana e Athena é grego. É a deusa da sabedoria. Então, a ave de Minerva voa ao crepúsculo, quando a noite está caindo, ou seja, com um atraso sobre o que aconteceu no decorrer do dia. Em outras palavras, a consciência tem sempre um inevitável período de retardo sobre os processos e, dada a velocidade com que as coisas acontecem, como a internet que virou uma explosão em pouquíssimo tempo e, com a informática, há montanhas de pensamentos e informações que chegam e a gente se sente completamente repleta e compelida a pensar no mundo. Mas como, de que jeito? Ainda mais que esse mundo está em crise, o planeta parece um turbilhão em movimento frenético, incessante. Então, não há como pensar o mundo, refletir sobre ele, mas é preciso fazer um esforço para pensar da maneira menos ruim possível. Então, tentamos uma concepção polivalente, policêntrica. Um europeu é um “eurocêntrico”, um americano é um “americocêntrico”. Mas isso não serve. Você tem que ter glóbulos oculares polivalentes, diferentes visões, como a visão de um asiático ou de um sul-americano e se expandir a todos os aspectos do planeta. Isso é um pensamento complexo. Quando a globalização pede que haja uma reforma para poder entender o mundo, é preciso que sejamos capazes de entender a unidade na diversidade. Já disse tudo isso. Se a gente aceita que todas as culturas sejam destruídas e temos uma visão abstrata do ser humano, é uma tragédia. E se vemos apenas a diversidade é porque perdemos a unidade. Nós sabemos que é a unicidade humana que gerou a diversidade e que uma nutre a outra. A criação é possível, uma vez que as culturas permaneçam abertas. O que há de maravilhoso nas culturas é que elas querem buscar a sua sobrevivência, mas uma cultura rica é uma cultura acolhedora, que é capaz de receber o que vem de fora, de aceitar e ser capaz de fazer uma nova síntese. Eu particularmente gosto do flamenco, da Andaluzia. É uma música tipicamente única daquela região, de grande beleza trágica. Os nômades que vieram da Índia dançam a dança flamenca com alguns gestos que são de origem indiana e isso denota a integração entre o canto cultural que vem do fundo da garganta. Isso é de influência árabe, porque houve muitos séculos de vida árabe influenciando os ciganos da Andaluzia, com a contribuição da cultura judaica. Tudo isso transformou a dança flamenca em um gênio criativo dos ciganos. Agora, cada vez mais, não somente os habitantes da Andaluzia, mas todos os espanhóis acabam redescobrindo o quanto gostam dessa música e há uma dialética entre eles. Foram os primeiros a fazer uma antologia do canto flamenco, pouco depois do término da Segunda Guerra, a partir de recompilações de antigas gravações de grandes cantores que já, antes da guerra, haviam gravado seus discos. Fizeram uma antologia linda de maneira que muitos aficionados que não necessariamente são espanhóis têm acesso a essa música. Em Paris, por exemplo, há uma associação que se chama “O Flamenco na França”, e eu pertenço, evidentemente, a essa associação, já que eu adoro o flamenco. A dança flamenca autêntica renasce junto com uma mistura que incrementa aspectos da música árabe e é aceita, como os Gipsy Kings. Há uma diversidade capaz de ser refeita através da miscigenação e da síntese. Quando se fala em world music, por exemplo, tem músicas de beleza estética profunda.

Então, precisamos pensar a unidade e a diversidade. Se formos incapazes, não dá. E isso não é ensinado em lugar algum. Ninguém ensina o próximo a aprender dessa forma. É por isso que defendo a reforma do ensino e que haja conhecimento de correntes de pensamento diferentes, que se faça ligação entre fenômenos estanques, pois isso permitiria que fosse ultrapassada a fronteira de separação entre as coisas e as correntes de pensamento. Para concluir, antes do intervalo, diria que, além da reforma do pensamento, que chamo de pensamento complexo, podemos dar outro nome a pensamentos complexos que estão fora de mim, fora de nós mesmos. Há outros que estiveram no pensamento filosófico, na história da ciência, na história da literatura, como os (pensamentos) de Marcel Proust. Mas o que eu quero dizer é que é preciso reformar o pensamento. São duas coisas que são sempre minoritárias na cultura dessa realidade europeia, mas são as duas criações mais ricas e vêm justamente dessa realidade cultural que falei outro dia, que a cultura europeia desenvolve sua criatividade depois do Renascimento, a partir do momento em que se cria um conflito e uma complementaridade entre, de um lado, a fé e, do outro, a dúvida, de um lado a razão e do outro a religião. São coisas que se combatem e se contaminam, e vão dar dois resultados dos mais importantes, dos quais precisamos justamente para reformular o pensamento. O primeiro é a racionalidade, não somente a racionalidade crítica, que é indispensável, mas a racionalidade autocrítica, que conhece seus limites e que combate seu inimigo íntimo, que é a racionalização. Qual é a diferença entre racionalidade e racionalização? Aparentemente, elas partem do mesmo desejo, quer dizer, compreender o mundo com a ajuda da lógica, da argumentação e da coerência, do acordo entre as ideias e os fenômenos do mundo externo. Mas a racionalidade verdadeira fica sempre aberta e pode modificar suas teorias, se houver eventos ou argumentos que contradigam essa teoria, enquanto a racionalização permanece fechada nela mesma. Aliás, a racionalização se faz geralmente sobre palavras de alguns fundadores e as teorias se referem ao fundador. Por exemplo, a gente sempre diz: Karl Marx disse ou Freud disse. Em outras palavras, é a referência à fonte infalível. A racionalidade é aberta e aceita um princípio que é o princípio da sua biodegradabilidade. Uma teoria racional sabe que ela pode se degradar e pode ser morta. A racionalidade então é diferente da racionalização. Mas a racionalidade autocrítica é uma coisa maior, é a consciência do limite da racionalidade diante dos enigmas e dos grandes mistérios do universo, mas o fato é que a racionalidade sozinha não é suficiente, pois precisa também da paixão humana. Aí também existem trabalhos recentes muito importantes, como o de De Masi ou de Jean Marie (?), um biólogo francês, que mostram que não existe inteligência fria. Em outras palavras, racionalidade sem elementos passionais. Isso também pode ser cerebralmente verificado. Aliás, é essa a diferença fundamental entre o computador e nós. O computador pode fazer operações muito mais rapidamente e muito mais complicadas. O computador pode fazer operações de uma lógica total, implacável. Ele pode usar os silogismos de uma maneira maravilhosa, mas o computador não tem sentimentos, não pode pular de uma ideia para outra, não sabe viver e supor problemas angustiantes. Ele pode resolver problemas que colocamos, mas não por si mesmo. Então, racionalidade e autocrítica são coisas extremamente úteis.

E o segundo elemento é a fé, mas a fé incerta. Também já falei sobre isso. Essa é a fé moderna. Pascal disse: “Eu sou crente, mas é uma aposta”. É a ideia da ligação da dúvida e da fé. Em religiões importantes como o cristianismo, muitas pessoas vivem isso. Toda a genialidade da obra de Dostoiévski, por exemplo, vem dessa complementaridade, desse conflito interior entre a sua vida e a sua fé. Miguel de Unamuno disse: “Sem dúvida, não é fé”. Todas as pessoas têm direito de ter suas próprias opções, mas penso que não é possível viver sem fé. Pode-se viver muito mal, mas não se pode viver sem fé, sem crença nenhuma, sem algum tipo de valor. Talvez, a fé na liberdade, na fraternidade ou no amor. Não é possível viver sem fé, mas é preciso saber que é uma aposta e é preciso ser consciente da aposta que se fez. A fé, a incerteza e a racionalidade autocrítica devem ajudar e contribuir para a reforma do pensamento. Vamos parar por aqui. Vamos tomar muito café, muito chá e comer biscoitinhos para ter força para recomeçar daqui a pouco. Obrigado.

(Intervalo)

 

Conclusão: O testamento do século XX 

Edgar Morin

Na última parte dessa corrida contra o relógio, o tema é o testamento do século XX. Antes da morte deste século, qual é o seu testamento? Primeiro, é um testamento de morte, não só pelo fim de duas guerras mundiais e as mortes que foram muito mais numerosas do que em todos os tempos, com todos os campos de concentração e extermínio. Não somente a morte em Kosovo, que agora atingiu também os sérvios, além dos habitantes de Kosovo, mas também pela morte potencial do gênero humano, a morte nuclear, cujo perigo cresce com a disseminação e a miniaturização da alma. Pode ser que um dia tenhamos até uma bomba atômica portátil... é possível essa concepção. É o crescimento da ameaça das ameaças em diferentes regiões do globo: a crise do Oriente Médio continua, a crise entre a Índia e o Paquistão está se agravando, há muitos conflitos na África. Nessa mensagem de morte, nesse testamento, há a ideia de que nasceu uma nova barbárie. Essa ideia advém da aliança entre as barbáries, uma muito antiga, que começou no início dos tempos, ao alvorecer da História, que se manifesta através de assassinatos, torturas, destruição do outro, ódio; e outra que é a barbárie moderna, que nasceu no seio da nossa civilização, que é fria, gelada, anônima, ligada à técnica, à burocracia, preocupada com o dinheiro. Essas barbáries já estão caminhando juntas, não há mais como separá-las. Nesse testamento de morte, há também o fato de que forças mortíferas que pensávamos que tivessem desaparecido reapareceram, porque são micróbios que se tornaram resistentes a antibióticos. São vírus cada vez mais pérfidos, que não param de se reproduzir, como o vírus da Aids, por exemplo. Há também essas forças de morte inerentes ao espírito humano que acabam se desenvolvendo.

Mas há uma outra morte: a morte da modernidade. É preciso ser cauteloso porque a definição da palavra modernidade pode variar. Alguns falam em pós-modernidade. Então, é preciso ver o que significa modernidade. Aquilo que morreu, será que era moderno? Era a fé na onipotência benéfica da técnica. Era a fé na onipotência benéfica da ciência. Era a fé na onipotência benéfica do desenvolvimento econômico como o motor do desenvolvimento humano. É a fé no progresso, concebido como a própria lei da História humana. Então, é a morte da fé na aventura vitoriosa do Ocidente, a fé no primeiro humanismo, sobre o qual eu falava antes, em que se pensava que o homem fosse dominar a natureza e o mundo. A gente percebe que dominar a fissão atômica já implica em um risco de suicídio e que a dominação dos germes em si é um risco. Então, é a morte da fé nesse mundo melhor que poderia gerar instrumentos de pensamento no mundo ocidental [sic]. No fundo, tanto Descartes como Marx pensavam ter em mãos os instrumentos para criar um mundo melhor. Era isso que o Ocidente achava ter conseguido. Mas tem uma coisa espantosa quanto ao colapso da União Soviética que é uma lição. É a da religião da salvação terrestre. Era uma coisa notável quando a gente via o pensamento de Marx, que era um pensamento que se proclamava científico e, no entanto, tinha a mesma estrutura do pensamento religioso judaico-cristão de que havia um Messias, um salvador, que era o proletariado industrial, que foi substituído pelo partido que o representava, que tinha a chave do futuro e da salvação da Terra. Essa salvação, essa fase final do grande combate entre as forças das trevas e do bem, até que viria finalmente a vitória do bem, implicava em uma sociedade harmoniosa e livre. Essa ideia de um futuro brilhante, de uma salvação de origem religiosa, mas em um plano terrestre laico, cai por terra. E não faz sentido nem a fé do mundo ocidental em uma sociedade harmoniosa, que se desenvolve com a expansão da indústria e da economia. 

Um dos pontos do testamento do século XX é a perda do futuro. A aventura do mundo ocidental e da era planetária, que é fundada nessa fé no progresso e na natureza de um futuro melhor, desapareceu porque o futuro foi perdido. Ninguém consegue prever o que vai acontecer no ano 2000, assim como há alguns meses ninguém diria que a guerra em Kosovo iria explodir no Daguestão. A gente vive nessa bruma na virada do milênio e essa perda do futuro deverá se transformar em um ganho. O ganho de uma consciência de que estamos trilhando uma aventura do desconhecido que deverá retroagir sobre todo o passado humano. Antes do progresso e da fé no progresso, as civilizações não viviam em função do futuro. Elas viviam em um universo cíclico com o retorno das estações. As grandes civilizações pensavam que todo o cosmos funcionava de maneira cíclica. Os astecas tinham ritos para evitar que o sol morresse, faziam sacrifícios humanos para a regeneração solar, tudo estava baseado em um ritmo, em uma repetição para a sociedade humana e para o cosmos. Essas sociedades tradicionais, que estavam baseadas no futuro, contradiziam as sociedades que viviam essa aventura do desconhecido, que era o caso de nossos ancestrais da pré-história. Toda a história humana é uma aventura do desconhecido. Sempre foi assim e nunca soubemos disso. Então, é um ganho de consciência que nos faz pensar que é preciso mudar a direção e o sentido da aventura atual, guiada por um desenvolvimento incontrolado das ciências exatas e técnicas. Aí também é uma coisa que apareceu raramente na ciência. A ciência nunca foi desenvolvida a partir de um programa. Ao contrário, se fosse um programa, ela não se desenvolveria. A ciência se desenvolveu como uma obra tumultuosa, por invenções que vêm de pesquisadores marginais que fazem descobertas capitais. A ciência nunca teve uma finalidade consciente. Houve um encontro entre a ciência e a técnica no século XIX para dar no que nós chamamos agora de tecnociência, uma formidável máquina que transforma toda a sociedade e toda a aventura planetária. Mas para onde estamos indo? Ninguém sabe. Nenhum cientista pode saber para onde está indo a ciência, se os produtos mais importantes dessa ciência vão ser produtos benéficos ou maléficos. Ninguém sabe quais vão ser as descobertas futuras. Então, a técnica também se desenvolve de maneira incontrolada. Nós não controlamos nada. Mas é certo que é aí que é necessário pensar. Conforme um filósofo, é preciso agora dominar o domínio. Nós temos o domínio sobre o material físico graças à ciência e à técnica e é esse domínio que precisamos dominar. Esse é o primeiro testamento do século XX.

O segundo testamento é que este século nos deu germes e embriões para um novo nascimento. Por que eu estou usando esse termo? Porque a humanidade não nasceu uma vez só. Quando consideramos a pré-história, vemos que houve um primeiro nascimento com o desenvolvimento de um pequeno bípede que sabe manipular e fabricar ferramentas. É um primeiro nascimento. Podemos dizer que há um segundo nascimento com o “homo erectus”, que soube domesticar o fogo e inventar a linguagem. Em outras palavras, inventar a cultura, que é um evento capital importantíssimo, transmitido de geração para geração e que pode ser desenvolvido. Há um terceiro nascimento: o “homo sapiens”, que trouxe não somente um novo desenvolvimento da técnica, mas também o surgimento da metafísica, a preocupação com a morte, a crença nos espíritos, a crença em um renascimento, o aparecimento de mitos e ideologias. E temos ainda mais um nascimento que é o aparecimento das sociedades históricas, todas essas sociedades pequenas, dispersas, que foram suplantadas progressivamente por sociedades potentes, enormes máquinas sociais. Um exemplo disso vem quando se pensa no Egito dos faraós, essa formidável mobilização do trabalho humano e de uma técnica ainda rudimentar para edificar as gigantescas pirâmides, os templos colossais de Karnak, ficamos estupefatos diante da potência que pode ser trazida pela civilização antiga e as técnicas nascidas do mundo moderno com a domesticação do vapor, da energia atômica, da eletricidade. Isso é um outro nascimento. E, hoje, vamos chegar a um novo nascimento, o nascimento da humanidade planetária que saberá se confederar e civilizar a Terra? Aí está o problema. Nós somos justamente isso, os germes dessa nova possibilidade. O processo de hominização que começou há alguns milhões de anos continua a se desenvolver de uma maneira nova. Estamos na era planetária desde o século XVI, mas estamos na idade do ferro. Isso quer dizer que, efetivamente, todo o progresso é pago por destruições, dominações, injustiças. É uma ideia que repeti várias vezes em livros diferentes, uma convicção pessoal que tenho de que estamos ainda na pré-história do espírito humano. O espírito humano ainda não desenvolveu suas possibilidades e, na minha opinião, o pensamento complexo é uma das possibilidades do desenvolvimento do espírito humano, mas certamente existem outras possibilidades desconhecidas. Então, como disse, perdemos o futuro, mas temos agora um excesso de futuros possíveis. Temos o futuro de aniquilamento, temos o futuro do neototalitarismo. Vocês sabem que os totalitarismos de Hitler e de Stalin hoje parecem infantis, seus meios de domesticação dos espíritos – a domesticação dos adultos - eram a propaganda, o ensino, a imprensa.  A marca da propaganda fica superficial, é possível se desembaraçar dessa propaganda. Em todos os países, a propaganda nunca ficou durante muito tempo. Na União Soviética, a maioria dos cidadãos já tinha deixado de acreditar no que o regime pregava, porque havia uma contradição entre a vida real e a lenda. Então, o novo totalitarismo pode utilizar a propaganda, mas existem meios químicos de intervenção sobre o cérebro humano. Existem métodos de normalização genética para eliminar genes que não interessam. Um sistema totalitário só funciona bem se você eliminar os desvios no nascimento. Tem que se eliminar os desvios desde que eles nascem, mesmo que seja um desvio potencial, porque senão ele se desenvolve e vai formando grupos. Pode-se destruir esses desvios com elementos químicos, assolar os espíritos. É possível que esse seja um dos futuros. Temos também um futuro confuso, com regressões para um tipo de Idade Média planetária, com algumas ilhas de civilização e com zonas de barbárie, como é mostrado nessa série de filmes australianos, Mad Max, que acontece depois do extermínio atômico. Temos futuros melhores também com a utilização dos frutos emancipadores da técnica. As obras de Toffler mostram como a técnica, as redes de informática, hoje, permitem ultrapassar muitos fenômenos de dominação, de hierarquia, porque o sistema das redes permite muita liberdade. É uma possibilidade evidente, mas talvez não seja a possibilidade mais provável. Existem possibilidades de submissão dos seres humanos às inteligências artificiais. Vou voltar posteriormente ao assunto. Citei o magnífico romance Hyperion e também o filme Matrix para dizer que esse tema da ficção científica já está presente entre nós. Eu repito: é a maneira artificial, o pensamento que rege as máquinas artificiais é o que controla atualmente nossa política, nossa sociologia, nossas administrações, nossas empresas, nossas usinas. Existem tentativas de reformas aqui e ali, mas a luta contra a inteligência artificial só está começando. Essas são as questões colocadas. Será preciso lutar contra a normalização, lutar em prol da diversidade. Há essa questão de ultrapassar as dificuldades, mas é tão difícil com todos os erros, todas as faltas. Nessa visão, nós precisamos reassumir nossas finalidades, nossos fins. Nós conhecemos os fins: civilizar a Terra, as relações humanas, instaurar a solidariedade, estabelecer uma confederação e uma cidadania terrestre por um mundo melhor. Nós sabemos disso tudo. O que não sabemos é qual o caminho a seguir. O que não temos é a chave do futuro. Durante muito tempo, pensou-se que a educação era a chave para o futuro. Eu particularmente acredito nisso, mas há um problema que já tinha sido colocado por Marx em uma das suas teses sobre Feuerbach, em que ele dizia: quem irá educar os educadores? A educação será boa se os educadores reeducarem a si mesmos. Hoje, as dificuldades são grandes, porque por todo lado a gente sente que é preciso que haja reforma do ensino, mas a gente não consegue pensar nela. Por quê? Porque a contradição é que para reformar a instituição é preciso reformar a mente e aí é preciso uma instituição reformista. Então, é um círculo vicioso.

Só há um caminho, uma maneira de conceber as coisas: tudo deve começar de maneira localizada, abrindo um desvio para fecundar um terreno que vai se enraizar e se desenvolver, crescer e se tornar uma força, uma potência. Citei o caso das grandes religiões e das grandes ideias, mas isso é possível mesmo com relação à reforma do ensino. Na Europa, a universidade se desenvolveu de acordo com o modelo medieval, ou seja, teológico, até o fim do século XVIII. Vocês sabem que essa universidade teológica medieval é representada na França pela Sorbonne, que é muito prestigiada. A Sorbonne condenou, nos séculos XVII e XVIII, todos os progressos da ciência. Tudo o que a ciência logrou, a Sorbonne condenou. Claro, não estava de acordo com o que dizia Aristóteles ou a Bíblia. Então, a reforma nasceu em um pequeno país periférico daquela época, a Prússia, na capital da Prússia, que era Berlim, onde havia um rei, um déspota iluminado que era Humboldt. Não o Humboldt que vocês conhecem, que viajou pela América Latina, mas o irmão dele, que era um pensador. Ele criou a universidade com departamentos, e foram incluídos departamentos de física, biologia, ciências, e as ciências se multiplicaram em várias disciplinas. Essa ideia de reforma brilhou rapidamente e tornou-se um modelo em toda a Europa, o modelo da universidade que hoje conhecemos no mundo todo. E é essa universidade que agora pede reformas, porque essas disciplinas compartimentalizadas, com fronteiras no seio do saber são difíceis para que a gente possa ver e pensar os problemas globais. De alguma maneira, seria preciso que uma certa reforma fosse feita. Nós não temos as chaves do futuro, mas podemos tentar fazer progredir a consciência, não só a consciência dos universitários, mas também a dos cidadãos, porque eles vão poder ter acesso à universidade. É um dos efeitos necessários da democratização. Não uma universidade de massa, que emprega meios anônimos para produzir especialistas em série, mas sim uma universidade para todos, a universidade capaz de reintroduzir as pessoas no ciclo da educação e em todas as fases da vida em função das novas descobertas, novas técnicas e novas maneiras de pensar.

Já que não temos a chave, qual foi o erro marxista?  Foi acreditar que era preciso acabar com a classe dominante e exploradora, os capitalistas, os burgueses e até mesmo os camponeses mais ricos. Aí percebemos que eliminamos todos esses grandes ou pequenos exploradores e criou-se uma nova exploração do homem pelo homem, uma nova maneira de dominar, uma nova hierarquia. No capitalismo, nos países democráticos, quando as pessoas faziam greve, os empregados não tinham quaisquer direitos, nem de sindicância. Não havia sindicatos capazes. Se a gente dizimar os donos do mundo, eles desaparecem mas aparecem outros, porque a estrutura do entendimento humano é que tem que ser mudada [sic]. E é preciso fazer isso sem ter a chave, mas é preciso para construir o futuro.

No entanto, temos algumas ferramentas na mão para entender o futuro. As grandes transformações acontecem sempre de maneira imprevista. Vamos imaginar um navegador extraterrestre que chegou de uma longínqua galáxia para observar a Terra e estivesse fazendo isso já há 4 milhões de anos. Ele estaria vendo o nosso planeta sofrer tempestades, erupções vulcânicas, terremotos. Esse observador diria: “Não acontece nada nessa terra. Como vai acontecer alguma coisa? O caos aqui é assustador, nada pode nascer”. Mas ele não terá visto que, graças a essa formidável agitação e convulsão, criaram-se turbilhões de macromoléculas que, ao se unirem, deram início às primeiras células vivas. Então, a vida nasce dessas convulsões. Como é que as células se uniram? Houve uma aproximação de moléculas e de elementos frágeis, que são as proteínas, que conseguem assumir formas tão múltiplas e depois se ligaram aos ácidos nucleicos, o DNA, que de certa forma é estável. É a estabilidade do DNA que confere a inscrição do código genético de um saber, de um patrimônio de conteúdo, de informações. É isso que cria a vida, quando há essa fusão. Se o mesmo observador chegasse na Terra há um milhão de anos e visse na savana alguns pequenos bípedes correndo atrás de um coelho ou sendo perseguidos por um leão, ele iria falar: “Isso é absolutamente ridículo. Esse serzinho ridículo não tem o menor futuro”. Como pensar que a partir desse pequeno bípede irão nascer a cultura humana e a civilização humana? Se ele voltar ao início dos tempos históricos, como poderia pensar que as sociedades que não conhecem a agricultura ou que não praticam essa cultura, só sabem pescar, vão conseguir se juntar no Oriente Médio, em Jericó, perto do Eufrates, e vão criar cidades e fortificações, milícias que vão se transformar em uma armada? Como se criaram essas sociedades? É muito difícil compreender, retrospectivamente, uma sociedade nova. É muito difícil compreender porque em todo processo novo há o papel da emergência, que é uma noção muito importante e necessária para compreender a complexidade do real. A emergência significa que, quando se cria um conjunto de elementos diferentes, o sistema adquire um certo número de qualidades, de propriedades que não existiam nos elementos diferentes quando estavam isolados. Por exemplo, a reunião de macromoléculas químicas cria uma organização viva que vai dispor de qualidades emergentes, qualidades de memória, de reprodução, de auto-organização, de movimento etc., de qualidades de vida. A sociedade produz uma cultura que volta aos indivíduos. Em outras palavras, qualidades emergentes aparecem a partir de um certo momento e não se pode prever essa aparição. Nós temos essa ideia de emergência e temos uma outra ideia que é a ideia de metamorfose. Vocês sabem muito bem o que é e ainda continua sendo um mistério biológico no mundo animal. Por exemplo, vermes que ficam fechados dentro de um casulo e que se transformam numa libélula, uma transformação completamente radical. Nós mesmos somos produtos de uma metamorfose. Alguns pequenos espermatozoides e um óvulo, uma bonita célula feminina, se transformam em um ovo e depois em um embrião que vai recomeçar toda a história da vida. Ele vai viver dentro de um meio aquático, não vai respirar diretamente o ar, como os nossos ancestrais marinhos e, depois, o nascimento também vai ser uma coisa transformadora. O cordão umbilical vai ser cortado, ele vai respirar o oxigênio com todo o seu pulmão, vai gritar. Nós mesmos somos, de uma certa forma, produtos de uma metamorfose dentro da barriga da nossa mãe.

O futuro não está escrito, as possibilidades são múltiplas. Mas a possibilidade de humanização demanda uma condição: que cada vez mais nos sintamos filhos e cidadãos da Terra e que, sem negar as nossas diferentes pátrias, possamos considerar a Terra como pátria, introduzindo essas noções maternas e paternas que a palavra pátria contém e que nos permite confraternizar. No fundo, através da nossa diversidade e da nossa mesma identidade humana, cerebral, genética, afetiva, temos todos a mesma condição de criança numa evolução biológica de filhos dessa Terra e vivemos hoje na comunidade de destino terrestre, da qual eu falei há pouco. Nós sabemos que essas são condições necessárias e a continuação não conhecemos. Então, estamos na incerteza. Existe um provérbio muito bonito que diz: “As noites estão grávidas como uma mulher e ninguém sabe como será o dia que vai sair dessa noite”. Estamos nessa situação e é aí que as coisas mudaram em relação à ideia de revolução que herdamos. A ideia de revolução, da revolução bolchevique, era a de arrasar tudo, partir do zero. Um trecho daquele canto da Internacional era: “Do passado, façamos tábula rasa. Vamos eliminar